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Quem construirá a primeira estação espacial comercial do mundo?

Start-up quer adicionar uma nova construção à Estação Espacial Internacional como preparação para posto orbital privado

Joel Kowsky/NASA
Michael Suffredini tem grandes planos de negócios para a baixa órbita terrestre. Depois de uma década como gerente de programa da Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) da NASA, ele se aposentou da agência em setembro de 2015 para buscar oportunidades no setor privado, convencido de que uma era de ouro do voo espacial comercial estava surgindo. Em parceria com Kam Ghaffarian, diretor executivo da SGT, companhia que presta serviços para a ISS para a NASA e também treina astronautas americanos, Suffredini co-fundou a Axiom Space no início de 2016.

Como presidente da Axiom, o objetivo de Suffredini é simples: construir e lançar a primeira estação espacial privada do mundo, utilizando a ISS como ponto de partida. A companhia está conversando com a NASA para instalar um novo módulo comercial no único portão de encaixe disponível da ISS entre 2020 e 2021, e atualmente está planejando a construção e voo do módulo com fabricantes aeroespaciais e fornecedores de lançamento. O módulo da Axiom seria a fundação para uma estação espacial privada cuja estreia aconteceria depois da aposentadoria da ISS, que está temporariamente prevista para 2024. Desacoplado antes de a ISS ser desativada para queimar na atmosfera da Terra, o módulo do Axiom permaneceria em órbita para servir como a primeira seção da estação privada.

Entretanto, a Axiom não está sozinha em sua tentativa de se aproveitar da ISS. Outra companhia, a Bigelow Aerospace, já está ocupando um portão da ISS com seu Módulo de Atividade Expansível Bigelow (BEAM, na sigla em inglês), um módulo com o tamanho de um quarto que serve como uma instalação de testes para sua própria linha de estações espaciais comerciais “infláveis”. O próximo grando projeto da Bigelow - um módulo inflável muito maior, em parceria com a United Launch Alliance - poderia ser colocado no ar já em 2020. Ele pode competir diretamente com a Axiom pelo último portão de encaixe disponível da ISS, além de dominar o que poderia ser um emergente mercado multibilionário na órbita baixa terrestre, centenas de quilômetros acima de nós.

Suffredini conversou com a Scientific American sobre os planos da Axiom, o legado da ISS e a corrida por uma estação espacial comercial.

As pessoas têm falado sobre estações espaciais privadas por décadas, antes mesmo até do início da construção da ISS em órbita. Por que agora é o momento certo de torná-las realidade?

Para mim, está claro que há uma crescente necessidade de uma estação espacial privada. Nossa visão é tornar a vida e o trabalho na órbita da Terra algo comum, como um meio para sustentar a exploração do espaço profundo. Mas para construir uma capacidade de exploração sustentável, precisamos ter uma plataforma na baixa órbita terrestre. Não é razoável esperar que façamos um programa de exploração sustentável sem a capacidade de testar sistemas e estudar a adaptação humana ao espaço em órbita baixa terrestre. Então, na minha cabeça, isso é um fato.

Contudo, para fazerem isso, para que os governos possam explorar mais, eles não podem pagar por si mesmos por infraestrutura na órbita baixa da Terra. Para mim, a uma solução razoável é ter uma plataforma comercial viável a qual os governos possam utilizar quando precisarem - não sendo necessário ser dono dela, ou operá-la - e no nível que for necessário. Não como um inquilino fixo, que sempre paga essa conta. Mas um lugar onde, se você precisa fazer alguns testes ou trabalhos, você irá fazê-los e depois segue em frente. Queremos ter certeza de que todos aqueles que desejam trabalhar no espaço hoje tenham um local onde possam ir, fazer seja lá o que eles estão fazendo, sem precisar começar de novo desnecessariamente. Isso economiza custos.

