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Salmão tem mapa interno baseado em campo magnético

Até mesmo o salmão criado em cativeiro tem noção inata de como chegar a certas regiões oceânicas

Tom Quinn/Richard Bell
Um salmão-rei jovem no mesmo estágio dos que foram usados no estudo

 

 
Por Geoffrey Giller

Smartphones e sistemas de navegação baseados em GPS tornaram bem fácil para humanos descobrirem como ir do ponto A ao ponto B. Mas animais migratórios não precisam digitar termos de pesquisa em um telefone:eles precisam da própria tecnologia.

Aves migratórias e tartarugas marinhas, no entanto, têm algo melhor: esses animais conseguem sentir variações no campo magnético da Terra enquanto atravessam o globo para chegar às mesmas praias ou locais de reprodução todos os anos.

E agora nós sabemos mais sobre como salmões também fazem isso. Em um estudo publicado em 6 de fevereiro na Current Biology, cientistas descobriram que salmões usam o campo magnético da Terra como um mapa, de maneira muito semelhante a tartarugas recém-nascidas.

Aves, por outro lado, usam campos magnéticos mais como uma bússola: eles sabem a direção em que estão indo, mas precisam de outras informações para saber aonde precisam ir.

Salmões parecem herdar geneticamente esse mapa de seus pais: peixes jovens que foram criados em cativeiro responderam como esperado a campos magnéticos artificiais. “Se eles usarem campos magnéticos para saber onde estão, devem mudar a direção de seu nado quando estiverem em um campo magnético diferente”, observa Nathan Putman, pesquisador da Oregon State University (O.S.U.) e principal autor do estudo. E de fato os peixes “nadam em direções diferentes quando estão em campos magnéticos diferentes”, conta ele.

No estudo, pesquisadores  colocaram salmões-reis (Oncorhynchus tshawytscha) jovens em tanques separados. Usando bobinas magnéticas, eles conseguiram emular os campos magnéticos de diferentes partes das regiões oceânicas dos salmões. Eles descobriram que quando os peixes eram expostos a certos campos, como os das partes mais ao norte de suas regiões normais, eles tentavam nadar para o sul, para retornar ao centro daquela região.

Por outro lado, peixes expostos a campos magnéticos do sul tinham a tendência de se orientar para o norte. “Esses peixes sabem onde estão, onde deveriam estar, e como chegar lá”, declara David Noakes, professor de peixes e vida selvagem da O.S.U. e co-autor do artigo. “Isso é muito impressionante”, adiciona ele.

De acordo com Noakes, ao contrário de aves migratórias, a maioria dos salmões não tem a oportunidade de aprender aonde ir com seus ancestrais; eles só migram até o oceano e voltam para seus locais de origem uma vez na vida, para reprodução, antes de morrerem. “Seus pais não estão por perto para ajudá-los a fazer as coisas”, observa o pesquisador. “Eles têm que fazer tudo certo na primeira vez, porque não terão outra chance de participar do jogo”. Noakes aponta que, se os peixes errarem, eles provavelmente morrem de fome, são devorados, ou acabam em correntes erradas. Isso significa que o conhecimento migratório tem que ser “inato aos animais”.

O estudo também descobriu que os salmões parecem usar duas características do campo magnético em um dado local: sua intensidade, ou força, combinada com sua inclinação, ou o ângulo do campo comparado com a própria Terra. Quando peixes são expostos a um campo irregular, como uma intensidade do norte combinada com uma inclinação do sul, ou vice-versa, eles ficam desorientados, o que indica que usam os dois tipos de informação para descobrir onde estão e para onde devem ir.

Ainda que o estudo tenha mostrado que salmões herdam alguns mapas inatos, não está claro como eles são percebidos pelos animais. “Nós não podemos saber o que um peixe ou tartaruga está pensando”, observa Putman. O que os cientistas estão tentando descobrir, de acordo com ele, é porquê os salmões se comportam daquela forma. “Eles se comportam como se soubessem onde estão”, explica ele, e isso significa que eles têm algum tipo de mapa interno baseado unicamente no campo magnético. Ainda que peixes possam usar outras características ambientais da natureza, como o sol ou elementos olfativos, essas variáveis foram controladas nesse estudo, e isso significa que os peixes só usavam os campos magnéticos para decidir em que direção deveriam nadar.

James Gould, biólogo evolutivo da Princeton University que não se envolveu no estudo, escreveu em um comentário sobre o artigo que os peixes podem não ter um mapa do tipo que imaginamos, mas em vez disso algo parecido com uma planilha do Microsoft Excel, com “listas de coordenadas magnéticas preenchidas com respostas direcionais sazonalmente apropriadas”. Ou seja, os peixes podem simplesmente perceber o campo magnético de uma certa localização e, assim como um GPS, ter essencialmente um comando de voz em sua cabeça que lhes diz para onde nadar. Putman acredita que esse pode ser o caso dos salmões. “Se eu tivesse que apostar, eu diria que provavelmente é isso que acontece”, conclui ele.