Sciam
Clique e assine Sciam
Notícias

Sangue de sobreviventes de Ebola é um tratamento eficaz?

Fundação Bill & Melinda Gates anunciou plano para testar a terapia na Guiné no início de 2015 

Shutterstock
 

 
Por Dina Fine Maron

Quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) qualificou, recentemente, transfusões de sangue de sobreviventes do vírus Ebola como terapia experimental prioritária para combater a doença que assola a África ocidental havia apenas um grande problema: a inexistência de dados indicando que elas de fato funcionam.

O plasma sanguíneo de sobreviventes contém anticorpos que poderiam, potencialmente, induzir uma resposta do sistema imune em pacientes, o que reforçaria sua capacidade de combater o vírus.

Mas não existem dados clínicos que sugiram que isso tenha ajudado pessoas infectadas a se livrar da infecção.

Diante da ausência de qualquer outra terapia ou vacina aprovada contra o Ebola, porém, diversos pacientes nos Estados Unidos (inclusive o assistente humanitário Kent Brantly, um dos primeiros americanos a contrair o vírus nessa epidemia) receberam transfusões de sangue de sobreviventes de Ebola.

Mas o processo não é tão simples.

O plasma doado precisa passar por uma triagem para outras doenças transmissíveis pelo sangue, como o HIV e a hepatite, o que tem complicado os esforços para implantar esses protocolos em campo.

Agora, a Fundação Bill & Melinda Gates anunciou que no início de 2015 planeja iniciar testes clínicos na Guiné para verificar se as transferências de plasma sanguíneo são eficazes.

A entidade disponibilizou US$ 5,7 milhões para apoiar o trabalho e está recrutando doadores para os ensaios na Guiné, e talvez em outras nações do oeste africano afetadas pela epidemia.

Muitos detalhes da iniciativa ainda não foram esclarecidos, por exemplo, quantos pacientes serão incluídos nos testes. Mas David Hoover, um bolsista da fundação e conselheiro médico sênior da Clinical Research Management, Inc., forneceu algumas informações iniciais por e-mail.

[A seguir, uma versão editada e adaptada da entrevista]:

P: Onde os ensaios serão conduzidos?

R: Os testes serão realizados na Guiné e em outros países da África ocidental que foram afetados pela atual epidemia de Ebola. Até o momento, só anunciamos a Guiné, mas divulgaremos os outros países assim que tivermos o consentimento dos respectivos governos nacionais para isso.

P: Como os doadores serão recrutados?

R: Através de grupos organizados de pessoas que sobreviveram ao Ebola e por meio de listas de doadores sobrevivente mantidas por hospitais.

P: Quem estará qualificado para doar plasma convalescente (de sobreviventes)?

R: Pessoas que estiveram livres da infecção durante pelo menos 28 dias poderão fazer doações. Esses sobreviventes visitarão um laboratório móvel, equipado com dispositivos de plasmaferese [técnica para separar o plasma sanguíneo dos outros elementos do sangue por centrifugação para fins terapêuticos] e inativação de patógenos.

P: Haverá suficiente plasma de convalescentes para tratar todos os pacientes interessados?

R: Acreditamos que a demanda excederá significativamente a oferta. Para cada dois doadores, o ensaio poderá fornecer plasma para dois receptores. [Cada paciente receberá plasma coletado de dois doadores, e não de um único.]

Participantes do ensaio que tenham o mesmo tipo sanguíneo dos doadores receberão 600 mililitros de plasma ministrados em três doses de 200 mililitros cada ao longo de quatro dias.

Pessoas com tipos sanguíneos incompatíveis com os dos doadores não receberão plasma convalescente, mas um padrão de cuidados mais elevado para sua infecção por Ebola do que está disponível de modo geral em países afetados pelo surto. [Eles receberão terapia de reposição intravenosa de líquidos, que não é oferecida em muitas áreas].

O ensaio clínico foi projetado para garantir uma seleção completamente objetiva de pessoas que receberão plasma convalescente.

P: Como os pesquisadores determinaram a dosagem a ser ministrada?

R: A estipulação de três infusões de 200 mililitros de plasma convalescente por paciente está baseada em evidências positivas de observações casuais feitas em episódio anteriores de Ebola.

Durante o surto em Kikwit, na República Democrática do Congo, em 1995, sete de cada oito pessoas tratadas com sangue total de pacientes recuperados sobreviveram às suas infecções.

O ensaio foi concebido para aplicar doses de plasma equivalentes ou superiores às doses recebidas pelos sobreviventes de Kikwit.

P: Qual será o padrão de atendimento para pessoas inscritas no ensaio?

R: Todos os participantes receberão infusões de fluidos intravenosos e eletrólitos, além de um monitoramento regular de sinais vitais, incluindo eletrólitos e pressão arterial.

P: Como pesquisadores medirão o efeito do plasma convalescente?

R: Seu efeito será medido através do monitoramento do nível de vírus no sangue dos receptores em comparação com a linha de base do grupo de controle [que ainda tem de ser definido].

O ensaio não terá condições de fornecer plasma a todo paciente qualificado inscrito para os testes; o plasma será ministrado aos primeiros participantes compatíveis com o plasma existente disponíveis.

P: Como doadores serão compensados por sua participação no ensaio?

R: Os doadores não serão pagos pelo plasma que contribuírem. Mas eles receberão viagens e alojamento subsidiados para facilitar sua participação nos testes, e serão indenizados [financeiramente] por seu tempo.

Sobre a autora: Dina Fine Maron é editora associada para saúde e medicina na Scientific American. Siga-a no Twitter em @Dina_Maron.

As opiniões expressas são as da autora e não necessariamente as da Scientific American.

Publicado em Blogs da Scientific American em 1 de dezembro de 2014.