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Publicações científicas adotam medidas para evitar fraudes

Editores tomam medidas para proteger credibilidade científica ameaçada pela desonestidade de alguns cientistas 

 

Dale Edwin Murray
Por Cat Ferguson, Adam Marcus, Ivan Oransky e revista Nature

A maioria dos editores de publicações científicas sabe quanto esforço é necessário para persuadir pesquisadores ocupados a fazer a revisão especializada de um artigo.

Por essa razão, Claudiu Supuran, editor-chefe do The Journal of Enzyme Inhibition and Medicinal Chemistry ficou intrigado com as revisões de manuscritos de um autor em particular: Hyung-In Moon, um pesquisador de plantas medicinais, à época na Universidade de Dongguk, em Gyeongju, na Coreia do Sul.

As revisões em si não eram notáveis: de modo geral eram favoráveis, com algumas sugestões sobre como melhorar os trabalhos. O incomum foi a rapidez com que eram concluídas — frequentemente em 24 horas. O processo era um pouco rápido demais e Supuran começou a desconfiar.

Em 2012, ele enfrentou Moon, que imediatamente admitiu que as revisões tinham sido concluídas [e enviadas] tão rápido porque ele mesmo havia escrito muitas delas.

Esquematizar a fraude não tinha sido difícil.

A publicação de Supuran e vários outros periódicos científicos publicados pela Informa Healthcare, em Londres, convidam autores para sugerir potenciais revisores para seus artigos. Portanto, Moon forneceu nomes; às vezes de cientistas reais e às vezes pseudônimos, frequentemente com endereços de e-mail falsos que levariam diretamente a ele ou a seus colegas.

Sua confissão resultou na retratação de 28 artigos por várias publicações especializadas da Informa, e à demissão de um editor.

O caso de Moon não foi uma ocorrência isolada.

Nos últimos dois anos, publicações científicas foram forçadas a retratar mais de 110 trabalhos em pelo menos seis casos de manipulação de revisão por pares. O que todos tinham em comum era que os pesquisadores exploravam vulnerabilidades nos sistemas informatizados das editoras para ludibriar editores a aceitar manuscritos, muitas vezes fabricando suas próprias revisões.

Além da Informa, os casos envolveram os gigantes editoriais Elsevier, Springer, Taylor & Francis, SAGE e Wiley, e todos exploraram falhas de segurança que, em pelo menos um dos sistemas, poderiam deixar pesquisadores vulneráveis ao roubo de identidade, um crime ainda mais grave.

“Para um software que é utilizado por centenas de milhares de acadêmicos em todo o mundo, isso é realmente revoltante”, indigna-se Mark Dingemanse, um linguista no Instituto Max Planck de Psicolinguística em Nijmegen, na Holanda, que usou alguns desses programas para publicar e revisar artigos.

Mas até o software mais seguro poderia ser comprometido.

É por isso que alguns observadores defendem mudanças no modo como editores destinam artigos científicos a revisores especializados. Eles querem acabar particularmente com o envolvimento de revisores sugeridos pelos autores de um manuscrito.

Até Moon, que assume toda a responsabilidade por ter indicado a si mesmo e aos amigos para revisar seus artigos, argumenta que editores deveriam policiar o sistema contra pessoas como ele.

“É claro que autores indicarão seus amigos, mas editores deveriam checar se eles não são da mesma instituição ou coautores em trabalhos anteriores”, argumentou ele em agosto de 2012.
A gangue de revisão por pares

O escândalo de Moon não é, de modo algum, o exemplo mais espetacular de manipulação de revisão por pares nos últimos anos.

Essa honra — ou desonra — é de um caso que veio à tona em maio de 2013, quando Ali Nayfeh, então editor-chefe do Journal of Vibration and Control, recebeu algumas notícias preocupantes.

Um autor que havia submetido um artigo à publicação lhe contou que tinha recebido e-mails sobre seu material de duas pessoas que alegavam ser revisores.

Ocorre que revisores paritários normalmente não têm contato direto com autores e, estranhamente, as mensagens se originavam de contas Gmail, de aspecto genérico, e não de contas profissionais institucionais que muitos acadêmicos utilizam (acesse “Red flags in review” [“Sinais de que um autor pode estar tentando burlar o sistema”], de 26 de novembro de 2014, em inglês).

Nayfeh alertou a SAGE, a editora em Thousand Oaks, na Califórnia, que publica a Journal of Vibration and Control.

