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Robô revela gelo Antártico surpreendentemente espesso

Pesquisa submarina sugere revisão das interpretações sobre o gelo ao redor do continente

 

 

H. Singh/WHOI
 A maior parte das medidas do gelo antártico foram realizadas por meio da perfuração de gelo marítimo.

 

 
Por Daniel Cressey e Revista Nature 

Arriscadas explorações robóticas da vasta extensão de gelo marítimo ao redor da Antártica revelaram que esse gelo é muito mais espesso do que sugeriam as medidas anteriores de muitos locais.

“A ideia tradicional sobre o gelo marítimo da Antártica como uma fina camada sobre o oceano provavelmente só é verdadeira para uma parte dele”, declara Ted Maksym, pesquisador de gelo da Woods Hole Oceanographic Institution em Massachusetts (WHOI) que considera necessário aperfeiçoar o trabalho de pesquisa de toda essa camada de gelo.  

Observações anteriores da espessura do gelo marítimo da Antártica produziram um calado médio – a profundidade entre a linha d´água e o fundo da camada de gelo – de aproximadamente um metro; o novo trabalho encontrou um calado médio com mais de três metros. E a espessura máxima da camada de gelo registrada anteriormente era de 10 metros, mas agora chega a 16 metros.

Deformação do Gelo

As medidas anteriores eram limitadas por dependerem de navios que quebravam o gelo até chegarem à região e lançavam equipes para realizar perfurações e inserir linhas de medida nos orifícios produzidos. A técnica produziu um número limitado de observações diretas.

Para seu trabalho, Maksym e seus colegas Guy Williams da University of Hobart, na Tasmânia e Jeremy Wilkinson da Pesquisa Antártica Britânica em Cambridge, no Reino Unido, usaram um robô conhecido como veículo submarino autônomo (AUV, em inglês) para atravessar o gelo em três regiões próximas da costa e medir sua espessura diretamente.

 Usar AUVs sob o gelo é uma atividade arriscada. A Pesquisa Antártica Britânica perdeu seu robô Autosub 2 em uma de suas primeiras missões subgélidas em 2005. E no primeiro lançamento do projeto de Maksym, seu AUV – um veículo da classe SeaBED pertencente à WHOI – ficou encalhado e teve que ser resgatado por outro robô.

Mas os resultados valeram a pena: a equipe encontrou um gelo significativamente mais espesso que o registrado anteriormente por meio de perfuração.

A espessura é determinada pelas camadas de gelo que se chocam umas contra as outras e se acumulam em seções altamente deformadas – e bem mais grossas. A partir desses dados, não fica claro quanto o volume geral do gelo é maior do que se pensava anteriormente. Até o momento, a equipe de Maksym só mediu uma pequena fração do gelo marítimo que se forma ao redor da Antártica todos os anos. Seu conjunto de dados de 500 mil quilômetros quadrados é o mais abrangente já publicado, mas continua mínimo se comparado à extensão total do gelo marítimo, que chega a quase 20 milhões de quilômetros quadrados em seu máximo anual.

Mas fica evidente que existem áreas significativas do conjunto Antártico que são mais espessas e mais deformadas que as áreas que analisam tradicionalmente, de acordo com Maksym,

Melhorando modelos climáticos

Os resultados não são totalmente surpreendentes para alguns cientistas polares. Como navios de pesquisa evitam camadas mais espessas de gelo que podem fazê-los encalhar, existe um risco claro de viés na amostragem devido ao gelo mais fino.

Stephen Ackley, que estuda gelo marítimo na University of Texas em San Antonio, declara que já foram realizadas algumas observações de gelo mais espesso na Antártica. “Sempre sentimos algumas dificuldades para realizar observações nesse gelo muito espesso. O que eles fizeram foi qualificá-lo bem”, explica ele. “Isso deve claramente ao fato de navios não conseguirem operar nessas áreas”.

Quanto mais dados cientistas conseguirem reunir sobre o gelo marítimo da Antártica, mais razões eles podem descartar em relação a modelos climáticos que não conseguem prever sua extensão com precisão. Ainda que pesquisadores geralmente tenham sucesso na modelagem dos imensos declínios no gelo marítimo da Antártica, a extensão desse gelo aumentou em anos recentes, ao contrário do que previam os modelos climáticos. Outras pesquisas subgélidas usando AUVs poderiam calibrar medidas realizadas por satélites sobre a espessura do gelo, permitindo que pesquisadores compreendam melhor o que realmente está acontecendo ao redor do continente congelado.

Olivier Lecomte, que trabalha com modelagem de gelo marítimo na Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, declara que grande parte da análise da discrepância entre modelos e observações se concentra na extensão e cobertura de camadas de gelo. A obtenção de medidas precisas da espessura também fornece outras abordagens para o problema. “Esses dados são inestimáveis”, conclui ele.

Este artigo foi reproduzido com permissão e foi publicado pela primeira vez em 24 de novembro de 2014.