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Revistas científicas apostam em rigidez de critérios

A nova política da Science visa melhoria do padrão de análise de dados estatísticos 

 

Shutterstock
Por Richard Van Noorden e revista Nature

A publicação científica Science está acrescentando uma rodada adicional de checagens estatísticas ao seu processo de revisão por pares, anunciou sua editora-chefe Marcia McNutt em 3 de julho. A política segue esforços similares aos de outras publicações, depois de preocupações generalizadas de que erros básicos na análise de dados estejam contribuindo para a “impossibilidade de replicação” de muitos resultados de pesquisas publicadas.

“Leitores precisam confiar nas conclusões divulgadas em nossa publicação”, escreveu McNutt em um editorial em 6 de julho. Trabalhando com a American Statistical Association (Associação Estatística Americana), a Science nomeou sete especialistas para um conselho estatístico de editores revisores (statistics board of reviewing editors [SBoRE, em inglês]). Manuscritos serão escolhidos aleatoriamente para escrutínio complementar pelos editores da publicação, ou por seu Conselho de Editores Revisores (mais de 100 cientistas que a publicação consulta regularmente sobre artigos) existente, ou ainda por revisores externos. Depois disso, o painel SBoRE procurará estatísticos externos para rever esses manuscritos.

Questionada sobre se quaisquer artigos em particular suscitaram essa mudança, McNutt respondeu: “A criação do conselho estatístico foi motivada por preocupações amplas com a aplicação de estatísticas e análise de dados em pesquisas científicas e faz parte do intento geral da Science de aumentar a reprodutibilidade da pesquisa que publicamos”.

Giovanni Parmigiani, um bioestatístico na Harvard School of Public Health, membro do grupo SBoRE, disse esperar que o conselho “desempenhe principalmente um papel consultivo”. Ele concordou em se juntar ao esforço, porque “o princípio que fundamenta o SBoRE é novo, inédito e capaz de ter um impacto duradouro. Esse impacto não se manifestará apenas através das publicações da própria Science, mas, tomara, também através de um grupo maior de publicações que talvez queiram seguir o modelo da Science”.

John Ioannidis, um médico que estuda metodologia de pesquisa na Stanford University, defende que a medida representa “um avanço muito bem vindo e já deveria ter sido adotada há muito tempo”. “A maioria das publicações científicas é fraca em revisão estatística e isso prejudica a qualidade do que publicam. Acredito que para a maioria dos trabalhos científicos atuais a revisão estatística é mais essencial que a análise por pares”, observou. Mas ressaltou que publicações biomédicas, como Annals of Internal Medicine, Journal of the American Medical Association e The Lancet dedicam muita atenção à análise estatística.

Espera-se que cientistas profissionais saibam como analisar dados, mas erros estatísticos são assustadoramente comuns em pesquisas publicadas, de acordo com David Vaux, um biólogo celular no Instituto Walter e Eliza Hall de Pesquisa Médica, em Parkville, na Austrália. Pesquisadores deveriam melhorar seus padrões, Vaux escreveu em Nature em 2012, mas as publicações científicas também deveriam adotar uma linha mais dura, “envolvendo revisores estatisticamente instruídos e editores capazes de verificar o processo”. Vaux observa que a ideia da Science de passar alguns artigos para estatísticos “tem algum mérito, mas uma de suas fraquezas é depender do conselho de editores revisores para identificar os artigos que precisam ser escrutinizados em primeiro lugar”.

A reforma em publicações científicas está começando a acontecer, comenta Bernd Pulverer, editor-chefe do EMBO Journal, em Heidelberg, na Alemanha. “Temos discutido o nível de estatísticas em nossos artigos há algum tempo. Com frequência excessiva, dados em estudos de biologia celular molecular de fato ainda são publicados com estatísticas mal definidas, pouco convincentes ou simplesmente erradas”, admite. Mas Pulverer acrescenta que o EMBO Journal e outras publicações acadêmicas estão planejando relação de critérios para informações estatísticas básicas que devem ser relatadas em trabalhos de pesquisa, e que sua publicação também pretende adicionar peritos em estatística ao seu conselho editorial.

Essas relações de requisitos estatísticas estão despontando como padrões depois de alguns seminários organizados pelo National Institutes of Health  (NIH) em 2012, para discutir os problemas que levam a resultados de pesquisas irreproduzíveis. Em abril de 2013, por exemplo, a Nature anunciou que tinha criado uma lista de verificação desse tipo e que, para ajudar a melhorar a consistência estatística de seus artigos, empregaria estatísticos “como consultores em certos trabalhos a critério dos editores e conforme sugerido pelos críticos (árbitros, ou juízes, no jargão)”. (A equipe de reportagem e comentários da Nature é editorialmente independente de sua equipe de pesquisa editorial.)

“A Nature e a Science compartilharam suas experiências de melhoria de seus sistemas”, confirma Veronique Kiermer, editora-executiva da Nature. “Apreciamos suas novas iniciativas, assim como aplaudimos quaisquer medidas por parte de editores para melhorar análises estatísticas”.

Este artigo é reproduzido com permissão e foi publicado originalmente em 3 de julho de 2014.

Sciam 6 de julho de 2014

Sciam 7julho2014