Seus editores enviaram mensagens ao endereço de Gmail fornecidos pelo delator e para os endereços institucionais dos autores cujos nomes tinham sido usados, e pediram uma prova de identidade além de uma lista de suas publicações.

Um cientista respondeu — não só para informar que ele não tinha enviado o e-mail, como para dizer que nem ao menos trabalhava nesse campo.

Isso foi o gatilho para uma investigação de 14 meses que chegou a envolver cerca de 20 pessoas dos departamentos editorial, jurídico e de produção da SAGE. Ela [a investigação] mostrou que cada um dos endereços de Gmail estava ligado a contas do ScholarOne, da Thomson Reuters, um sistema de gerenciamento de publicações usado pela SAGE e por várias outras editoras, inclusive a Informa.

Os editores conseguiram rastrear todos os artigos que a pessoa ou as pessoas por trás dessas contas tinham alegadamente escrito ou revisado, informa Camille Gamboa, porta-voz da SAGE.

Eles também verificaram a terminologia das revisões, os detalhes sobre revisores indicados por autores, listas de referências e o tempo gasto nas revisões (em alguns casos, apenas alguns minutos).

Isso ajudou os “investigadores” da SAGE a descobrir mais contas suspeitas. Eles acabarm encontrando um total de 130. Enquanto examinavam a lista, eles notaram que autores estavam tanto revisando artigos, como se indicando mutuamente com frequência anormal.

No fim, foram identificados 60 artigos que mostravam evidências de manipulação de revisão por pares, envolvimento na gangue de indicação (citação) ou as duas coisas.

“Em vista da gravidade das descobertas, queríamos garantir que tínhamos pesquisado todas as possibilidades com o máximo cuidado concebível antes de contatar qualquer um dos autores e revisores”, explica Gamboa.

Quando a poeira baixou, descobriu-se que havia um autor no centro do círculo fraudulento: Peter Chen, à época um engenheiro na Universidade Nacional de Educação de Pingtung (NPUE, na sigla em inglês), em Taiwan, que era um coautor em praticamente todos os artigos em questão.

Depois de “uma série de respostas insatisfatórias” de Chen, a SAGE contatou a NPUE, que se uniu à investigação sobre seu trabalho, conta Gamboa. Em fevereiro de 2014, Chen se demitiu do cargo.

Em maio, Nayfeh se demitiu devido ao escândalo em sua publicação, e a SAGE entrou em contato com os autores de todos os 60 artigos afetados para informá-los de que seus trabalhos seriam retratados.

Chen não pode ser contatado para comentar essa matéria, mas a agência de notícias estatal de Taiwan informou em julho que ele havia divulgado uma declaração assumindo plena e exclusiva responsabilidade pela gangue de revisão e citação por pares. Ele também admitiu a “prática indiscreta” de incluir o nome do ministro da Educação de Taiwan como um coautor em cinco dos artigos sem seu conhecimento.

Esse ministro, Chiang Wei-ling, nega qualquer envolvimento, mas ainda assim se demitiu do cargo “para salvaguardar sua própria reputação e evitar distúrbios desnecessários no trabalho do Ministério da Educação”, de acordo com uma declaração pública.

Os danos colaterais não pararam aí.

Alguns autores pediram que a SAGE reconsiderasse e reinstituísse seus artigos, conta Gamboa. Mas a decisão da editora é final — mesmo que os autores em questão não soubessem nada sobre Chen ou o círculo de revisão por pares.
Brecha na senha

Moon e Chen se aproveitaram de um aspecto peculiar dos processos automatizados do ScholarOne.

Quando um revisor é convidado a ler um artigo especializado, ele ou ela recebe um e-mail com informações de login. Se essa mensagem for para uma conta de e-mail falsa, o destinatário pode se registrar no sistema sob qualquer nome que tenha sido submetido inicialmente, sem nenhuma verificação adicional de identidade.

Jasper Simons, vice-presidente de produto e estratégia de mercado para a Thomson Reuters em Charlottesville, na Virgínia, defende que o ScholarOne é um respeitado sistema de revisão por pares e salienta que é responsabilidade das publicações científicas e suas equipes editoriais de convidar revisores devidamente qualificados para seus artigos.

O Nature Publishing Group (NPG) é proprietário de algumas publicações científicas que usam o ScholarOne, mas a própria Nature e publicações com a marca Nature utilizam software diferente, desenvolvido pela eJournalPress de Rockville, Maryland.

Véronique Kiermer, editora-executiva da Nature e diretora de serviços de autores e revisores para o NPGem Nova York, declarou que o grupo não parece ter sido vítima de qualquer um desses esquemas manipulativos de revisão por pares.

