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Quando o medo direciona a opinião pública sobre ciência

Conteúdo oferecido pelo CIB (Conselho de Informações sobre Biotecnologia)

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Laboratório de melhoramento genético de plantas
Há algumas décadas, a busca por informações sobre as tecnologias usadas para desenvolver alimentos era menor. Embora muitos fatores possam explicar a procura recente, não podemos ignorar o papel central que a internet hoje desempenha para a democratização do acesso a dados, inclusive sobre o desenvolvimento do que comemos. Com a atual demanda por informações, é imperativo que a ciência associada a essas inovações se torne acessível.

As diferenças de percepção entre cientistas e público leigo a respeito de diversas tecnologias são fortemente evidenciadas no relatório Public and Scientists View’s on Science and Society, publicado pelo Pew Research Center em 2015. Em temas como vacinação e alimentos transgênicos, o entendimento sobre a segurança dessas inovações é mais claro entre pesquisadores do que entre consumidores não vinculados à ciência. Dentre os casos citados, a maior diferença se dá quanto aos organismos geneticamente modificados (OGMs). A pesquisa mostra que 88% dos cientistas membros da American Association for the Advancement of Science (AAAS) acreditam que os alimentos transgênicos são seguros para o consumo, enquanto na população leiga o percentual é de apenas 37%.

Em agosto de 2017, uma pesquisa de opinião da Universidade de Michigan, da qual participaram 1.059 pessoas, permite mais uma reflexão sobre o tema. Segundo o trabalho, um percentual representativo (38%) diz conhecer bem como funciona a cadeia global da produção de alimentos. No entanto, praticamente o mesmo percentual de entrevistados (37%) acredita que apenas os OGMs possuem genes. Para estes, não há genes em produtos convencionais.
CIB (Conselho de Informações sobre Biotecnologia)
Ainda nos Estados Unidos, outro estudo conduzido com metodologia semelhante revelou que 84% dos entrevistados são favoráveis à rotulagem obrigatória de transgênicos. Surpreendentemente, quase o mesmo percentual (80%) demonstrou apoio à hipótese de rotular todos os alimentos que contenham DNA. Uma vez que quase 100% do que consumimos têm essa molécula, esse achado sugere que a apreensão em relação aos OGMs pode não ter relação com a especificidade dessa tecnologia e, sim, com o medo do desconhecido.
CIB (Conselho de Informações sobre Biotecnologia)
A mesma confusão foi observada em pesquisa brasileira conduzida pelo Ibope em 2016, na qual apenas 17% dos participantes concordam que ingerem DNA diariamente e 73% revelaram preocupação em consumir essa molécula
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Manifestante anti-OGMs nos EUA
Como a preocupação das pessoas tem se mostrado, com frequência, desproporcional quando comparada aos possíveis riscos das tecnologias, a comunidade científica, às vezes, se questiona sobre o quanto a opinião pública é relevante na aceitação de produtos decorrentes de avaliações respaldadas pela ciência. Entretanto, é razoável excluir os consumidores do debate sobre a produção de alimentos?

Diversos fatores psicológicos, culturais e econômicos podem levar os consumidores a desenvolverem convicções divergentes das da ciência e com elevado viés ideológico. No entanto, esse viés é ainda mais pronunciado quando a falta de informação predomina nos debates. Se a academia não se preocupar em comunicar suas descobertas para além dos fóruns técnicos, a opinião pública continuará refém de visões alarmistas e, sobretudo, infundadas. Com a atual disponibilidade de ferramentas de comunicação, a falta de diálogo é algo inaceitável.

A contradição das respostas dos consumidores revelada nesses estudos denuncia o quanto nós, profissionais de ciências da vida, ainda precisamos avançar em comunicação para diversos públicos e no engajamento da sociedade para que as percepções envolvendo produtos da ciência não sejam dominadas pelo medo e pela desinformação.

 

Por Adriana Brondani, bióloga, mestre e doutora em Bioquímica e Biologia Molecular. Desde 2011, é diretora-executiva do Conselho de Informações sobre Bioctecnologia (CIB).

 


Para conhecer mais:

Public and Scientists Views’s on Science and Society. Pew Research Center, 2015. Disponível em http://www.pewinternet.org/2015/01/29/ public-and-scientists-views-on-science-and-society/

What consumers don`t know about genetically modified food, and how that affects beliefs. Brandon R MacFadden and Jayson L Lusk. The FASEB Journal, Vol 30 (9), 3091- 3096, 2016.

Estudo de percepção sobre transgênicos na produção de alimentos. Conselho de Informações sobre Biotecnologia, 2016. Disponível em http://cib.org.br/estudos-e-artigos/estudo-depercepcao-sobre-transgenicos-na-producao-de-alimentos/

Food Literacy and engagement poll. Michigan State University, 2017. Disponível em http://food.msu.edu/articles/msu-food-literacy-and-engagement-poll
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