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Queimada de colheita de cana afeta saúde infantil

Ao mesmo tempo, pesquisa mostra que as crianças podem se beneficiar da renda que os incêndios para colheita trazem aos seus pais

Shutterstock

A poluição decorrente de incêndios controlados que são ateados no estado de São Paulo durante a temporada de colheita de cana-de-açúcar impacta negativamente a saúde infantil nas regiões onde acontecem. Mas a saúde dessas mesmas crianças provavelmente se beneficia das oportunidades econômicas que as queimadas trazem aos seus pais.

Pesquisadores das universidades de Princeton e Duke juntaram informações de satélites, monitores de poluição e registros de nascimento para entender essas influências concorrentes e medir precisamente o impacto da poluição das queimadas.

Eles descobriram que a exposição à poluição dos incêndios nos últimos meses de gestação leva a nascimentos prematuros e a bebês menores, e encontraram algumas evidências relacionadas a um aumento na mortalidade fetal. Sabe-se que as condições na vida primária, incluindo aquela no útero, afetam os resultados da criança a longo prazo, não apenas em termos de saúde, mas também seu sucesso econômico e acadêmico.

As descobertas sugerem que os políticos do Brasil e de países em desenvolvimento em geral deveriam prestar mais atenção aos impactos negativos para a saúde gerados pelas queimadas, que são parte das técnicas agrícolas tradicionais, mesmo que a poluição não atinja normalmente níveis considerados perigosos pelos padrões industriais.

"Legisladores pensam frequentemente em cidades altamente poluídas, como Pequim ou Nova Delhi, mas nossos resultados mostram que essas queimadas da agricultura são muito importantes,” disse Tom Vogl, professor assistente de economia e relações internacionais em Princeton.

Vogl e o coautor Marcos Rangel, professor assistente na Escola Stanford de Políticas Públicas da Universidade de Duke, detalharam suas descobertas em um estudo intitulado "Agricultural Fires and Infant Health", publicado online em dezembro pelo National Bureau of Economic Research.

O Brasil é o maior produtor de cana-de-açúcar do mundo, e o estado de São Paulo é responsável por mais de dois terços da produção nacional. A abordagem tradicional de colheita começa com a queima dos campos para remover palha e outros materiais, deixando a cana para ser cortada à mão. Embora a colheita mecânica, que não utiliza fogo, esteja se tornando mais comum no país, técnicas tradicionais ainda são amplamente usadas lá e em outros países em desenvolvimento.

Os pesquisadores usaram dados de sensoriamento remoto de satélites para rastrear incêndios, que queimam durante os seis meses da temporada de colheita. Os dados foram combinados com informações sobre poluição e clima coletadas por 13 estações de monitoramento da qualidade do ar.

"Nós descobrimos que os incêndios que estão a barlavento de centros populacionais aumentam os níveis de poluição nessas áreas e outros incêndios não aumentam tanto a poluição,” afirma Vogl.

Os pesquisadores, então, ligaram as informações sobre o fogo e a poluição a registros civis e de hospitalização do governo brasileiro. Juntas, as informações permitiram aos pesquisadores comparar como a saúde das crianças respondia aos incêndios de surtiam efeitos diferentes na poluição de suas comunidades.

A chave para o design da pesquisa, Vogl afirma, foi incorporar a informação sobre a direção do vento, que permitiu com que os pesquisadores analisassem as consequências da poluição das queimadas e os benefícios correlacionados com os incêndios.

"Nós teríamos a resposta totalmente errada se apenas olhássemos para a relação entre os incêndios e a saúde infantil em geral,” diz Vogl. “Isso porque esses incêndios na agricultura estão ligados com atividade econômica. Quanto mais colheitas, mais incêndios. E quanto mais colheitas, maiores os lucros e a entrada de renda, o que pode ser bom para as crianças e saúde delas.”

Rangel adiciona que o desenvolvimento de políticas sustentáveis precisa levar em consideração as relações entre objetivos econômicos e ambientais.

"Nossos resultados apontam para um lado sujo da política de combustíveis limpos no Brasil,” Rangel afirma. “De certo modo, o incentivo da produção de etanol para agir como combustível sustentável em áreas urbanas tem efeitos colaterais consideráveis na população e nas futuras gerações das áreas de produção. Ao medir apropriadamente o quanto de doença vem junto com as bençãos de um ciclo agricultor forte, nosso trabalho ressalta a necessidade para políticas baseadas em evidências ao redor do mundo,” explica Rangel.

Prashant Bharadwaj, professor assistente de economia na Universidade da Califórnia-San Diego, que estuda economia do trabalho e desenvolvimento, diz que a pesquisa ajuda a preencher um vazio importante ao olhar para a poluição moderada e persistente como a advinda de incêndios de colheita.

"Queimadas controladas com o intuito de ajudar na agricultura são muito populares em países em desenvolvimento onde a densidade populacional próxima a áreas agrícolas é tão grande; por isso, o estudo tem implicações importantes não apenas para grandes áreas mundiais, mas também para a porção significativa da população mundial que reside em cenários agrícolas mais pobres,” afirmou Bharadwaj. Vogl diz que os pesquisadores, que iniciaram a colaboração quando Rangel visitava um professor em Princeton, estão trabalhando para aplicar a mesma técnica para examinar incêndios agrícolas na África.

Universidade de Princeton

 
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