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Sistema cego poderá monitorar redução de arsenal nuclear

Pesquisadores propuseram método que preserva confidencialidade de informações 

United States Department of Defense
A bomba nuclear gravitacional B61 (na imagem) é montada e desmontada na Pantex Plant, no Texas. 

Por Susan Matthews

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, propôs que tanto os Estados Unidos quanto a Rússia continuem a reduzir suas reservas de armas nucleares, encorajando uma redução de um terço no tamanho dos arsenais. Sua proposta de 19 de junho, que ainda não especificou uma data limite para a destruição das armas, se baseia no tratado New START, de 2010, entre Rússia e Estados Unidos, que pede que cada país tenha não mais que 1550 ogivas até 2018.

Até agora, esforços para reduzir arsenais, e portanto reduzir o risco de detonações e lançamentos nucleares acidentais, foram impedidos pelos riscos oferecidos pelo processo de verificação. Regimes de verificação requerem a troca de informações confidenciais, o que poderia encorajar a proliferação nuclear se chegasse a mãos erradas. Então, uma equipe de cientistas da Princeton University, divisou um novo sistema de verificação que não revelaria detalhes sobre as armas.

Como confirmar a destruição [de armas nucleares] sem arriscar a proliferação é um problema com vários anos, observa Robert Goldstone, físico de Princeton e co-investigador de princípios do projeto. Para evitar a divulgação de informações confidenciais, o atual método para verificar a adequação ao tratado calcula sistemas de lançamento de ogivas, não as ogivas propriamente ditas. Certos sistemas propostos fazem medidas confidenciais e depois alimentam as informações diretamente em um sistema computadorizado que registra apenas o veredito final. Mas é mais fácil para um país falsificar o processo e para outros espionarem o sistema se ele depender de um computador, lembra Alexander Glaser, físico de Princeton e outro dos principais investigadores do projeto. Então os pesquisadores criaram um sistema de verificação de “informações zero”, em que o inspetor não descobre nada confidencial.

O inspetor visitaria o país, que teria um dispositivo chamado de projetor de nêutrons [neutron beamer] pronto. Passar nêutrons através de uma ogiva deixa uma assinatura: material nuclear absorve alguns nêutros, e a fissão desvia alguns nêutrons, espalhando-os. O número de nêutrons que chega a um detector revela se a ogiva é nuclear. Infelizmente, esse número-assinatura é confidencial porque físicos poderiam usar engenharia reversa a partir dele para descobrir quais materiais estão sendo usados e como a fissão está ocorrendo, essencialmente desconstruindo os componentes da bomba.

O processo de ocultar o número-assinatura confidencial usa um princípio simples: imagine ter que confirmar que dois pacotes de bolinhas de gude são iguais, sem saber quantas bolinhas há em cada um. Peça para alguém adicionar um número definido de bolinhas vermelhas a cada um dos pacotes sem lhe dizer quantas. Então, com seus olhos fechados, conte o número de bolinhas em cada pacote. Se os totais forem iguais, você saberá que os pacotes começaram com a mesma quantidade de bolinhas azuis.

No processo de verificação nuclear, antes da inspeção o país anfitrião e o inspetor concordariam com um número, batizado de N-max, que confirmaria que uma ogiva é nuclear.

O N-max é a soma dos nêutrons-assinatura (bolinhas azuis) e de um número desconhecido de pré-carregadas que indicam nêutrons (bolinhas vermelhas) que serão adicionados a cada contagem para disfarçar o verdadeiro número na assinatura. O processo é testado pela primeira vez em uma arma nuclear confirmada, para que todas as ogivas subsequentes que atinjam N-max também possam ser qualificadas de nucleares. 

Glaser admite que a abordagem é “quase vergonhosamente simples”. Mas o sistema contém uma engenhosidade oculta. Se o país anfitrião oferecer uma ogiva falsa, outro número além de N-max poderia ser alcançado, o que pode revelar o número de pré-carregadas sendo adicionadas. Isso poderia permitir que o inspetor usasse engenharia reversa para encontrar a assinatura, com o potencial de descobrir os segredos nucleares do país anfitrião – incentivo extra para ninguém trapacear.

De acordo com Steve Fetter, especialista em controle nuclear da University of Maryland,  apesar de a teoria parecer sólida, ele não está convencido de que tanto segredo é necessário.

Dois países com bombas nucleares avançadas não têm muito o que roubar um do outro, aponta ele. Tom Cochran, físico do Conselho de Defesa de Recursos Naturais, têm preocupações em outros termos. Ele desenvolveu um sistema de teste proposto em 1990, que mede os raios gama que ogivas nucleares emitem, mais numerosos que nêutrons e com maior probabilidade estatística de serem precisos. Seu sistema, porém, usa um computador para bloquear informações confidenciais. 

Glaser questiona a noção de que melhores testes de verificação não são necessários. Como evidência de que os sistemas atuais não são adequados, ele cita o Relatório de Postura Nuclear do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, de 2010, que apontou a necessidade por “mais trabalhos com tecnologias de verificação”.

Fetter concorda que conforme os números de ogivas diminuem, governos vão querer verificar se estão diminuindo mesmo, e que o sistema de nêutrons pode ser uma boa opção, apesar de ainda estar alguns anos distante da realidade. “Se esse tipo de ideias estiverem disponíveis, o avanço das negociações pode ser facilitado”, conclui Goldston

Ver esquema explicativo em: http://migre.me/fizSO