Sciam


Clique e assine Sciam
Notícias

Rara aparição do planeta anão Makemake revela um mundo sem ar

Os astrônomos mediram as propriedades físicas do planeta quando ele eclipsou brevemente uma estrela. 

John Matson
ESO/L. Calcada/Nick Risinger (skysurvey.org)
CÉUS LIMPOS: Concepção artística do planeta anão Makemake mostra o mundo sem uma atmosfera significativa.

Um novo olhar sobre o planeta anão Makemake, uma das mais recentes adições ao sistema solar conhecido, determinou alguns dos atributos mais básicos – e importantes – do objeto.

Astrônomos foram a observatórios espalhados pela América do Sul em abril de 2011 para conseguir um raro vislumbre do planeta anão – ou pelo menos de sua sombra – quando o Makemake (pronuncia-se “máqui máqui”) cruzou a frente de uma tênue estrela de fundo, obscurecendo-a por cerca de um minuto. A duração da ocultação, como são chamadas essas conjunções celestiais, permitiram que os astrônomos estimassem mais precisamente o tamanho físico do Makemake. Os pesquisadores relataram suas descobertas na edição de 22 de novembro da Nature. (Scientific American é parte do Nature Publishing Group). 

Talvez as implicações para a atmosfera makemakeana sejam mais importantes que a nova medida do tamanho do planeta. Os astrônomos detectaram uma breve queda na luz estelar quando a ocultação de Makemake começou, como se alguém tivesse repentinamente mudado a estrela para uma voltagem mais baixa em vez de reduzir o dimmer estelar. A nitidez da ocultação sugere que o planeta anão não tem uma atmosfera global significativa, o que deixaria sua sombra com bordas indistintas. “Se a redução é abrupta, você vê que não há atmosfera”, explica a coautora do estudo, Noemi Pinilla-Alonso, pós-doutorada em ciência planetária da University of Tennessee Knoxville. Em contraste, quando Plutão passa na frente de uma estrela, “a redução é gradual, o que mostra que existe uma atmosfera”.

Descoberto em 2005, o Makemake é um dos cinco planetas anões reconhecidos, junto com Ceres, Eris, Haumea e Plutão. Atualmente o Makemake está perto do afélio, o ponto mais distante do sol em sua órbita de 307 anos no cinturão de Kuiper, um anel de cometas e outros objetos gelados além de Netuno. A distância de Makemake ao Sol atualmente é 50 vezes maior que a da Terra, o que coloca o planeta anão em um regime intermediário entre as localizações de Plutão e da mais distante Eris. Enquanto Plutão abriga uma atmosfera significativa, a atmosfera de Eris parece ter se congelado e colapsado em uma camada refletiva de superfície.

O Makemake pode existir em um estado intermediário, com apenas algumas nuvens de metano vaporizado em seu lado voltado para o Sol. “Ele não tem uma atmosfera global, mas poderia ter uma atmosfera local”, observa Pinilla-Alonso. Os pesquisadores suspeitam que Eris, Plutão e Makemake passem por três estágios – de nuvens localizadas a uma atmosfera completamente desenvolvida ao colapso atmosférico – conforme se aproximam e se afastam do Sol.

O Makemake de fato tem metano congelado em sua superfície, o que deve fornecer um suprimento de gás pronto nos locais mais quentes do planeta anão. “Com certeza absoluta, ele tem uma atmosfera”, declara o astrônomo Mike Brown do Instituto de Tecnologia da Califórnia, que descobriu o Makemake em 2005, junto com Chad Trujillo do Observatório Gemini no Havaí e David Rabinowitz, da Yale University. “A questão é: quanta?”.

O Makemake é apenas o mais recente dos planetas anões a ser medido durante uma ocultação. Quando Eris eclipsou uma estrela de fundo em 2010, astrônomos descobriram que ela era quase uma gêmea de Plutão em tamanho (ambos são um pouco maiores que Makemake). Mas as oportunidades para fazer observações detalhadas de Makemake durante uma ocultação são poucas e raras. O planeta anão passa diante de mais ou menos três estrelas de fundo por ano, mas geralmente a sombra da ocultação cai em uma área ensolarada ou nublada da Terra, ou em uma região remota sem telescópios. A ocultação de abril de 2011, que foi prevista no ano anterior, passou pelo meio da América do Sul, expondo o Makemake a alguns dos melhores observatórios do mundo, incluindo duas instalações do Observatório Europeu do Sul no Chile: o Very Large Telescope no topo de Cerro Paranal e o New Technology Telescope em La Silla, no Deserto do Atacama. De acordo com José Luiz Ortiz, do Instituto de Astrofísica de Andalusia na Espanha, principal autor do novo estudo, essas oportunidades só aparecem uma vez a cada década. Ao todo, os astrônomos testemunharam a ocultação de Makemake a partir de sete telescópios espalhados pela América do Sul, o que permitiu a mais precisa estimativa do diâmetro do objeto até o momento.  

“Essa é a maneira certa de medir tamanhos”, observa Brown, co-descobridor de Eris em 2005. (Naquele mesmo ano, Brown teve uma briga com Ortiz pela descoberta de Haumea, alegando que os pesquisadores espanhóis tinham acessado seus registros de observação de maneira imprópria para se aproveitarem dos americanos e reclamarem crédito pela descoberta)

A nova observação do Makemake descobriu que o planeta anão tem 1430 quilômetros de diâmetro se for esférico e 1430 por 1502 quilômetros se for elíptico. Os autores do estudo favorecem a segunda possibilidade, mas Brown discorda. “Mesmo se ele for apenas um pouquinho não-redondo, será estranho”, acredita ele, adicionando que o Makemake teria que estar girando rapidamente, ou ser composto de materiais de baixa densidade, para se tornar tão oblato. “Tenho bastante certeza de que isso está simplesmente errado”, adiciona ele.

De qualquer forma, Brown está feliz em ver o Makemake fazendo sucesso. Sua descoberta foi inicialmente obscurecida pela de Eris, que é mais pesado que plutão e que foi anunciado como o 10º planeta do sistema solar. “O Makemake sempre foi um tipo de grande objeto mal amado do cinturão de Kuiper”, aponta ele. “Ficamos tão afundados em Eris e em todas as coisas interessantes de Haumea que as pessoas não deram ao Makemake a atenção merecida”. 
Nas bancas!                     Edições anteriores                                            Edições especiais                              
Conheça outras publicações da Duetto Editorial
© 2012 Site Scientific American Brasil • Duetto Editorial • Todos os direitos o reservados.
Site desenvolvido por Departamento Multimídia • Duetto Editorial.