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Quem produziu o sarin usado na Síria?

Indícios reveladores podem sugerir a origem da neurotoxina

Congresso dos Estados Unidos
Secretário de Estado John Kerry disse aos senadores “ter certeza” de que ninguém da oposição tem essas armas ou a capacidade de desfechar um ataque dessa magnitude.
Por Dina Fine Maron

 As dicas sobre a origem do veneno químico que, de acordo com autoridades dos Estados Unidos matou mais de 1.400 pessoas na Síria em agosto deste ano, podem estar na embalagem da arma e não na substância em si.

 A questão se resume a quem produziu o que se acredita ser o gás sarin: o governo ou outra parte envolvida?

No dia 3 de setembro, o Secretário de Estado americano John Kerry disse aos senadores “ter certeza” de que ninguém da oposição tem essas armas ou a capacidade de desfechar um ataque dessa magnitude. Mas quando se analisam os vestígios deixados em um local de ataque não é fácil diferenciar o sarin purificado, de grau militar, da substância fabricada em fundo de quintal.

As duas versões diferem em alguns aspectos.

O sarin de grau militar, por exemplo, não contém subprodutos químicos que provavelmente estão presentes na substância fabricada com outras receitas. Além disso, os traços de impurezas do sarin “caseiro” seriam detectáveis no solo.

No entanto, receitas diferentes para a versão de fundo de quintal também apresentam subprodutos distintos e os analistas podem não ter como saber quais deles procurar. Mesmo se os subprodutos fossem conhecidos os “detetives” precisariam conhecer os níveis normais desses compostos no solo para determinar se os valores estão elevados.

A análise de tecidos de vítimas também não ajudaria muito. O sarin mata ao interferir com o funcionamento de uma substância química do sistema nervoso que acaba superestimulando os músculos e paralisando os que se encontram ao redor dos pulmões, o que impede a respiração.

Os médicos podem detectar sinais de sarin nos tecidos e na urina. De fato, em seu pronunciamento, Kerry declarou perante o Comitê de Relações Exteriores do Senado que “Já fomos informados de que as amostras de cabelos e sangue dos socorristas na parte leste de Damasco indicaram traços de sarin”. Mas os peritos não conseguem distinguir as impurezas incriminadoras da neurotoxina fabricada em fundo de quintal.

Por essas razões alguns especialistas afirmam que examinar pedaços dos foguetes que transportaram a neurotoxina provavelmente será mais revelador, diz Michael Kuhlman, cientista-chefe para a segurança nacional no Battelle Memorial Institute, um grupo de pesquisa sem fins lucrativos em Columbus, Ohio.

Haverá fragmentos das armas nos mesmos locais em que os inspetores colhem amostras de solo em busca de evidências de sarin, argumenta ele.

Como os materiais que compõem os foguetes podem ser diferentes dependendo de quem os fabricou será possível apontar o dedo para quem os utilizou.

Calcular quanto sarin foi usado para causar tantos mortos constitui um desafio adicional.

Normalmente, um ataque químico como esse seria desfechado por meio de um foguete de uns dois metros de comprimento com uma ogiva contendo uma forma líquida de sarin. Esse líquido seria transformado em uma névoa fina quando um detonador interno explodisse o foguete.

O número de pessoas que ficariam feridas dependeria da geografia do local da explosão, da direção e força do vento, da temperatura e da população na área. As temperaturas mais baixas das primeiras horas na manhã de 21 de agosto, durante o ataque, por exemplo, permitiriam que o vapor persistisse por mais tempo suspenso no ar que no calor do meio-dia.

Os vídeos divulgados na esteira da investida mostram os primeiros socorristas atendendo as vítimas sem luvas ou máscaras de proteção. Consequentemente, o número total de mortos poderia ser maior que o estimado só do ataque direto.

É sabido que o sarin adere à pele e às roupas, e é capaz de adoecer pessoas que entram em contato com ele dessa forma (como foi o caso de alguns socorristas citados em um relatório francês não sigiloso divulgado no dia 3 de setembro).

Por outro lado, não é uma certeza que os socorristas ficarão doentes. Pode ter sido possível ajudar as vítimas sem se tornar uma delas, diz David Moore, toxicólogo sênior em pesquisas em ciências da vida no Instituto Battelle. “É bem possível que todas as fatalidades tenham sido expostas a um vapor de gás muito fino e provavelmente não houve uma grande contaminação líquida em seus corpos uma vez que estavam fora do ambiente direto da explosão e o gás já havia se dissipado”. Os primeiros socorristas talvez sofreram sintomas de menor intensidade, como coriza ou dor nos olhos que podem ter persistido durante horas, diz ele.

Os impactos de longo prazo da exposição a elevados níveis de sarin continuam em grande parte desconhecidos; mas as pesquisas que estudam níveis de exposições mais baixos, resultantes, por exemplo, do trabalho em fábricas onde a toxina é produzida, sugerem que a substância pode provocar efeitos como problemas de memória e de sono.