Bill Gerstenmaier [chefe de voo espacial humano da NASA] disse que a NASA vai ceder a órbita baixa terrestre para a indústria comercial em algum momento. Os sinais são claros. Então eu realmente acho que é o momento certo. Acreditamos que há seis setores que compõem um fluxo de renda plausível, e se você olhar para as possibilidades de negócios neles você percebe que sim há um mercado lá que pode apoiar algo como a Axiom hoje, e que o mercado crescerá com o passar do tempo. Você vai e faz suas contas e vê quanto custará para construir e operar sua estação - e se suas projeções dizem que você vai ganhar dinheiro e ser uma empresa saudável, é isso que você faz. E isso é o que nossa análise nos disse.

Quais são os seis setores?

Vamos começar com aqueles que você provavelmente reconhecerá primeiro: pesquisa científica. Fabricação em órbita. E algo que eu chamo de "teste de sistemas de exploração". Esses são todos os testes feitos hoje na ISS para se preparar para missões no espaço profundo. Hoje a tecnologia é demonstração, amanhã serão testadas versões de menor escala de sistemas para exploração de espaço profundo. Em seguida, eles vão construir projetos finais de sistemas e testá-los por longos períodos. E então há também toda a pesquisa sobre respostas humanas ao voo espacial - eu considero isso como teste de sistema de exploração também. Mas na verdade serve para para atender a todas as necessidades dos exploradores para que eles se certifiquem de que seus sistemas farão o que se espera deles quando estiverem longe de casa. Depois, há o turismo, o qual é muito fácil de entender. Há também publicidade e gestão de marca, algo não muito feito na ISS hoje, mas que poderia ser feito mais intensamente em uma estação comercial. Não é um mercado enorme, mas é perceptível.

Contei apenas cinco...

Deixei o melhor por último. O último setor é algo que acredito que só a Axiom é capaz de providenciar: ajudar mais governos a entrarem no negócio do voo espacial com seres humanos. Existem muitos países que desejam ter um programa espacial significativo, fazendo seus cidadãos voarem mais como astronautas do que como turistas. O desenvolvimento de tecnologia associada pode ajudar a estimular economia e indústria, conduzir a educação científica, impulsionar o orgulho nacional e uma imagem global do país. Muitos países estão interessados nisso.

A mistura de pessoas muito talentosas e o nosso conjunto de capacidades na Axiom nos colocam em uma posição única para ajudar os países a identificarem o que é necessário para se tornarem espaciais, e treinarem seus astronautas por dois anos ou até um pouco mais, e então voar para a órbita por longos períodos de tempo - talvez começando com 60 dias, quando nosso módulo for anexado a ISS, até 180 dias, quando nos separarmos e formamos nossa própria estação. Daremos a eles treinamento de jato de alto desempenho, assim como os astronautas da NASA, e experiência em passeios extraveiculares no espaço. Eles passarão por todos esses processos normais para serem certificados como astronautas. E, ao longo do tempo, ajudaremos os países a desenvolverem capacidades in loco para que possam fazer seu próprio treinamento e operações, e talvez até mesmo trazer seus próprios módulos para a nossa estação espacial, em algum momento. Porque a maioria desses países quer participar da parceria que, acredito, irá explorar além da baixa órbita terrestre baixa. Quando formos além dela, deveremos fazê-lo como um planeta, não como um único país. Então essa é o sexto setor: essa oportunidade de treinar e colocar em órbita novos astronautas, e ajudar mais países a construírem programas de voo espacial humano.

Parece que você poderia obter negócios suficientes para justificar uma estação espacial privada agora. Então, por que levar os módulos primeiro para a ISS?

Estamos trazendo nossos primeiros módulos para a ISS a fim de fazer a transição do legado existente e também para continuá-lo. Na ISS, seja qual for o ano em que ela se encerre, cerca de dois anos antes as pessoas vão parar de fazer equipamentos, porque eles simplesmente não ficarão em órbita por tempo suficiente para justificar o investimento. Você acabaria com um declive [na atividade], e ninguém quer isso. Isso significa que a parte mais importante dessa idéia é ter certeza de que iremos construir e lançar nossos módulos e que essa transição seja feita antes da ISS se aposentar, o que poderia acontecer em 2024, de acordo com o plano da NASA. Por isso, estamos muito ocupados.

Quais você acham que são probabilidades da aposentadoria em 2024? Qual você acha que é o futuro mais provável da ISS agora?

Bem, odeio apostar em público sobre 2024.

