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Anfíbio sul-americano emite luz fluorescente

Descoberta rara entre animais terrestres revela uma nova forma de brilhar

Santiago Ron/Flickr
Sob luz normal, o anfíbio sul-americano Hypsiboas punctatus ostenta uma silenciosa paleta de verdes, amarelos e vermelhos. Porém, escureça as luzes e mude para uma iluminação ultravioleta e este pequeno anfíbio solta uma claridade azul e verde brilhante.

A habilidade de absorver luz em comprimentos de onda curtos e reemiti-los em comprimentos maiores é chamada de fluorescência, e é rara em animais terrestres. Até o momento, era desconhecida em anfíbios. Pesquisadores relatam ainda que essa espécie de sapo usa moléculas fluorescentes totalmente diferentes daquelas encontradas em outros animais. A equipe publicou a descoberta no dia 13 de março na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

Devido à fluorescência requerer a absorção de luz, ela não acontece na total escuridão. Isso a faz diferente da bioluminescência, na qual organismos emitem sua própria luz, gerada a partir de reações químicas. Muitas criaturas do oceano são fluorescentes, incluindo corais, peixes, tubarões e uma espécie de tartaruga marinha (a tartaruga-de-pente, Eretmochelys imbricata). Em terra, a fluorescência já era conhecida apenas em papagaios e alguns escorpiões. Não está claro o porquê de animais terem essa habilidade, embora explicações incluam comunicação, camuflagem e atração para acasalar.

Os pesquisadores pensaram primeiro que poderiam encontrar fluorescência vermelha nesses anfíbios, pois eles possuem um pigmento chamado biliverdina. Normalmente, a biliverdina deixa os tecidos e os ossos do anfíbio verdes. Contudo, segundo o herpetologista Carlos Taboada da Universidade de Buenos Aires, na Argentina, proteínas se ligam à biliverdina em alguns insetos, emitindo uma fluorescência vermelha fraca. Porém, nessa espécie de anfíbio, o pigmento acabou sendo um vermelho chamativo.

Vestido para impressionar

Quando Taboada e seus colegas colocaram uma lanterna UVA (ou luz negra) sobre um dos anfpibios, coletado próximo a Santa Fé, na Argentina, ficaram surpresos ao ver que o animal emitiu um intenso brilho azul esverdeado ao invés de um fraco vermelho. “Não conseguíamos acreditar”, diz o co-autor do estudo Julián Faivovich, herpetologista também da Universidade de Buenos Aires.

Três moléculas - hyloin-L1, hyloin-L2 e hyloin-G1 - presentes no tecido linfático, na pele e nas secreções glandulares dos animais foram responsáveis pela fluorescência verde. Essas moléculas contêm um anel e uma cadeia de hidrocarbonetos, e são singulares entre as moléculas fluorescentes conhecidas nos animais. As moléculas similares mais próximas são encontradas em plantas, segundo Norberto Peporine Lopes, co-autor do estudo e químico da Universidade de São Paulo.

As moléculas fluorescentes, descritas recentemente, emitem uma quantidade surpreendente de luz, fornecendo o equivalente a 18% da luz visível refletida pela Lua cheia - o suficiente para que ele possa ser visto por uma espécie aparentada. Sabe-se quase nada sobre o sistema de visão ou os fotorreceptores do Hypsiboas punctatus; por isso, Taboada planeja estudá-los para determinar se os sapos podem ver sua própria fluorescência.

“Eu acho que isso é emocionante”, diz David Gruber, biólogo marinho da Faculdade de Baruch, parte da Universidade da Cidade de Nova Iorque, que descobriu, junto com seus colegas, a fluorescência nas tartarugas-de-pente em 2015. “Isso traz muito mais perguntas do que respostas” - incluindo as funções ecológicas e comportamentais da fluorescência.

Faivovich quer procurar por fluorescência em 250 outras espécies de anfíbios de árvore que possuem possuem pele translúcida como o Hypsiboas punctatus. Ele torce para não ser o único: “Realmente espero que outros colegas se interessem pelo fenômeno e comecem a carregar consigo uma lanterna UV quando forem à campo”, ele diz.

 

Anna Nowogrodzki, Nature

Esse artigo é reproduzido com permissão da Nature e foi publicado originalmente no dia 13 de março de 2017.
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