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Revertendo os danos do consumo de álcool em fetos após seu nascimento

Dois medicamentos comuns podem reparar danos causados pelo álcool no útero

Shutterstock
Duas drogas usadas normalmente eliminaram os déficits de aprendizado e memória causados pela exposição de fetos a álcool. Os medicamentos foram administrados após seu nascimento, potencialmente identificando um tratamento para o transtorno, segundo novo estudo da Northwestern Medicine.

Os cientistas também identificaram recentemente um mecanismo molecular chave pelo qual o álcool prejudica o feto, tanto neurologicamente quanto em relação ao seu desenvolvimento.

“Demonstramos que você pode interferir após o dano causado pelo álcool já estar feito. Isso é muito importante”, disse Eva Redei, principal pesquisadora do estudo e autora sênior. “Identificamos um potencial tratamento para a desordem do espectro alcoólico. Atualmente, não existe nenhum.”

Redei é professora de psiquiatria e ciências comportamentais na Escola Feinberg de Medicina da Universidade Northwestern e professora-pesquisadora de doenças psiquiátricas que afetam crianças e adolescentes.

O estudo da Northwestern foi feito em filhotes de ratos, e os cientistas estão tentando levantar fundos para testes clínicos. O artigo foi publicado ontem, dia 18 de julho, na revista científica Molecular Psychiatry.

Nos Estados Unidos, de 1 a 5% das crianças nascem com o transtorno, que inclui déficits de aprendizado e memória, graves problemas comportamentais e uma grande taxa de depressão, baixo QI, problemas cardiovasculares e outras questões de saúde do desenvolvimento.

Se os medicamentos se mostrarem efetivos nos testes clínicos, bebês cujas mães consumiram álcool durante a gravidez poderiam potencialmente ser tratados com essas drogas, segundo Redei.

“Há mulheres que bebem antes de saberem que estão grávidas e há aquelas as quais não param de beber durante a gravidez”, disse Redei. “Essas mulheres ainda podem ajudar o futuro de seus filhos, se as recentes descobertas também funcionarem da mesma forma em humanos. O ideal, obviamente, é que as mulheres deixem de beber quando estão grávidas - mas, infelizmente, isso não acontece sempre.”

Em dois braços distintos do estudo, cientistas da Northwestern deram ou tiroxina (hormônio que é reduzido em mulheres grávidas que bebem e em bebês com desordem do espectro alcoólico fetal) ou metformina (droga sensibilizadora de insulina a qual diminui os níveis de açúcar no sangue, que é maior nos alcoólatras) a filhotes de rato expostos a álcool no útero da mãe. Os filhotes foram medicados imediatamente 10 dias após seu nascimento.

Então, os cientistas deixaram os filhotes crescerem e testaram sua memória em comparação a ratos de controle, também expostos a álcool durante a gestação, mas que não haviam recebido nenhuma das drogas.

“Mostramos que ambos os tratamentos reverteram os déficits de memória, assim como também algumas das mudanças moleculares causadas pelo consumo de álcool pela mãe”, disse Redei.

A ingestão de álcool reduz os níveis de tiroxina e aumenta a glicose nas fêmeas de rato grávidas - assim como nas pessoas, de acordo com dados humanos limitados.

“Essas mudanças são perigosas para o desenvolvimento cerebral do feto e são, pelo menos, parte da razão dos déficits de aprendizado e memória da prole”, explicou Redei.

A tiroxina é um hormônio essencial produzido pela glândula tireóide que regula diversas funções no desenvolvimento cerebral. Crianças nascidas com taxas muito baixas de tiroxina têm deficiência neurodesenvolvimental, uma condição de crescimentos físico e mental severamente atrofiados.

A glicose em excesso que atinge o feto também possui um impacto negativo no desenvolvimento do cérebro. Contudo, cientistas ainda não têm um entendimento profundo sobre o motivo. O seu excesso também pode afetar qualquer um dos sistemas de órgãos em desenvolvimento e causar diabetes do tipo 2 no futuro.

A descoberta surpreendente foi que ambos os medicamentos, os quais são bastante diferentes, funcionaram para reverter o efeito do álcool ingerido pela mãe.

"Quando obtivemos resultados semelhantes, dissemos: ‘Espere um segundo. São dois medicamentos completamente diferentes. O que eles poderiam ter em comum?’", disse Redei. "Não tínhamos ideia."

Eles se aprofundaram e descobriram que ambas as drogas normalizam os genes que controlam a expressão do DNA metiltransferase 1, uma enzima crítica no desenvolvimento do cérebro através de um processo epigenético chamado metilação do DNA.

Para validar ainda mais o papel do DNA metiltransferase 1 na síndrome alcoólica fetal, os cientistas deram aos filhotes de ratos normais um medicamento para inibir o gene. O resultado foram filhotes parecidos com aqueles expostos a álcool. Quando os pesquisadores deram metformina para eles, sua memória ao normal.

Recentemente, a DNA metiltransferase 1 tem sido implicada na etiologia do autismo e de doenças neurodegenerativas.

Universidade Northwestern
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