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Será que o vírus H7N9 da gripe aviária sairá da China?

Província de Shandong e arredores do mar Bohai até a província de Liaoning, no norte têm alto risco

A. J. Tatem, Z. Huang and S. I. Hay (2013). Unpublished data. (A.J.T., University of Southampton, UK; Z.H., University of Florida, Gainesville; S.I.H., University of Oxford, UK.
Rotas de voo das regiões de surto rapidamente carregariam qualquer vírus transmissíveis por humanos a enormes centros populacionais na Europa, América do Norte e Ásia. Números estimados de pessoas que residem a duas horas de viagem de aeroportos de chegada foram calculados usando mapas gradeados e um conjunto de dados de tempos de viagens globais.
Áreas de alto risco podem incluir a província de Shandong (onde o primeiro de 104 casos entre humanos foi relatado em 23 de abril) e um cinturão se estendendo dos arredores do mar Bohai até a província de Liaoning, no norte. Mas casos fora da China podem ser apenas uma questão de tempo

 Por Declan Butler e revista Nature

Cientistas ainda não compreendem completamente como o vírus H7N9 da gripe aviária está se espalhando na China, ou  o porque do padrão de casos humanos esporádicos atual. Mas mapear os riscos de fatores conhecidos da disseminação de vírus da gripe aviária e infecções humanas pode fornecer algumas pistas.

Os primeiros casos de infecção humana com o H7N9 foram relatadas na China em 31 de março, com dois casos em Xangai, no litoral leste e um na província vizinha de Anhui.

Em 22 de abril, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já tinha registrado 104 casos confirmados, incluindo 21 mortes, e o vírus expandiu seu alcance geográfico até as províncias vizinhas de Jiangsu e Zhejiang, além de Pequim no norte e Henan no centro do país.

Em 23 de abril, a agência estatal de notícias da China, Xinhua, relatou que um homem de 36 anos estava em condições sérias na cidade de Zaozhuang, a meio caminho entre Xangai e Pequim – o primeiro caso da província de Shandong.

O maior número de casos foi relatado em Xangai, com 32, e em Hangzhou na província de Zhejiang, com 27; Huzhou na província de Zhejiang relatou 10 casos, assim como Nanjing na província de Jiangsu.

Para rastrear a atual onda de casos em humanos, cientistas precisam identificar as fontes do vírus, e a rota que ele usa para infectar humanos. Pássaros em mercados de víveres são uma das fontes suspeitas, mas dezenas de milhares de testes em aves e outros animais em vários locais até agora não mostraram níveis significativos do vírus.

É bem difícil divisar maneiras eficazes de amostrar aves e animais para testar em um país com cerca de seis bilhões de pássaros domésticos e 0,5 bilhão de porcos – sem mencionar uma vasta população de pássaros selvagens, incluindo muitas espécies migratórias.

Apesar de os fatores de risco para a disseminação do H7N9 não serem conhecidas, extensas pesquisas com seu primo, o vírus H5N1 que provocou 622 casos confirmados e 371 mortes desde 2003, pode ajudar nas análises. Isso ajudaria cientistas e oficiais da saúde a visar seus esforços de controle e vigilância.

Para o H5N1, pesquisadores integram grandes conjuntos de dados que combinam informações sobre muitos fatores importantes, como rotas comerciais de aves, o número de pássaros sendo transportados, a distribuição de mercados de aves vivas e suas rotas de fornecimento, números de aves aquáticas, uso de terra e densidades de populações humanas. A esses, eles adicionam a distribuição de casos de H5N1 em aves, além de resultados positivos de H5N1 de vigilância ativa em mercados.

Marius Gilbert, coautor de um estudo publicado na PLoS Pathogens em 2011, e especialista na epidemiologia e ecologia de vírus da gripe aviária na Universidade Livre de Bruxelas, declara que apesar de os fatores de risco do H7N9 poderem ser diferentes, dada a atual escassez de informação, os mapas de risco do H5N1 provavelmente são um bom  ponto de partida para identificar as áreas em maior risco.