Quanto mais cedo a ISS sair da órbita, mais cedo a NASA economiza três e meio ou até quatro bilhões de dólares por ano, dependendo de quando exatamente ela sair de órbita. Esse é o custo operacional anual da NASA. E, então, você olha para todos os outros sócios do governo, e entre todos eles há, provavelmente, cerca de um bilhão dólares mais em termos de custos anuais. É dinheiro que pode ser gasto em trabalhos de exploração, o que faz 2024 parecer desejável.

Na verdade, nós não precisamos decidir se a ISS deve se aposentar ainda por mais alguns anos. A NASA provavelmente não precisa decidir isso até 2020, embora os parceiros prefiram tomar essa decisão em 2019, porque é quando acontece a próxima reunião do conselho ministerial - essas reuniões estão em um cronograma de três anos, e 2022 seria bem tarde. Mas há uma escotilha para atracamento não utilizada e disponível agora na ISS. Então eu estou dizendo que precisamos que a NASA se comprometa a ceder essa escotilha para alguém, alguma entidade que queira tentar [construir estações espaciais privadas]. A ISS realmente só pode suportar um único módulo significativamente maior, principalmente devido a restrições de energia. Quanto mais cedo a NASA tomar essa decisão de dar a escotilha a alguém, então mais informados estarão quando precisarem decidir se devem estender a ISS ou não. Porque, então, serão capazes de ver o quão avançado estará aquela empresa que foi selecionada, em termos de fabricação, testes e possibilidade de lançamento ao espaço.

Então em vez de assumir uma data final, eu acredito que a melhor coisa para nós seja tomar estas decisões com antecedência, para possibilitar que uma organização comercial possa demonstrar sua viabilidade e isso ajude as agências a tomarem uma decisão embasada o quanto antes sobre realmente estender a ISS.

Então é necessário que haja competição por essa escotilha. Você está preocupado com competidores como a Bigelow Aerospace, que já está usando a ISS para testar tecnologias para seus planos de uma estação espacial privada?

Estamos realmente focados em nós agora - nosso produto, e torná-lo o melhor que ele pode ser para os clientes e para a NASA quando fizermos nossa proposta. Você está certo, a Bigelow tem sido muito aberta sobre o seu desejo de voar, mas não sei o suficiente sobre o que eles estão fazendo para dizer quão viáveis eles são. O que sei é que eles estão pensando em usar a tecnologia inflável. Módulos infláveis são muito legais, mas eles têm seus desafios. A forma como o material em si funciona está, hoje, sendo testada em órbita, mas há um truque muito grande em descobrir como você vai equipar os infláveis - onde todos os sistemas de encanamento e outras coisas irão e como garantir que bolsões obsoletos de ar não se formem dentro deles, já que isso poderia asfixiar uma tripulação. Há diversos tipos de coisas que precisam ser feitas - e tenho certeza que elas serão - mas, em um curto prazo, eu acredito que isso está muito além do tempo disponível. Na Axiom, a nossa preocupação é chegar à órbita o mais rápido possível. Nós realmente queremos voar no início de 2020 ou 2021.

Você mencionou que manter a ISS operando custa para a NASA, por si só, cerca de US$3,5 bilhões todo anos. É muito dinheiro - provavelmente dinheiro demais para uma empresa comercial sustentar atualmente - e ele não leva em consideração os custos de desenvolvimento ou aqueles assumidos por parceiros internacionais. Então, por que uma estação espacial privada seria mais barata?

Bem, essa é uma boa pergunta. Eu tenho quase que uma dissertação sobre como operaremos para reduzir custos. Nós vamos agir de forma diferente do que fazem os governos, e também usaremos novas tecnologias e aplicaremos lições que aprendemos com a ISS.

