Sciam
Clique e assine Sciam
Notícias

Primeiros embriões humanos são editados nos EUA, dizem cientistas

Relatórios sugerem que pesquisadores alteraram o DNA e fizeram poucos erros

Shutterstock
Em um passo que alguns dos principais cientistas dos EUA há muito tempo alertam contra e que nunca havia sido dado antes, biólogos de Oregon editaram com eficiência o DNA de embriões viáveis de humanos e, aparentemente, com pouco erros, de acordo com um relatório na revista científica Technology Review.

O experimento, usando a revolucionária técnica de edição de genoma CRISPR-Cas9, foi liderado por Shoukhrat Mitalipov, da Universidade de Saúde e Ciência de Oregon. Ele foi além de experimentos anteriores que utilizaram CRISPR para alterar o DNA de embriões humanos, todos conduzidos na China, na medida em que editou os genomas de muito mais embriões e mirou em um gene associado com uma significativa doença humana.

“Este é o tipo de pesquisa essencial caso quisermos saber se é possível fazer correções de forma segura e precisa no DNA de embriões para reparar genes causadores de doenças”, disse R. Alta Charo, estudiosa e bioética da Universidade de Wisconsin em Madison, à STAT. “Embora haja tempo para o público decidir se quer se livrar de obstáculos regulatórios para esses estudos, eu não os considero inerentemente antiéticos.” Essas barreiras regulatórias incluem a proibição do uso do financiamento do Instituto Nacional de Saúde para experimentos que usam tecnologias de edição de genoma em embriões humanos.

O primeiro experimento a utilizar CRISPR para alterar o DNA de embriões humanos, em 2015, usou embriões obtidos de clínicas de fertilidade os quais apresentavam defeitos genéticos tão graves que nunca poderiam ter se desenvolvido. No novo trabalho, Mitalipov e seus colegas criaram embriões humanos utilizando esperma doado por homens com a mutação genética que planejam tentar reparar com CRISPR. Os embriões são descritos como “qualidade clínica”. Um experimento de 2017, também na China, usou CRISPR para editar DNA em óvulos fertilizados normais e presumidamente viáveis, ou em embriões humanos unicelulares.

Também em comparação aos experimentos realizadas na China, aqueles conduzidos por Mitalipov produziram poucos efeitos “fora do alvo”, ou edição de genes que o CRISPR deveria deixar de lado. E o experimento evitou o que é chamado de “mosaicismo”, no qual apenas algumas células de um embrião possuem as mudanças de DNA pretendidas. Não deixaram que os embriões se desenvolvessem além de um estágio bastante precoce.

Como a mudança do DNA de um embrião precoce resulta em mudanças para células que eventualmente produzirão esperma e óvulos, se o embrião nasce e chega à idade adulta, qualquer criança que ele tenha herdará a alteração genética - o que é chamado de edição da linha germinal. Isso levou ao medo de que tais manipulações poderiam alterar o curso da evolução humana.

Isso também desencadeou alertas sobre os “bebês de grife”, nos quais os pais personalizam seus embriões de fertilização in vitro adicionando, removendo ou alterando genes para certos traços.

Um relatório recente da Academia Nacional sobre edição de genoma não exigiu uma moratória sobre a pesquisa em edição da linha germinal, argumentando que, algum dia, essa talvez seja uma forma de alguns pais terem filhos biológicos saudáveis, assim como quando tanto a mãe quanto o pai carregam mutações genéticas causadoras de doenças graves.

“Mas antecipamos que seria necessária muita pesquisa para ver se é possível realizar essas mudanças sem efeitos involuntários”, disse Charo, a qual co-presidiu o comitê da Academia. Mitalipov, que não respondeu aos pedidos de comentários, mostrou agora que a resposta para isso pode ser um sim.

Contudo, alguns estudiosos questionaram o quão importante é o novo estudo. Hank Greely, professor de direito e bioético da Universidade Stanford, comentou em sua conta no Twitter que “o ponto chave” é que ninguém tentou implantar embriões editados. “Pesquisar embriões” os quais “não serão transferidos para possível implantação” não é “um grande problema”, ele argumentou.

Sharon Begley, STAT

Republicado com permissão da STAT. Este artigo apareceu originalmente no dia 26 de julho de 2017.
Para assinar a revista Scientific American Brasil e ter acesso a mais conteúdo, visite: http://bit.ly/1N7apWq