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Porque o Mundo Não Vai Acabar

Nem mesmo o povo Maia registrou o fim dos tempos

Caroline Dodds Pennock
Templo da cidade maia de Chichen-itza. 
Se você acredita no Daily Mail, estamos todos convencidos de que o mundo vai acabar em 21 de dezembro de 2012.

Aparentemente pessoas estão armazenando comida e armas, fugindo para vilas remotas e dirigindo-se a montanhas místicas de onde ‘uma nave-mãe extraterrestre’ abrigada há séculos em um templo alienígena dentro da montanha ‘colherá os crédulos à segurança’ . ‘Com apenas dez dias até o apocalipse maia supostamente lançar a Terra no oblívio, o tempo está acabando para que os crédulos encontrem a salvação alienígena’, proclama o Mail.

Então por que toda a histeria recente? De acordo com o mito maia, o mundo foi criado em 11 de agosto de 3114 a.C. no Calendário Gregoriano; ou 13.0.0.0.0 pela contagem maia. Essa criação foi a quarta encarnação do mundo, com a era anterior terminando depois do décimo terceiro b’ak’tun (um ciclo de 400 anos).

Em 21 de dezembro será novamente 13.0.0.0.0 e o ‘Grande Ciclo’ será completado, levando o décimo terceiro b’ak’tun da era atual ao fim.

Algumas traduções dos glifos de uma estela Maia parcialmente ilegível sugerem que o fim do b’ak’tun atual será a ‘descida’ do deus Bolon Yookte’K’Uh (por vezes traduzido como ‘Deus dos Nove Pés’). Essa convergência de datas e profecias foi vista como marco da transição para o próximo mundo e, portanto, o fim deste.

Durante muitos anos, a escassez de referências de calendário a datas pós-2012 também foi vista como uma possível indicação de um fim do mundo cataclísmico em dezembro.

Mas, tirando a parte prática (quer dizer, quantos de vocês têm um calendário que vai até 2406 – um b’ak’tun no futuro?), até mesmo essa tênue evidência foi refutada pela descoberta de um antigo mural maia em Xultún, que inclui cálculos cosmológicos e de calendário que se esticam cerca de sete mil anos no futuro.

Certamente os maias pré-colombianos podem ter considerado 21 de dezembro de 2012 como uma data simbólica, um momento de possível transformação. Mas será que isso significa o fim do mundo?

É fácil zombar do Daily Mail (fácil demais...), mas para algumas pessoas o prospecto do apocalipse é um temor muito real.

David Morrison, do Instituto de Astrobiologia da NASA, conta que já recebeu milhares de perguntas sobre as previsões do fim do mundo em 2012. Algumas delas vinham de pessoas que estavam considerando o suicídio, porque estavam aterrorizadas com a ideia de passar pelo fim do mundo. Algumas pessoas estão clara e profundamente perturbadas com a recente obsessão com o apocalipse; mas o fato de as origens de seus medos jazerem em uma profecia maia altamente questionada e extremamente tênue é uma situação fascinante e desconcertante.  

De acordo com as lendas maias registradas eloquentemente no Popol Vuh do século 16, humanos foram criados nesse ‘quarto mundo’ quando os deuses moldaram nossos ancestrais a partir de massa de milho, massa de pão, mesmo, (depois de tentativas malsucedidas de criar homens a partir de macacos, madeira e barro).

Duvido que muitos dos que estão se ‘preparando’ para o fim do mundo ou para uma ascensão às estrelas com seus suseranos alienígenas, acreditem em mitos da criação pré-colombianos.

Mesmo se tivéssemos evidências conclusivas da crença maia no apocalipse de 2012, por que eles acreditariam em mitos de destruição? E se você não acredita em mim, por que não ouvir o que os próprios maias têm a dizer? Os maias modernos veem o ‘apocalipse’ como uma invenção europeia. Para eles, o fim do b’ak’tun é uma era de renovação e celebração, um novo começo, não um fim.

Então, apesar do espectro do fim iminente, vou continuar minhas compras de Natal, e esperar minha iminente licença de pesquisa, segura com o conhecimento de que os maias antigos não acreditavam que o mundo acabaria na sexta-feira. E mesmo que eles acreditassem, eu não acredito. 
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