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Raciocínio científico tende a induzir comportamento ético

Psicólogos descobrem profunda conexão entre métodos científicos e moralidade

Triff/Shutterstock
Por Piercarlo Valdesolo

A opinião pública sobre a ciência fez manchetes nos últimos anos por várias razões — em geral, negativas.

Casos de desonestidade acadêmica e disputas sobre financiamentos que ganharam muito destaque fizeram muitos questionar a integridade e o valor social da ciência básica. Enquanto isso, acusações de pesquisas politicamente motivadas ainda são trocadas a torto e a direito.

Há pouca dúvida de que a ciência está lotada de valores. O alinhamento a teorias e ideologias podem distorcer as hipóteses testadas e os métodos utilizados para testá-las. No entanto, esses são erros de aplicação do método e não do procedimento em si.

Em outras palavras, é possível que, de um modo geral, a opinião pública sobre a ciência seja relativamente pouco afetada pela iniquidade e pelos preconceitos de cientistas isolados. Na realidade, em vista dos inegáveis benefícios do progresso científico, as associações com o processo de investigação científica podem ser bastante positivas.

Pesquisadores da University of California em Santa Barbara resolveram testar essa possibilidade. Eles formularam a hipótese de que há uma percepção profundamente enraizada de ciência como uma moral que enfatiza o esforço de procurar a verdade, sendo que a imparcialidade e a racionalidade beneficiam o bem-estar coletivo acima de tudo.

O novo estudo, publicado na revista on-line PLOSOne, argumenta que a associação entre ciência e moralidade é tão arraigada que a mera reflexão sobre o tema pode despertar um comportamento mais ético.

Os pesquisadores realizaram quatro estudos separados para testar a hipótese.

O primeiro procurou estabelecer uma simples correlação entre o quanto as pessoas acreditavam na ciência e a probabilidade de que elas fariam cumprir as normas morais quando defrontadas com uma violação hipotética.

Os participantes leram uma vinheta sobre um “date-rape”, ou “estupro em encontro” (em que a violação ocorre em um encontro marcado entre um homem e uma mulher), e foram solicitados a classificar a gravidade do delito antes de responder a um questionário que media sua confiança na ciência. De fato, os que afirmaram acreditar mais na ciência condenaram o ato mais duramente.

É claro que uma simples correlação é suscetível a muitas explicações alternativas.

Para excluir essas possibilidades, os estudos 2-4 aplicaram manipulações experimentais para testar se a indução a reflexões sobre ciência podia influenciar tanto o comportamento moral relatado, como o real.

Todos utilizaram uma técnica chamada de “priming”, na qual os participantes são apresentados a palavras relevantes a uma determinada categoria a fim de aumentar sua acessibilidade cognitiva. Isso quer dizer: mostrar às pessoas palavras como “lógica”, “hipótese”, “laboratório” e “teoria” deve fazer com que elas pensem em ciência; e qualquer efeito que a apresentação dessas palavras tenha em um comportamento seguinte pode ser atribuído às associações que elas tenham com essa categoria.

Os participantes primeiro concluíram uma tarefa envolvendo um jogo de “palavras embaralhadas”, no qual tinham que “desembaralhar” algumas delas relacionadas à ciência e outras que nada tinham a ver com o tema.

Em seguida, eles liam a vinheta do estupro, respondendo às mesmas perguntas sobre a gravidade do delito (Estudo 2), informavam até que ponto pretendiam realizar diversas ações altruístas no mês seguinte (Estudo 3), ou se envolviam em uma tarefa de economia comportamental conhecida como “jogo do ditador” (Estudo 4). Nesse jogo os participantes recebem uma quantia em dinheiro (no caso US$ 5,00) e são instruídos a dividi-la como quiserem entre si e um participante anônimo. A quantia que os participantes dão ao desconhecido é tida como índice de suas motivações altruístas.

Em todas essas medições diferentes, os pesquisadores encontraram resultados consistentes. O simples “priming” com pensamentos relacionados à ciência intensificou:

a) a aderência às normas morais

b) as intenções altruístas na vida real futura; e

c) o comportamento altruísta em relação a um desconhecido.

A associação conceitual entre ciência e moralidade parece forte.

Embora essa descoberta se replique em diferentes medidas e métodos, existe uma variável que pode limitar a generalização do efeito.

Há evidências que sugerem que as atitudes em relação à ciência variam entre os partidos políticos; sendo que conservadores se tornaram cada vez menos confiantes na ciência ao longo das últimas décadas.

Embora os pesquisadores incluíssem medidas de religiosidade em seus estudos, que não afetaram a relação entre ciência e moralidade, o ideal teria sido que também controlassem a filiação política. Não é exagero imaginar que os estudantes da University of Santa Barbara que ainda não colaram grau representam desproporcionalmente os liberais. Nesse caso, a relação entre ciência e moralidade encontrada ali pode ser mais forte nos autoproclamados liberais.

Dito isso, também há razão para acreditar que o público em geral, liberal ou conservador, pode fazer uma distinção entre o processo científico e seus praticantes. Do mesmo modo como as pessoas talvez desconfiem de políticos, mas ainda veem certa nobreza nos princípios gerais da organização da estrutura política americana, poderíamos ter opiniões complacentes sobre a ciência independente de como é conduzida.

Esses resultados podem parecer animadores, especialmente para os fãs da ciência; mas uma possível consequência de atribuir peso moral a ela é o grau em que ela distorce o modo como reagimos a conclusões de pesquisas.

Quando confrontados com uma conclusão que contradiz uma convicção amplamente cultivada (por exemplo, um novo estudo que sugere que os seres humanos contribuíram ou não para o aquecimento global), estamos mais propensos a questionar a integridade do praticante. Se a ciência é fundamentalmente moral, então como poderia ter chegado a uma conclusão tão ofensiva? Culpe o mensageiro da informação.

Como podemos corrigir esse processo de pensamento?

Uma ênfase maior no método e uma melhora compreensão do mesmo podem ser a resposta.

É muito mais difícil negar a importância de resultados desafiadores quando se tem as ferramentas necessárias para avaliar o processo pelo qual os cientistas chegaram a seus resultados.

Um novo estudo sobre aquecimento global é mais difícil de ser descartado quando se sabe (e há suficiente interesse para verificar) que os métodos utilizados são sólidos, independente das motivações dos autores que a pessoa possa imaginar. Na ausência desse conhecimento, a virtude atribuída à “ciência” também pode ser uma força motivacional para uma distorção ideológica — precisamente o oposto da busca imparcial da verdade.

Você é um cientista especializado em neurociência, ciência cognitiva, ou psicologia? Leu um artigo recente revisado por pares sobre o qual gostaria de escrever? Por gentileza, envie sugestões para Gareth Cook, editor da revista Mind Matters; um jornalista destacado com o Prêmio Pulitzer e colaborador regular do site NewYorker.com. Gareth também é editor da série Best American Infographics e pode ser contatado em garethideas AT gmail.com ou no Twitter @garethideas.

 SOBRE O AUTOR

 Piercarlo Valdesolo é professor assistente de psicologia no Claremont McKenna College e coautor do livro Out of Character. Você pode segui-lo no Twitter @pvaldesolo.

 sciam29ago2013