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Sonda Opportunity: uma década de exploração

Desde a aterissagem da Spirit e da Opportunity nossa espécie explora a superfície marciana

Courtesy NASA/JPL-Caltech.
Concepção artística de sonda na superfície de Marte

Duas sondas lançadas em 2003 chegaram a Marte em janeiro de 2004. Cada sonda foi construída para ter a mobilidade e kit de ferramentas para funcionar como um geólogo robótico.
Por John L. Callas e SPACE.com

John L. Callas, do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, é o diretor de projetos da missão da Sonda de Exploração Marciana, que enviou as sondas gêmeas, Spirit e Opportunity, para o Planeta Vermelho em janeiro de 2004. (A Spirit tocou o solo marciano em 3 de janeiro, e a Opportunity pousou em 24 de janeiro, Horário do Pacífico). Ele escreveu este artigo para a SPACE.com.

Ninguém esperava que isso acontecesse. Ninguém esperava que após 10 anos, uma Sonda de Exploração Marciana continuaria a operar na superfície de Marte – muito além de sua missão original de 90 dias. Isso não fazia parte nem dos sonhos mais ousados das pessoas: uma sonda continuando a funcionar, e funcionando de maneira produtiva e eficaz.

Como isso foi acontecer? Nós podemos afirmar que rajadas inesperadas de vento removeram a poeira de seus paineis solares e mantiveram a energia da sonda. Nós podemos alegar que sua capacidade operacional permitiu que as sondas sobrevivessem aos gélidos e sombrios invernos marcianos. Nós podemos nos orgulhar de termos construído sondas fantásticas. Tudo isso é verdade. Mas será que isso realmente explica essa longevidade nunca imaginada e seu imenso sucesso científico? Seja qual for a explicação, essa é uma conquista grandiosa.

Desde a aterissagem da Spirit e da Opportunity em janeiro de 2004, nós, como espécie, mantivemos uma presença ativa – e uma exploração contínua – na superfície marciana durante 10 anos. E agora começamos a segunda década dessa exploração contínua. Será essa a primeira década do que será a presença contínua da humanidade em Marte?

As conquistas das sondas de exploração Mmarciana são impressionantes. Cada uma delas estabeleceu ambientes habitáveis onde água líquida – com pH neutro em alguns locais – persistiu ao longo de escalas geológicas de tempo. Indícios de águas ancestrais foram encontrados em várias partes da rota das sondas. Isso implica que no passado Marte se parecia com a Terra, com corpos d’água de escala quilométrica, temperaturas mais altas e uma atmosfera mais espessa. E, com fontes de energia hidrotérmica encontradas em alguns locais, essas descobertas sugerem um ambiente habitável em Marte na época em que a vida apareceu pela primeira vez na Terra.

É incrível que, apesar dessas descobertas, apesar dos anos de operação, apesar das dezenas de quilômetros percorridos, apesar das centenas de milhares de imagens, ainda há muita exploração pela frente. Ainda que o tempo tenha avançado, uma das sondas, a Opportunity, voltou no tempo, para a época mais antiga de Marte, para quando Marte era quente e úmido, e habitável. Esse período é a a Era Noaquiana [NOTA: A terminologia das eras geológicas de Marte costuma se basear nas regiões do planeta. No caso da Era Noaquiana, em inglês Noachian Age,  nome que se deve a uma região chamada de Noachis Terra.], e é ele que devemos estudar. É nele que poderemos encontrar indícios que Marte já sustentou vida em algum momento. Então, a Opportunity tem uma lista de tarefas para realizar enquanto ainda tivermos essa magnífica máquina conosco.

Isso não é nada fácil. Essa exploração é uma das coisas mais difíceis que a humanidade já fez. Precisamos de uma equipe incrível para lidar com os desafios que essas sondas enfrentam. Mas essa conquista demonstra do que pessoas dedicadas, motivadas, e altamente habilidosas são capazes. Ela representa a capacidade e a engenhosidade dos seres humanos. Ela representa nossa natureza de exploradores.

Na realidade, essas sondas nunca foram projetadas para a exploração que realizaram. Elas foram projetadas para um quilômetro de odometria, para operar durante o verão marciano, e para durarem apenas 90 dias. Mas, na prática, essas sondas cruzaram grandes planícies, escalaram montanhas distantes e penetraram cavernas profundas; sobreviveram a invernos gélidos e sombrios, e a tempestades de areia que circulam o planeta.  E mesmo com esses desafios e adversidades, essas máquinas continuaram explorando e descobrindo.

Mas mesmo com todo esse sucesso surgiram problemas, como sempre acontece. Componentes e atuadores pararam de funcionar. A roda frontal da Spirit falhou depois de dois anos. O braço robótico da Opportunity se tornou artrítico. Nós passamos por dias muito difíceis quando tempestades de areia chegavam, ou quando uma sonda ficava presa. Nós tivemos que dizer adeus à Spirit após muitos anos de exploração produtiva. E nesse tempo nós também tivemos que dizer adeus a alguns de nossos colegas na Terra, amigos queridos que nos lembravam que todos somos mortais, e que nossas máquinas, assim como nós, também são mortais.

Além das grandes descobertas científicas, essas sondas também nos deram algo grande, intangível, algo mais, algo especial. Nós amamos essas sondas; todos nós. Nós lhes demos qualidades humanas. Elas são talentosas, dedicadas, inteligentes, intrépidas, divertidas, e fofas pra caramba! Elas carregam nossos sonhos, nossas esperanças, nossas maiores aspirações para esse mundo alienígena. Elas nos carregam consigo para esses grandes lugares desconhecidos.

No curso dessa última década, por meio dessas sondas, nossa espécie foi trabalhar em Marte. Então, além de terráqueos, graças a essas sondas, nós também nos tornamos marcianos – temos dupla nacionalidade, por assim dizer. Agora nós vivemos em um mundo maior, um mundo que se estende além de nosso planeta natal. Essas sondas tornaram Marte parte de nossa vizinhança, de nosso quintal. E agora uma geração inteira cresceu junto com essas sondas, e foi inspirada por elas. E alguns dos filhos dessas sondas trabalham em Marte atualmente. Então, para pessoas de todo o mundo, a história das sondas se tornou sua própria história. 

Dez anos atrás, nossa espécie aterrissou em um mundo alienígena, com a tarefa de explorar o desconhecido durante 90 dias e procurar mundos habitáveis. Nós observamos um grande momento nessa missão – a conquista de 10 anos de operação e exploração contínuas da superfície de Marte. E, é claro, nós nos perguntamos durante quanto tempo essa incrível missão pode continuar. Em sentido mais amplo, porém, nós não podemos capturar tudo que essas missões realizaram. Essas duas sondas mudarão para sempre a visão que temos de nosso sistema solar, e de nós mesmos. Nós devemos continuar a grande missão de explorar. A partir da celebração desse sucesso, nós nos lembramos dessa empreitada. A descoberta e a exploração de nosso Universo avançarão muito além da Terra.

Os pontos de vista expressados são os do autor, e não necessariamente representam as opiniões do editor. Este artigo foi originalmente publicado em SPACE.com

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John L. Callas, diretor de projetos da missão da Sonda de Exploração Marciana da Nasa, examina a resistência das sondas, que vai muito além de sua missão original de 90 dias.