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Acordo para proteção da Antártida

Duas grandes reservas marinhas voltaram à agenda da comissão internacional

Shutterstock

Cientistas antárticos esperam que um acordo proteja os habitants e o ambiente ao redor do Mar de Ross. 

Por Daniel Cressey e revista Nature

Da revista Nature

Pesquisadores da Antártida esperam que propostas para criar duas enormes áreas protegidas no litoral do continente congelado tenham sucesso.

As áreas protegeriam focas, pinguins e peixes em várias faixas d’água através de zonas protegidas no Mar de Ross e no leste da Antártica. Elas também criariam zonas especiais de pesquisa para cientistas monitorarem o impacto da atividade humana e da mudança climática cada vez maiores nessa região isolada.

Em outubro último, as propostas foram rechaçadas em uma reunião da Comissão para a Conservação de Recursos Marinhos da Antártida (CCAMLR, pronunciado ‘cam-lar’), que tem a tarefa de supervisionar as águas da região. Os 25 membros do CCAMLR – incluindo Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e Rússia – não conseguiram chegar ao acordo unânime necessário para os planos, mas concordaram com uma rara reunião adicional para discutir as reservas marinhas.

Essa reunião em Bremerhaven, na Alemanha, termina em 16 de julho, e apoiadores dos planos estão otimistas.

“Tenho uma ótima sensação sobre as propostas dessa vez”, declara Andrea Kavanagh, diretora da campanha Southern Ocean Sanctuarius, mantida pela Pew Charitable Trusts, uma organização não-governamental com sede em Washington capital e na Filadélfia, na Pennsylvania. “A ciência já está pronta. Existe vontade internacional de fazer isso acontecer”.

Kavanagh declara esperar que ainda existam pontos problemáticos nas discussões. Um dos pontos cruciais será saber se essas áreas marítimas protegidas (AMPs) terão datas de validade ou se passarão por revisões mais tradicionais que possam alterar suas fronteiras ou usos. De acordo com Kavanagh, datas de validade significam que as reservas teriam que ser votadas novamente quando o acordo expirar, basicamente fazendo o processo de proteção voltar à estaca zero, então na prática essas áreas não seriam AMPs de acordo com as definições mais usadas.

As áreas e zonas exatas das AMPs – e especialmente as restrições de pesca dentro das águas protegidas – também serão debatidas na reunião.

Pinguins e krill

Os Estados Unidos e a Nova Zelândia são as forças motrizes por trás da proposta da AMP do Mar de Ross, que criaria a maior reserva marinha do mundo, banindo a pesca de 1,6 milhões de quilômetros quadrados de mar. Ela também criaria uma ‘zona de pesquisa’ especial, onde cientistas poderiam monitorar o impacto da mudança climática sobre o ecossistema e o sucesso da AMP.

A proposta sugere uma data de revisão em 2064, mas ela é escrita de modo que não seja possível presumir que a proteção acabará. “Um dos objetivos dos Estados Unidos é fazer ciência climática de longo prazo. Isso não pode ser feito dentro de uma ou duas décadas, você precisa de mais tempo”, observa Evan Bloom, diretor do Escritório de Assuntos Polares e Oceânicos do Departamento de Estado dos Estados Unidos. 

A segunda proposta estabeleceria várias AMPs no litoral leste da Antártica. No total, sete áreas seriam protegidas, salvaguardando a vida selvagem de criaturas como pinguins e krill.

“Esse seria um desenvolvimento histórico. Seria a primeira vez que uma área na Antártica foi protegida nessa escala”, observa Steve Campbell, diretor de campanha da Antarctic Ocean Alliance, uma coalisão de organizações não-governamentais que pedem a melhor proteção da região

Águas internacionais

Campbell concorda que as chances de ambas as propostas serem aprovadas em Bremerhaven são melhores que no ano passado. De acordo com ele, houve mais tempo para considerações e para o lobby, apesar de se acreditar que países, incluindo Rússia e China, ainda estão apreensivos com a escala dos planos de proteção, e especialmente com as restrições sobre a pesca.  

As propostas de AMPs estão sendo observadas de perto por advogados da proteção marinha longe da Antártica. O sucesso em estabelecer áreas protegidas perto do Polo Sul poderia abrir o caminho para as grandes reservas marinhas em águas internacionais que alguns pedem em outros lugares.

A CCAMLR recebe elogios de várias partes por ter encontrado um caminho ao redor dos obstáculos apresentados pela admnistração de recursos em águas internacionais, tornando essas propostas um teste crucial da vontade internacional de limitar atividades comerciais em alto mar.

“Se você não puder fazer esse tipo de coisa na Antártica, onde fará?”, questiona Bloom.

Se as propostas não forem aceitas em Bremerhaven, elas podem ser discutidas novamente na reunião anual da CCAMLR, em outubro.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira em 8 de julho de 2013.

 sciam14jul2013