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Ratos são afetados por doses consideradas toleráveis de bisfenol A

Novo estudo sugere associação entre o composto de uso restrito em muitos países e a obesidade

Por Brian Bienkowski e Environmental Health News

Filhotes de ratos expostos a doses baixas – mas não altas – de bisfenol A ainda no útero eram mais gordos e tinham alterações metabólicas ligadas a obesidade e diabetes, de acordo com um novo estudo publicado em 25 de julho.

Com base em estudos anteriores ligando o composto que altera hormônios a mudanças no peso corporal e na tolerância a glicose, a nova pesquisa alimenta uma controvérsia permanente sobre testes federais de químicos serem adequados para proteger pessoas de doses baixas.

“O assustador é que nós encontramos efeitos em níveis que o governo não apenas considera seguros, mas que nem se preocupa em testar”, explica Fredrick vom Saal, professor da University of Missouri, Columbia, e autor sênior do estudo publicado no periódico Reproductive Toxicology.

Muitos dos efeitos foram relatados nos ratos que receberam doses diárias – apenas durante a gravidez – que eram 1/10 da quantidade que a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) declara ser segura para a exposição diária durante a vida. [N.T.: no Brasil a substância foi banida de mamadeiras e doses de uso regulamentadas http://goo.gl/YIfQlp]

Usado em plásticos policarbonados, alimentos enlatados e em alguns recibos térmicos, o BPA é encontrado no corpo de quase todas as pessoas. Alguns estudos anteriores o ligaram à obesidade e ao diabetes em humanos.

De acordo com vom Saal, baixas doses de BPA provocaram um “desarranjo metabólico” na prole dos ratos expostos, sugerindo que “um componente da epidemia de obesidade e outras doenças metabólicas pode se dever à exposição química durante o desenvolvimento, quando suas células estão sendo programadas”. 

Nos filhotes de rato, o BPA foi associado com ganho de peso, aumento de gordura abdominal e alimentação, comprometimento da tolerância a glicose e mais hormônios que regulam a glicose e o apetite.

Esses resultados, porém, só aconteceram quando mães receberam doses diárias, de no máximo 5 mil microgramas de BPA por quilograma de peso corporal. Essa quantidade considerada “sem efeitos” para a EPA – a quantidade diária que a agência concluiu não provocar efeitos em humanos.

De todas as doses administradas às ratas grávidas – 5, 50, 500, 5000 e 50 mil microgramas por quilograma – foi a de 500 que provocou as maiores alterações metabólicas, conta vom Saal.

O estudo se soma à controvérsia de um fenômeno chamado de “resposta não-monotônica a doses”, que significa que substâncias químicas semelhantes a hormônios, como o BPA, às vezes não agem de maneira típica; eles podem ter efeitos sobre a saúde em doses baixas, mas nenhum efeito, ou efeitos diferentes, em doses altas.   

A EPA frequentemente avalia a segurança de compostos químicos com testes que expõem animais de laboratório a doses altas, e em seguida extrapola para doses mais baixas encontradas por pessoas e animais selvagens.

Em um relatório do ano passado, 12 cientistas, incluindo vom Saal, criticaram essa estratégia usada há décadas, declarando que ela não consegue detectar ameaças à saúde vindas de doses baixas de substâncias químicos semelhantes a hormônios. Pete Myers, fundador da Environmental Health Sciences, foi o autor sênior desse relatório.

No mês passado, reagindo a esse relatório, a EPA defendeu seus testes, concluindo que os testes atuais de produtos químicos que alteram hormônios são adequados para detectar efeitos de doses baixas que podem prejudicar a saúde.

Em resposta ao novo estudo de vom Saal, um porta-voz do Conselho de Química da América, que representa empresas de produtos químicos, declarou que as descobertas não haviam sido replicadas e que “apresentam conclusões que não são apoiadas pelas descobertas da extensa e recente revisão da EPA em relação ao estado da ciência sobre exposições a doses baixas”.

 “As conclusões do relatório da EPA afirma o que os principais cientistas expressam há anos: a suposta evidência científica para exposições não-monotônicas a doses baixas, levando a problemas endócrinos e efeitos adversos é, no máximo, muito fraca”, escreveu Kathryn St. John em um email.

Mas o estudo com ratos oferece evidências de que “o teste com doses altas simplesmente não nos diz o que acontece em doses baixas”, explicou Laura Vandenberg, pesquisadora da Tufts University que não participou do novo estudo.

“Quando observamos a dose mais alta que os reguladores afirmam não ter efeitos adversos observados [5 mil microgramas por quilograma], nós não deveríamos ver nada”, aponta Vandenberg. “E esse não é o caso”. 

A EPA não respondeu a pedidos para comentar o estudo de vom Saal.

Cientistas começam a considerar seriamente a possibilidade da contaminação ambiental por compostos químicos como potenciais contribuintes para o crescente problema da obesidade e do diabetes.

O BPA imita o estrogênio, que tem efeitos específicos sobre diferentes sistemas e órgãos do corpo, explica Thomas Zoeller, professor da University of Massachusetts, Amherst. De acordo com ele, a exposição a esses compostos químicos durante o desenvolvimento pode alterar o metabolismo ao mudar como o corpo regula a insulina e a glicose.

Zoeller acredita que o estudo de vom Saal se some à preocupação sobre os testes com químicos onipresentes. “Nós criamos um sistema em que toda a população humana está sendo exposta a compostos químicos que não tiveram sua segurança avaliada em níveis relevantes”, conclui ele.

 

Este artigo foi originalmente publicado em Environmental Health News, uma fonte de notícias publicada por Environmental Health Sciences, uma empresa de mídia sem fins lucrativos.