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Sonda registra pontos brilhantes em Ceres

Imagens da sonda Dawn revelam detalhes supreendentes do planeta anão

 

NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/ID
 Essa imagem do planeta anão Ceres obtida pela missão Dawn, da Nasa, em 19 de fevereiro de 2015 a uma altitude de 46 mil quilômetros, revela que a mancha brilhante vista em uma cratera se divide em dois pontos. Os pontos podem ser gelo altamente refletivo ou depósitos minerais – ou algo ainda mais estranho.
Por Lee Billings

O maior e mais misterioso residente do campo de destroços entre Marte e Júpiter é um mundo gelado chamado Ceres, e ele está prestes a ser explorado de perto pela primeira vez por uma missão da Nasa, a sonda Dawn, que deve entrar em sua órbita no dia 6 de março. 

Descoberto em 1801 pelo astrônomo italiano Giuseppe Piazzi, inicialmente acreditava-se que Ceres era um planeta completo. Isso começou a mudar quando um dos rivais de Piazzi, o astrônomo William Herschel, percebeu que Ceres só aparecia como um ponto de luz em seu telescópio em vez de um disco distinto, como acontecia com os outros planetas conhecidos. Para Herschel, isso significava que Ceres era pequeno demais para ser considerado um planeta, então o astrônomo cunhou o termo “asteroide” para descrever sua aparência semelhante à de uma estrela. Ceres foi levemente promovido a “planeta anão” em 2006, parte do mesmo processo que rebaixou Plutão ao mesmo status.

Não importa do que você o chame, geologicamente Ceres é um dos objetos mais interessantes e estranhos do Sistema Solar. Sua forma, tamanho e composição – redondo, bem maior do que o Texas  e com pelo menos 20% de gelo de água – colocam-no no pouco compreendido ponto de transição entre mundos rochosos como a Terra e mundos gelados como a lua Europa, de Júpiter, ou Encélado, de Saturno, e outras grandes luas do sistema solar exterior. Além de imagens borradas obtidas pelo Telescópio Espacial Hubble em 2004, a superfície de Ceres havia sido pouco vislumbrada até a aproximação da Dawn. Conforme os motores de íons da sonda carregam-na lentamente até Ceres, as características do planeta anão começam a entrar em foco, revelando  detalhes surpreendentes a cada imagem.

Nas imagens mais recentes, obtidas a 46 mil quilômetros de distância do planeta e publicadas em 25 de fevereiro, a Dawn concentrou seu olhar em misteriosos pontos brilhantes na superfície cheia de crateras de Ceres. Alguns desses pontos já haviam sido observados em imagens do Hubble.

Aquela que parecia ser a mancha mais brilhante de Ceres, agora aparenta ser um par – uma mancha maior e mais brilhante ao lado de uma menor, mais tênue, ambas na mesma cratera. “Brilhante” é um termo relativo – todas as manchas brilhantes do planeta na verdade são bem escuras, mas ainda são muito mais claras que o resto de Ceres, que é mais escuro que carvão. Ninguém sabe o que são essas manchas brilhantes, mas ideias não faltam: talvez sejam cicatrizes de impactos recentes, ou minerais depositados por gêiseres ativos, ou gelo de água lançado por “criovulcões” – ou algo ainda mais inusitado. Em 2014, o telescópio espacial Herschel observou plumas transitórias de vapor d’água aparentemente próximos dos pontos brancos nas imagens do Hubble.

“Agora podemos ver que a mancha brilhante de Ceres tem uma companheira de brilho menor, mas aparentemente na mesma cratera”, declara Chris Russell, da University of California, Los Angeles, principal pesquisador da Dawn. “Isso pode apontar uma origem vulcânica das manchas, mas teremos que esperar por uma resolução melhor antes de podermos realizar esse tipo de interpretação geológica”.

“No momento, as imagens ainda estão naquela resolução intrigante que nos permite imaginar explicações”, brinca Mike Brown, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, astrônomo cujo trabalho ajudou a motivar a reclassificação de Plutão e Ceres como planetas anões. De acordo com Brown, as manchas brancas parecem ser gelo exposto, mas observações de Ceres realizadas com telescópios terrestres não mostram nenhuma evidência de gelo na localização desses pontos brilhantes.

Em tese o gelo não deveria ficar estável na superfície de Ceres, aponta Andy Rivkin, cientista planetário do Laboratório de Física Aplicada da Johns Hopkins University. “Então sua presença significaria que ele só apareceu recentemente, seja por meio de impactos que o deixaram exposto ou... Bom, provavelmente essa é a única maneira”, comenta Rivkin. “Eu suponho que o criovulcanismo também pudesse leva-lo à superfície, mas impactos seriam a aposta mais segura”.  

Tudo o que realmente se sabe com certeza é que as manchas estão ficando cada vez mais brilhantes com a aproximação da Dawn, declara Mark Sykes, diretor do Instituto de Ciências Planetárias e cientista na missão da Dawn. E quanto mais brilhantes elas ficam, “mais interessantes se tornam”, porque o gelo de água é uma das coisas mais brilhantes que os pesquisadores poderiam ver em Ceres. “Seria espetacular descobrir algo como o criovulcanismo em Ceres, porque isso seria um indicativo de que existem reservatórios de água abaixo da sueprfície”, explica Sykes. “Não é isso que costumamos pensar sobre um asteroide, um aglomerado morto sendo atingida por seus vizinhos no espaço. Há muita coisa acontecendo nesse objeto, e isso poderia tornar Ceres muito importante para a astrobiologia”.

Se Ceres provar ser um possível lar para a vida extraterrestre e estiver lançando água no espaço, continua Sykes, “isso levanta a possibilidade de enviarmos outra sonda até lá no futuro próximo para descer até um desses locais, coletar solo, examiná-lo e perguntar se existem insetos mortos ali”. De acordo com Sykes, uma missão desse tipo seria relativamente barata, porque Ceres é muito próximo e acessível. “Ele fica entre Marte e Júpiter, não é um ambiente de radiação intensa como a lua Europa, não é tão distante quanto Encélado e tem pouca gravidade, então não precisamos de muita energia para pousar lá! É muito cedo para dizer se existe alguma coisa ali, mas a perspectiva é muito empolgante”.

A Dawn ainda está começando a investigar Ceres, e suas melhores imagens e dados científicos ainda não foram obtidos. A sonda chegará a 400 quilômetros da superfície do planeta para estudar sua composição e gerar mapas de alta resolução. Além disso, passará pelo menos os próximos 16 meses estudando Ceres, mas como o planeta anão poderia ser um lar para a vida subterrânea, a Dawn não se chocará contra ele ao fim de sua vida, como é o procedimento padrão. Em vez disso, ela permanecerá em órbita, transformando-se em uma longeva lua mecânica quando sua missão terminar.

Publicado por Scientific American em 2 de março de 2015.