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Porque a comunidade científica dizia "não" para o Brexit

Muitos temem a perda de talentos, financiamentos, negócios e colaboração, diz um antigo ministro da ciência

Antigo Ministro da Ciência do Reino Unido, Paul Drayson. Crédito: Robert D.Ward/Governo dos EUA /Wikimedia Commons

Nota da redação: No dia 22 de junho, a Scientific American publicou uma entrevista com o antigo ministro da ciência do Reino Unido, Lord Paul Drayson, sobre as consequências científicas da saída do Estado da União Europeia — o chamado “Brexit”. A votação, realizada ontem (23), resultou favorável para a separação. Abaixo, você lê a entrevista realizada anteriormente, nessa mesma semana.

Na quinta feira, o Reino Unido realizará uma votação histórica sobre se permanecerá na União Europeia ou se sairá do bloco econômico e político, em um cenário chamado de “Brexit”. O acompanhamento do referendo tem sido bastante dividido no Reino Unido, e pesquisadas indicaram um quase empate entre eleitores.

De acordo com um relatório da Casa dos Lordes (câmara alta do parlamento do Reino Unido) e de pesquisas recentes, uma maioria forte da comunidade científica acredita que o Reino Unido deveria permanecer. A Scientific American falou com Lord Paul Drayson, PhD pela Academia Real de Engenharia (FREng), sobre o porquê dessa opinião, e quais efeitos a saída teria nas pesquisas do Reino Unido e nas indústrias de tecnologia britânicas. Drayson também foi Ministro Britânico da Ciência de 2008 a 2010 e agora é CEO da startup Drayson Technologies, que desenvolve aparelhos de energia e redes de sensores sem fio.

Por que a comunidade científica é tão contrária ao Brexit?

Eu acho que existe esse componente quase filosófico envolvido na questão, que é a noção com a qual pessoas que trabalham na área científica crescem de que através de colaboração grandes insights científicos acontecem. Então a simples ideia de que um país se retiraria voluntariamente da Europa parece anátema para cientistas. A ciência se beneficia da maneira como nossos cientistas do Reino Unido podem colaborar livremente com outros cientistas da Europa, e existem muitos exemplos de como a comunidade científica como um todo se beneficiou dessa interação. E para alguns dos grandes problemas da ciência que estamos tentando resolver, seja ele algo que exige facilitações ou pesquisa através de múltiplos territórios, o fato de sermos parte de uma comunidade mais ampla é claramente útil. Seja o projeto do CERN ou do Horizon 2020 - existem muitos exemplos de projetos específicos que foram facilitados através da colaboração natural que vem junto com o fato de sermos parte da comunidade europeia.

Você acha que sair afetaria a habilidade do Reino Unido de atrair e reter talentos de primeira? Você acha que cientistas veriam isso e iriam pra outro lugar?

Eu estou na mesa do conselho da Universidade de Oxford, e Oxford tem muito claramente para si que sua habilidade de manter a posição como uma universidade de classe mundial seria negativamente afetada pelo Brexit, já que não seria mais capaz de atrair os melhores talentos da maneira como o fez até agora. Eu também administro uma companhia tecnológica em Londres, e nós estamos trabalhando em algumas áreas de ciência de ponta relacionadas ao design de antenas de radiofrequência, energia sem fio e software de aprendizagem automática. Agora, somos uma companhia pequena, 40 pessoas, mas porque temos base em Londres, e porque Londres é parte da União Europeia, é possível atrair pessoas da Romênia, França, Espanha, Portugal, que vem com PhDs nesses assuntos para participar da equipe daqui e contribuir muito. Então, não afetaria apenas nossas universidades líderes, mas também os negócios na área de tecnologia. Aqui estamos, é a semana de tecnologia de Londres, estamos celebrando o poço de energia que temos em Londres com as companhias tecnológicas. O Brexit seriam um grande sopro ao momentum que o cenário de tecnologia em Londres tem desenvolvido.

O Reino Unido recebe cerca de 10% de seus fundos para ciência de subvenções da União Europeia, mas o lado favorável ao Brexit argumenta que esses níveis não cairiam necessariamente, já que vários processos poderiam permitir que pesquisadores do Reino Unido ainda recebam concessões da União Europeia. Isso poderia funcionar?

Sendo o ministro da ciência que foi responsável por negociar essas coisas, eu sei o que é negociar da posição de um país que está dentro da tenda, e é diferente de países que estão fora. É melhor estar dentro. É um ponto bem óbvio, se você é parte de algo, então seus parceiros reconhecem que você tem uma voz no planejamento da agenda. Se você não é, então é justo e certo que esses parceiros digam “desculpe, você não é parte disso. Você pode colaborar, mas nos nossos termos.” Não é que você não pode negociar, não significaria que não teriam projetos de pesquisa colaborativas, é só que os termos sob os quais essas colaborações seriam feitas, a porcentagem de pesquisa que viria do Reino Unido e, portanto, a qualidade da pesquisa baseada aqui, diminuiriam.

Existem áreas específicas da ciência ou tecnologia que se prejudicariam desproporcionalmente?

Pegue a tecnologia aeroespacial, por exemplo, onde a Europa tem uma indústria vibrante e bem-sucedida. Quem compete com o Boeing? Bom, o Airbus. Por que o Airbus é competitivo? Porque você tem pessoas muito espertas no Reino Unido que sabem como desenhar asas usando compósitos. Agora, para ser possível empreender em pesquisa de tecnologia aeroespacial de próxima geração, você precisa ter uma base industrial que aguente sustentar facilitações grandes e caras e necessárias para fazer aquela pesquisa. Parte das consequência de sermos parte da Europa, como a indústria aeroespacial consolidou, é que significou que a Europa fez algumas identificações inteligentes de onde está localizada a massa crítica de especialização. Por exemplo, [a cidade no sudoeste da Inglaterra de] Bristol é um lugar que, em 1940, possuía especialização real na ciência de aerodinâmicas e desenho de asas, e isso levou ao fato de que eles ainda são uma parte muito bem-sucedida da indústria aeroespacial. Se não somos mais parte da Europa, isso teria um impacto bem significativo na direção futura do desenvolvimento do Airbus, e nós perderíamos. E essa é só uma indústria. Além disso, eu acho que as pessoas frequentemente falam e reclamam sobre burocracia, mas eles não falam sobre regulamentações através da Europa ajudando pessoas a viverem, de fato, uma vida melhor e mais saudável. E ter uma estrutura tão engajada na regulamentação facilitam as coisas de uma maneira que companhias de tecnologias pequenas como a minha acham muito mais fácil desenvolver produtos que, se tiverem aprovação, são aprovados no mercado europeu como um todo e não só no Estado membro. Assim, eles podem colocar seu produto no mercado de maneira eficiente e esse mercado está aberto para eles de um jeito que não seria o caso se não fossem membros. Então, você pode ver que toda a cadeia de inovação — da invenção, descoberta, pesquisa, até a comercialização do que foi pesquisado e a entrada de novos produtos no mercado, gerando riquezas, tudo seria negativamente afetado pela decisão de sair. Sim, nós poderíamos continuar como nação, mas seríamos diminuídos.

 

Karl J.P. Smith