Mas o ScholarOne não é o único sistema de editoração e publicação com vulnerabilidades.

O Editorial Manager, construído pela Aries Systems em North Andover, Massachusetts, é usado por muitas sociedades e editoras, inclusive a Springer e a PLOS. A Associação Americana para o Avanço da Ciência, em Washington D.C., utiliza um sistema desenvolvido internamente para seus periódicos científicos Science, Science Translational Medicine e Science Signaling, mas seu lançamento Science Advances, de acesso aberto, emprega o Editorial Manager. E a Elsevier, com sede em Amsterdã, na Holanda, usa uma versão de marca do mesmo produto, chamado Elsevier Editorial System.

O principal problema do Editorial Manager é o modo como ele administra senhas.

Quando usuários as esquecem, o sistema as envia para eles por e-mail em texto por extenso. Para a PLOS ONE ele até manda uma senha, sem ser solicitado, sempre que pede a um usuário fazer o login para, por exemplo, revisar um novo manuscrito.

A maioria dos serviços modernos da web, como o Google, oculta senhas sob camadas criptografadas para impedir que sejam interceptadas. É por isso que eles exigem que os usuários redefinam uma senha, caso a tenham esquecido, em um processo muitas vezes associado a outras maneiras de verificar sua identidade.

Brechas de segurança podem fazer mais que comprometer revisão por pares.

Como pessoas frequentemente usam senhas idênticas ou similares para muitas de suas atividades on-line, inclusive serviços bancários e compras, o envio da senha por e-mail apresenta uma oportunidade para piratas (hackers) irem além de danificar o registro de pesquisas.

O linguista holandês Mark Dingemanse, que já divulgou artigos em diversas publicações científicas que utilizam o Editorial Manager, inclusive em PLOS ONE, observa: “É surpreendente que eles ainda não tenham implementado um sistema seguro”. Nem a Aries Systems, nem a PLOS ONE responderam a vários pedidos de comentários.
Medidas de segurança

A proteção relaxada de senhas resultou em violações.

Em 2012, apublicação científica Optics & Laser Technology, da Elsevier, retratou 11 artigos depois que um desconhecido obteve acesso a uma conta de um editor e enviou trabalhos para endereços de revisores falsos. Os autores dos artigos retratados não foram implicados na pirataria, sendo convidados a submetê-los novamente.

Desde então, a Elsevier tomou medidas para evitar fraudes de revisores, inclusive ao implantar um programa piloto para consolidar contas de 100 de seus periódicos científicos.

O raciocínio é que reduzir o número de contas em seu sistema pode ajudar a revelar as que são fraudulentas, explica Tom Reller, um porta-voz da editora. Se for bem sucedida, a consolidação se estenderá a todas as suas publicações científicas no início de 2015.

Além disso, senhas não são mais incluídas na maioria dos e-mails do sistema editorial. E, para verificar as identidades dos revisores, o sistema agora integra a Open Researcher and Contributor ID (ORCID) em vários quesitos.

Esses identificadores ORCID, números exclusivos atribuídos a cientistas/pesquisadores individuais, foram desenvolvidos para rastreá-los através de todas as suas publicações, mesmo quando eles mudam de instituições.

O ScholarOne também permite a integração no ORCID, mas cabe a cada publicação decidir como usá-lo.

De acordo com Gamboa, ainda não é possível exigir uma identificação ORCID para cada revisor, porque o número de cientistas que adotaram o sistema é insuficiente. E há outro problema: “Infelizmente, como qualquer sistema de verificação on-line, o ORCID também está aberto ao risco de manipulação antiética”, observa ela — por exemplo, através do hacking.

Isso é um refrão comum.

“À medida que você torna o sistema mais técnico e mais automatizado, surgem mais formas de burlá-lo”, salienta Bruce Schneier, um especialista em segurança de informática no Centro Berkman para Internet e Sociedade da Harvard Law School, em Cambridge, Massachusetts. “Quase nunca existem soluções técnicas para problemas sociais”, resume.

Em última análise, recai sobre editores e editoras ficarem em alerta, especialmente quando contatarem potenciais revisores.

Verificar cuidadosamente endereços de e-mail é uma forma de expor (desmascarar) falsificações: um endereço não-institucional como uma conta gratuita do Gmail é uma “bandeira vermelha”, um sinal de alerta, dizem algumas fontes. Mas esse endereço também poderia ser perfeitamente legítimo.

