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Químicos Usados em Plásticos e Cosméticos Podem Estar Ligados a Diabetes

Pesquisa mostra que mulheres com maior exposição a ftalatos ficam mais vulneráveis à doença

Crystal Gammon e Environmental Health News
©Ru_Ka/ Shutterstock
Um grupo de compostos químicos chamados ftalatos, encontrados em plásticos domésticos e produtos hospitalares foi ligado a maiores taxas de diabetes em mulheres: de acordo com uma nova pesquisa conduzida por cientistas de Harvard, os níveis mais altos da substância parecem duplicar o aparecimento da doença, sendo que mulheres negras e méxico-americanas que vivem em situação de pobreza se encaixam nesse grupo. Entre os americanos, mais de 75% apresentam ftalatos na urina.

Apesar de ter feito descobertas importantes, Richard Stahlhut, pesquisador de saúde ambiental do Centro Médico da University of Rochester e coautor do estudo ressalta que esse é apenas o primeiro passo e que os ftalatos não são comprovadamente uma das causas de diabetes: “É muito provável que os ftalatos e outros contaminantes tenham grande papel na epidemia de obesidade e diabetes, mas no momento nós realmente não sabemos como esses químicos interagem uns com os outros e com o corpo humano”.

Os ftalatos tornam plásticos como o cloreto de polivinil (PVC) mais flexíveis e são adicionados a alguns produtos como cosméticos e perfumes para estabilizar cores e fragrâncias. Alguns itens domésticos que normalmente levam ftalatos são pisos de vinil, adesivos e cortinas de chuveiro.

Até o momento a maioria das pesquisas com esses compostos se concentra em consequências reprodutivas, porque eles parecem prejudicar hormônios masculinos – meninos expostos a ftalatos ainda no útero tinham sinais de genitálias feminizadas, o que pode levar a problemas de fertilidade, e problemas neurológicos como redução de QI e déficit de atenção.

O novo estudo examinou as concentrações de diabetes e ftalatos em 2.350 mulheres que participaram de uma pesquisa nacional do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), de 2001 a 2008. Nos Estados Unidos, segundo dados do CDC, quase 26 milhões de americanos com mais de 20 anos têm diabetes. O grupo mais vulnerável inclui negros e hispânicos, que apresentam riscos de desenvolver a doença 77% e 66% maiores que a de brancos. Ainda que a obesidade seja um fator de risco para o diabetes tipo 2, quase um quarto dos adultos com peso normal têm diabetes ou outros transtornos metabólicos – e especialistas acreditam que contaminantes químicos como os ftalatos podem estar envolvidos nessa desconexão.
Segundo o relatório da nova pesquisa, publicado este mês na Environmental Health Perspectives, certos ftalatos como os dibutilftalatos (DBPs), usados principalmente em adesivos e em acabamentos laqueados, e o butil benzil ftalato (BBP), um componente de pisos de vinil, calafetagem e selantes, estão ligados a uma taxa duas vezes maior de diabetes em mulheres com altos níveis de marcadores de ftalatos na urina. O DBP e o Di-(2-etilhexil)ftalato (DEHP), um plastificante encontrado em produtos de vinil como bolsas e tubos intravenosos foram relacionados também a níveis mais altos de glicose no sangue e à resistência a insulina, dois precursores comuns do diabetes tipo 2. Outros trabalhos recentes também encontraram ligações semelhantes entre ftalatos e transtornos metabólicos.


De acordo com o estudo liderado por Tamarra James-Todd, do Brigham and Women’s Hospital e da Escola de Medicina de Harvard, não foi encontrada relação entre o diabetes e o dietilftalato (DEP), o ftalato mais comumente associado a produtos de cuidados pessoais e encontrado em grandes concentrações na população americana.

Mas nem todos estão confiantes sobre a pesquisa: “Os dados sobre o ftalato foram derivados de uma única amostra. Para substâncias como essas, que são rapidamente decompostas e eliminadas do corpo, depender de uma amostra de urina é uma falha significativa no projeto”, declarou Steve Risotto, diretor sênior do Conselho Americano de Química, uma associação comercial de produtores de químicos. “O dietilftalato, também conhecido como DEP, é o único ftalato usado significativamente em cosméticos. E o estudo não encontrou associação entre o DEP e o diabetes”, reforçou Linda Loretz, diretora do Conselho de Produtos de Cuidados Pessoais.

Sobre o fato de mulheres negras e que vivem abaixo da linha da pobreza ter índices mais altos de ftalatos e diabetes, Stahlhut acredita que padrões de comportamento possam explicar as disparidades: “Se mulheres negras usarem mais produtos ou cosméticos de cuidado capilar, por exemplo, elas provavelmente teriam níveis mais altos de DEP em seus corpos. Mas é impossível encontrar tendências assim com os dados atuais”.

“É difícil interpretar esses números”, explica Roni Kobrosly, pesquisador epidemiologista da University of Rochester que conduziu o estudo socioeconômico publicado no periódico Environmental Research. “Eles sugerem que os padrões de exposição a ftalatos variam com os fatores socioeconômicos, mas é prematuro falar sobre as implicações de maneira individual ou cultural”.

Como nenhum dos estudos incluiu acompanhamentos de longo prazo, os pesquisadores não podem determinar se altas concentrações de ftalato realmente levaram as mulheres a desenvolver diabetes ou outras patologias. Ainda assim, especialistas apontam que as descobertas são um passo inicial importante para descobrir as relações entre esses químicos e doenças crônicas.
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