Sciam
Clique e assine Sciam
Notícias

Sismólogos são surpreendidos por abalo misterioso após teste nuclear da Coreia do Norte

Uma segunda sacudida sentida depois da detonação deste mês continua a confundir pesquisadores

KCNA
Imagem de lançamento de mísseis norte-coreanos em março de 2017.
Oito minutos e meio após a Coreia do Norte lançar uma bomba nuclear no dia 3 de setembro, uma segunda explosão de energia balançou a montanha onde o teste havia acabado de acontecer. Mais de uma semana depois, pesquisadores ainda estão buscando o que causou a liberação extra de energia sísmica - e o que isso diz sobre o local de teste nuclear usado pela Coreia do Norte, ou os riscos de um vazamento maior de radiação. Estações de monitoramento da Coreia do Sul já pegaram níveis mínimos de radiação do teste.

Diversas teorias surgiram para explicar o segundo evento, que vão desde o colapso de um túnel ou um deslizamento de terra até o estilhaço de pedras dentro de Mount Mantap, local dos testes. Contudo, sismólogos não concordam e dizem que talvez não consigam evidências suficientes para determinar a causa.

“Este é um mistério interessante nesse momento”, diz Göran Ekström, sismólogo da Universidade de Columbia na cidade de Nova York.

A natureza do primeiro sinal sísmico está mais clara porque corresponde ao perfil de uma explosão de bomba. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês) determinou a magnitude do evento sísmico associado à explosão nuclear como 6,3, enquanto a Organização do Tratado de Proibição de Testes Nucleares (CTBTO, na sigla em inglês) em Viena calculou como 6,1, com base em uma análise separada. A explosão foi muitas vezes maior do que as geradas por testes norte-coreanos anteriores, além do maior sinal sísmico de um teste nuclear já detectado pela rede internacional de estações de monitoramento sísmico utilizada pela CTBTO.

O segundo evento aconteceu 8,5 minutos mais tarde e registrou uma magnitude de 4,1, informou o USGS. A agência sugeriu que ele estava associado ao teste e pode ter sido um “colapso estrutural”. A possibilidade do abalo menor ter sido causado pelo colapso de um túnel dentro do local de teste dominou a discussão na mídia. Porém, Paul Earle, sismólogo do USGS, disse à revista Nature que havia apenas uma possibilidade a qual surgiu logo após a explosão. O USGS, ele disse, “baseou isso nos testes nucleares anteriores de tamanho comparável os quais tiveram um colapso”.

Possíveis sinais de um colapso são visíveis em imagens de satélites tiradas do local de teste, de acordo com uma análise divulgada no dia 12 de setembro pela 38 North, uma parceria do Instituto US-Korea e da Escola Johns Hopkins de Estudos Internacionais Avançados em Washington, D.C.

Contudo, o sinal sísmico não coincide com o que seria esperado de um colapso, diz Lianxing Wen, geofísico da Universidade Estadual de Nova York em Stony Brook. Um colapso produziria principalmente movimentos verticais de rochas, mas seu próprio estudo não-publicado sugere que as pistas sísmicas apontam também para um grande movimento horizontal, algo que, segundo ele, seria mais consistente com um deslizamento de terra.

Escala deslizante

Embora os dados de satélites mostrem muitos deslizamentos de terra em Mount Mantap, outros pesquisadores argumentam que não poderiam ter causado um evento de magnitude 4,1. Deslizamentos muito maiores, como na mina Bingham Canyon em Utah em 2013, não produziram sinais sísmicos próximos a esse tamanho, diz Ekström.

Ele ainda argumenta que os sinais sísmicos os quais viu não coincidem com o padrão esperado de um deslizamento de terra. Um evento desses teria sinais com maior duração (combinando com o tempo necessário para as rochas caírem em uma inclinação) e menos ondas de alta frequência (porque a energia em um deslizamento é liberada mais lentamente do que em terremotos ou explosões) em relação ao que foi registrado no evento norte-coreano. Ele diz que um colapso não pode ser descartado. Algumas vezes, a cratera formada por um colapso não fica visível na superfície até muito depois.

Outra teoria vem de um colega de Ekström em Columbia, o sismólogo Won-Young Kim. Kim descarta um colapso, um deslizamento de terra e a possibilidade de que houve um terremoto desencadeado pela explosão. Ele diz que o evento sísmico foi provavelmente um rock burst - uma fratura violenta de rochas ao redor de um dos muitos túneis sob Mount Mantap. Isso poderia explicar a frequência das ondas sísmicas, as quais eram mais baixas do que a ruptura de um terremoto, porém mais altas do que um deslizamento de terra, assim como outras características, segundo ele.

A caracterização de deslizamentos de terra e de rock bursts poderia ajudar pesquisadores a avaliar o quão instável é Matap. Mesmo que toda a montanha não vá entrar em colapso, como algumas pessoas advertiram, sinais mais sutis de deslizamentos ou rock bursts poderiam indicar se uma grande seção da montanha acima dos túneis poderia ter quebrado. Se for o caso, isso poderiam levar a contaminação de áreas montanhosas por materiais radioativos. “É difícil imaginar como conter isso, dada a altitude e o isolamento do local”, diz Kim.

Estações fora da Coreia do Norte começaram a detectar radiação proveniente do último teste. No dia 13 de setembro, a Comissão de Segurança e Proteção Nuclear da Coreia do Sul em Seul anunciou que diversas estações de monitoramento terrestres e marinhas na direção do local de testes detectaram o isótopo radioativo xenon-133, um indicador de teste nuclear. Entretanto, outros isótopos não foram detectados, impedindo a determinação de qual tipo de bomba foi utilizada. Isso também não indicou se a radiação está vazando do local em uma taxa maior do que a esperada, disse Cheol-Su Kim, diretor do departamento de avaliação de radioatividade ambiental do Instituto Coreano de Segurança Nuclear em Daejeon, na Coreia do Sul.

Baseando-se na rede terrestre de estações da Coreia do Sul, os níveis gerais de radiação lá variavam entre 50 e 300 nanosieverts por hora - não superior ao nível base do país.

David Cyranoski, Nature

Com reportagem de Mark Zastrow

Este artigo é reproduzido com permissão e foi originalmente publicado em 14 de setembro de 2017.
Para assinar a revista Scientific American Brasil e ter acesso a mais conteúdo, visite: http://bit.ly/1N7apWq