Jigisha Patel, diretora editorial associada da BioMed Central, em Londres, ressalta que é definitivamente possível pegar enganadores quando se está alerta para e-mails duvidosos. “Tivemos alguns casos em que os pegamos manipulando os endereços eletrônicos para tentar roubar a identidade de alguém”, informa ela.

Mas uma triagem dessas é imperfeita.

Em setembro, a editora retratou um artigo publicado em BMC Systems Biology, declarando acreditar que “o processo de revisão por pares estava comprometido e inapropriadamente influenciado pelos autores”.

Alguns cientistas e editoras opinam que, para começo de conversa, publicações científicas não deveriam permitir que autores recomendassem revisores.

John Loadsman, um editor de Anaesthesia and Intensive Care, publicada pela Sociedade Australiana de Anestesistas, em Sydney, na Austrália, qualifica a prática como “bizarra” e “completamente maluca”, e enfatiza que sua publicação não permite isso.

Não está exatamente claro que proporção de periódicos científicos permite a prática, mas à medida que os diversos campos ficam mais especializados, ela [a prática] constitui um meio fácil para editores atarefados encontrarem revisores especializados e respeitados.

Jennifer Nyborg, uma bioquímica na Colorado State University,em Fort Collins, revela que a maioria das publicações às quais submete artigos pede os nomes de pelo menos cinco potenciais revisores.

Para a maioria das retratações dos 60 artigos pela SAGE, a revisão por pares original havia usado apenas examinadores indicados pelo autor.

Mas, apesar da experiência negativa, a Journal of Vibration and Control ainda permite que autores sugiram revisores especializados (e forneçam seus contatos de e-mails) quando apresentam um manuscrito — embora agora haja mais salvaguardas em vigor, observa Gamboa.

O Comitê de Ética em Publicações (COPE), que serve como uma espécie de bússola moral para publicações científicas (mas não tem autoridade para impor seu parecer) não tem orientações para a prática da recomendação de revisores, mas exorta as publicações a avaliar adequadamente os revisores.

Um bom procedimento é sempre verificar os nomes, endereços e contatos de e-mail dos revisores, observa Natalie Ridgeway, gerente de operações do COPE, em Londres. “Editores nunca deveriam usar apenas o revisor preferido”, salienta.

Publicações científicas do Nature Publishing Group (NPG) permitem que autores sugiram revisores. “Mas essas indicações não são necessariamente seguidas”, de acordo com Véronique Kiermer, da Nature. “Os editores selecionam revisores e essa escolha inclui verificar a ausência de conflito de interesses”, explica.

Por outro lado, autores podem solicitar que um editor exclua revisores que, em suas opiniões, têm conflitos desconfortáveis ou embaraçosos, como pesquisas concorrentes. Em geral, a editora respeita esses pedidos, desde que autores não peçam para excluir mais de três pessoas ou laboratórios, informa Kiermer.

Às vezes, a recomendação de revisores produz resultados indesejados.

Robert Lindsay, um de dois editores-chefes da Osteoporosis International, publicada pela editora Springer, reconhece que sua publicação permite que autores recomendem até dois revisores, mas admite que muitas vezes ele usa essa informação para descartar justamente esses especialistas.

Isso se fundamenta em experiências passadas, em que ele viu autores recomendar seus próprios contatos, ou pior: “Tivemos indicações de membros da família, pessoas do mesmo departamento, alunos de pós-graduação supervisionados por um autor”, exemplifica.

Em geral, sua publicação só usa revisores sugeridos, que passaram pela triagem, quando encontra dificuldades em encontrar outros cientistas para executar a tarefa.

Mas a triagem pode ser difícil.

Nos Estados Unidos e na Europa, editores normalmente conhecem a comunidade científica local suficientemente bem para detectar potenciais conflitos de interesse entre autores e revisores. Mas Robert Lindsay da Osteoporosis International argumenta que editores ocidentais podem achar isso mais difícil com autores da Ásia, “onde muitas vezes nenhum de nós conhece os revisores sugeridos”.

Nesses casos, a publicação insiste em pelo menos um revisor independente, identificado e convidado pelos editores.

No que Lindsay considera o pior caso que já viu, uma autora sugeriu um revisor que tinha um prenome idêntico ao seu, mas outro sobrenome.

Uma averiguação mais minuciosa revelou que este era o seu próprio sobrenome de solteira — ela havia recomendado que ela mesma revisasse seu artigo. “Não creio que ela vá submeter qualquer coisa a nós de novo”, conclui Lindsay.

Este artigo foi reproduzido com permissão e foi publicado originalmente em 26 de novembro de 2014.