A indústria espacial começou há cerca de 50 anos e, na época, eles não tinham todas as técnicas avançadas de fabricação que temos agora, e não tinham tantas empresas concorrentes ou clientes. Vamos abrir uma concorrência pelo contrato de construção do nosso módulo para obter um bom preço, e o equipamento do módulo será composto de sistemas que podem ser usados amplamente em terra. Ele será construído usando técnicas de fabricação comuns à indústria comercial de hoje. As normas ASE, que se originaram na reparação automotiva, serão um ponto de referência - a SpaceX já usa padrões ASE para um monte de coisas. Utilizar peças de "grau espacial" sob esses critérios não é necessário quando outras peças mais baratas podem fazer o mesmo trabalho. Tudo será verificado, e verificado novamente para termos certeza de que podemos usar com segurança esses padrões aliviados - mas isso será amplamente possível. Então, estamos aproveitando ao máximo o modo como a indústria evoluiu, de modo a reduzir a quantidade de requisitos e verificações exageradamente especializados para grande parte do que teremos instalado nesses módulos. E se algo instalado lá atrapalhar, pode-se apenas de tirá-lo, ligar um novo e seguir em frente; estaremos trabalhando em uma ambiente de "encaixe e use". E tudo isso significa que estamos abaixando o custo de cada módulo.

Falando sobre “lições aprendidas com a ISS”, essa estação espacial, obviamente, tem sido controversa. Alguns defensores da exploração espacial a veem como um desvio ou um peso morto que tem nos impedido de retornar à Lua ou ir até Marte. Muitos cientistas acreditam que os retornos relativamente fracos de pesquisa não justificaram o seu imenso custo multibilionário. Críticas similares não poderiam ser levantadas também contra as estações espaciais comerciais, como a da Axiom?

Sabe, essa é sempre uma conversa difícil de se ter. Quando fomos à Lua, não foi realmente porque estávamos interessados nas rochas que estavam lá. Estávamos tentando provar ao mundo que éramos muito capazes tecnologicamente. Foi, na verdade, sobre nossas preocupações na era nuclear e se éramos tecnicamente superiores àqueles que considerávamos nossos potenciais adversários. E isso levou a um enorme investimento no espaço, do qual nos beneficiamos. A ISS não é diferente, embora ela tenha sido construída com a visão de que poderíamos ter essa estação como o primeiro passo em direção à exploração colaborativa do espaço profundo. Após o colapso da União Soviética, queríamos cooperar com os russo de modo grande, e essa foi uma grande força atuando durante todo o projeto. Houve todos os tipos de impacto a partir disso. Tivemos que lançá-la em uma inclinação [orbital] diferente ao redor da Terra para torná-la mais fácil de ser alcançada utilizando foguetes russos - o que complicou as coisas, mas foi finalmente aprovado devido à influência política que se obteve a partir daquela colaboração internacional.

A ISS foi um veículo fantástico para o que queríamos que ela fizesse - estávamos tentando juntar um monte de nações com uma tecnologia em órbita que compartilhássemos, mas que, ao menos, poderíamos chamar de nossa. A maior influência que ela teve foi o que fez por nós como países trabalhando e brincando juntos no espaço. Apesar de todo o tumulto político dos últimos anos, em particular afetando a relação entre a Rússia e alguns países ocidentais, a ISS sempre permaneceu completamente ilesa. É um lugar onde podemos trabalhar juntos - não como cidadãos de nações, mas como seres humanos - avançando juntos em nossa causa.

Então, ficamos com esse veículo, com todos esses módulos, feitos por vários países diferentes, e todos precisam se integrar e trabalhar juntos, e isso o tornou muito maior e mais caro do que precisaríamos para um propósito de pesquisa específico. Se olharmos para a ISS do ponto de vista de um palco global, e do avanço da habilidade dos EUA de liderar o campo do voo espacial, eu acredito que foi enorme. Porém, se a observamos de qualquer ponto de vista puro e muito específico - como o desejo de um grande avanço na pesquisa - bem, é uma conversa diferente. A ISS tem dado suporte a muitas pesquisas realmente boas, mas se medirmos pelo número de vencedores do Prêmio Nobel que ganharam devido a algo feito a bordo da estação espacial, ficaríamos bastante desapontados. Contudo, quando se considera isso mais amplamente do que apenas pela capacidade de pesquisa, eu acho que ela tem sido uma plataforma incrível. E estender seu tempo de vida - construindo uma outra plataforma, que esperamos que seja utilizada pela comunidade internacional - é muito importante para o que estamos fazendo na Axiom.

Lee Billings
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