De fato, quando casos humanos de H7N9 são sobrepostos em um mapa de risco que Marius e seus coautores forneceram à Nature, eles parecem estar dentro das áreas de risco mais alto para o H5N1. O mapa sugere que áreas de alto risco para o H7N9 podem incluir a província de Shandong (que relatou seu primeiro caso em 23 de abril) e um cinturão que se estende ao redor do Mar Bohai até a província de Liaoning, no norte.

Gilbert foi um dos mais de 30 especialistas internacionais que se reuníram na Organização para Alimentação e Agricultura das Nações Unidas, em Roma num encontro de dois dias na semana passada para discutir os atuais surtos de H7N9.

Nessa reunião, de acordo com ele, modelagem e mapeamento de riscos foram discutidos como meio de divisar a vigilância pretendida. Essas informações também poderiam ser usadas para ajudar a modificar práticas de agricultura e comércio e reduzir o risco de exposição humana ao vírus. Os modelos podem ser refinados de acordo com novas descobertas sobre o H7N9. 

O vírus H7N9 se espalha de aves para humanos mais facilmente que o H5N1. A proximidade entre populações de aves e mamíferos também poderia dar ao vírus oportunidades para maior adaptação a mamíferos, incluindo humanos.

Uma equipe internacional de pesquisadores compilou mapas para a Nature mostrando a densidade populacional de frangos, porcos, patos e humanos em muitas partes da China e da Ásia. Eles calculam que 131 milhões de pessoas, 241 milhões de frangos domésticos, 47 milhões de patos domésticos e 22 milhões de porcos vivem em um raio de 50 quilômetros de cada um dos 60 casos humanos de H7N9 que haviam ocorrido até 16 de abril.

Até agora não há evidência de disseminação entre humanos do H7N9. Mas e se isso acontecer?

No que Jeremy Farrar, diretor da Unidade de Pesquisas Clínicas da Oxford University em na cidade de Ho Chi Minh, no Vietnã, descreve como um “esforço extraordinário”, ele e outros pesquisadores internacionais, incluindo alguns da China e da OMS, trabalharam juntos nas últimas semanas para analisar rapidamente dados de passageiros de linhas aéreas da China. Os mapas e dados resultantes desse trablho podem dar uma ideia de onde as maiores zonas de risco pelo mundo podem estar.

Um mapa que os pesquisadores forneceram à Nature mostra, apontam eles, que a China oriental – o epicentro dos atuais casos de H7N9 – é um dos complexos de tráfego aéreo mais movimentados do mundo. “Um quarto da população global fora da China mora a duas horas de um aeroporto com voo direto a partir das regiões do surto, e esse número sobe para 70% se um único voo de conexão for incluído”, explicam os pesquisadores.

Como Peter Horby, diretor da Unidade de Pesquisas Clínicas da Oxford University em Hanoi, no Vietnã, e seus colegas apontam em uma World View na Nature desta semana, “Talvez o primeiro caso humano de H7N9 fora da China continental seja apenas uma questão de tempo. Então as comunidades clínica e de saúde pública precisarão avaliar, cuidadosa e rapidamente, se isso representa um único caso importado de transmissão de animais para humanos, uma epidemia animal que se espalhou para o exterior, ou a disseminação internacional de um vírus parcial ou completamente adaptado a humanos”.

Onde está o H7N9 agora?

A maioria dos casos humanos de H7N9 permanecem concentrados ao redor de Xangai no litoral leste da China, mas casos também foram detectados em Pequim, no norte, e na província de Henan no centro. (O tamanho dos círculos vermelhos no mapa é proporcional ao número de casos humanos.)

Fontes: Várias, incluindo a OMS e a Agência de Notícias Xinhua

Para onde o H7N9 pode ir em seguida?

Mapas de risco desenvolvidos para a infecção humana provocada por outro vírus bem estabelecido da gripe aviária – o H5N1 – podem ajudar a visar os esforços de vigilância e controle do H7N9. O mapa mostra casos humanos de H7N9 (círculos azuis) superpostos em um mapa de risco desenvolvido para o H5N1, com o amarelo claro representando o risco mais baixo, e áreas mais escuras, o risco mais alto.

Fontes: Martin, V. Et al. PloS Pathog. 7, e1001308 (2011).