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Pesquisadores propõem financiamento por pares

A alocação coletiva de financiamento de ciência promete agilizar investimentos em projetos de pesquisa 

Zadorozhnyi Viktor/Shutterstock
Por Hadas Shema

As agências de financiamento destinam verbas para pesquisas científicas com base principalmente em revisões por pares das propostas de pesquisa. Em 2010, mais de 15 mil pesquisadores revisaram mais de 55 mil propostas de seus colegas. Acredito que todos nós concordamos que o atual processo é caro e demorado.

Agora, os autores de um novo artigo propõem um sistema inédito que, de acordo com eles, nos poupará muito tempo, dinheiro e problemas.

O artigo é intitulado “Collective allocation of science funding: from funding agencies to scientific agency” (“Alocação coletiva de financiamento da ciência: das agencias de financiamento para a agência científica”), por Johan Bollen (um dos autores da dissertação “Twitter mood predicts stock market”), David Crandall, Damion Junk, Ying Ding e Katy Börner.

Basicamente, os autores gostariam de dar a cada cientista (eles se concentram nos Estados Unidos, mas suponho que o sistema funcionaria em outros países) uma determinada quantia de dinheiro para pesquisa, mas ele ou ela teria que repassar uma porcentagem para outros cientistas com projetos que consideram dignos de financiamento.

Cada pesquisador receberia o mesmo montante do governo, independente do instituto em que está sediado. No entanto, a quantia que ele ou ela receberá de outros pesquisadores dependerá de sua competência e desempenho individual como pesquisador.

Os autores dão o seguinte exemplo: suponha que cada pesquisador sênior nos Estados Unidos receba US$ 100 mil todos os anos e que um certo pesquisador recebeu, além disso, mais US$ 200 mil de outros pesquisadores. Ele será obrigado a dar 50%, ou US$ 150 mil, para outros cientistas e guardar o restante para sua própria pesquisa.

Isso economizará muito tempo e dinheiro que atualmente estão sendo investidos na redação de propostas e na revisão por pares.

A simulação

Os autores fizeram uma simulação usando citações (referências) como substitutos para a distribuição de verbas.

Eles extraíram 37 milhões de artigos acadêmicos, que continham um total de 770 milhões de referências, do Thomson-Reuters Web of Science para o período de 1992 a 2010. Em seguida, eles selecionaram entre os mais de quatro milhões de autores aqueles que entre os anos 2000 e 2010 redigiram pelo menos um artigo por ano.

O número total de nomes foi 867.872. Para cada dupla de pesquisadores eles contaram o número de citações que eles trocaram por ano (no período de 1992 a 2010) e recuperaram os registros de 109.919 cientistas que receberam 347.364 financiamentos dos NIH (National Institutes of Health) e da NSF (National Science Foundation).

A simulação começou com um orçamento de US$ 100 mil para cada autor e partiu do princípio que o valor que cada pesquisador alocaria seria proporcional ao número de vezes que eles citaram outros pesquisadores nos cinco anos antes da simulação.

É claro que se trata de uma simulação por substituição — os pesquisadores não alocariam recursos necessariamente para os mesmos pesquisadores que citam.

Em seguida, os autores compararam os nomes nos registros de financiamentos da NSF (National Science Foundation) e do NIF (New Initiaves Fund) com base no primeiro nome, sobrenome e nas iniciais do meio.

Ao todo 65.610 nomes combinaram exatamente. Além disso, eles compararam o financiamento de fato para o período 2000-2010 com o previsto. As correlações foram R = 0,268 (Pearson) e Spearman p = 0,300.

Os autores enfatizam que sua proposta financia pessoas e não projetos; o que concede aos pesquisadores mais liberdade que o sistema atual. Eles sugerem que talvez os pesquisadores sejam proibidos de fazer contribuições para seus colaboradores mais próximos, mentores e assim por diante, e que as decisões de financiamento permaneceriam secretas.

Não sei se essas sugestões podem impedir que os pesquisadores criem “cartéis de pesquisas” em que dois ou mais cientistas trocam financiamentos, mas isso é algo que veremos se e quando chegarmos lá.

Essa é uma forma de transformar a “economia da citação” em uma economia real, baseada em dinheiro.

Na tônica de seu pronunciamento na 14ª Conferência da Sociedade Internacional de Cientometria e Infometria (ISSI, na sigla em inglês) Bollen previu que os próprios pesquisadores famosos se tornariam agências de financiamento.

Imagine um mundo com muito menos propostas de subvenções para se escrever! O conceito é bem interessante, mas duvido que os governos permitiriam isso (SÓ LHES DAR DINHEIRO??!!).

Johan Bollen, David Crandall, Damion Junk, Ying Ding, & Katy Boerner (2013). Collective allocation of science funding: from funding agencies to scientific agency ArXiv arXiv: 1304.1067v1

Sobre a autora: Hadas Shema é uma estudante de graduação em Ciência da Informação na Universidade Bar-Ilan,em Israel. Ela estuda as características do discurso científico on-line e é um membro do projeto Carreiras Acadêmicas Compreendidas através de Medição e Normas (ACUMEN), da União Europeia.

Hadas tweeta em @Hadas_Shema.

As opiniões expressas são as do autor e não são necessariamente as da Scientific American.

sciam28ago2013