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Superioridade dos corredores olímpicos nascidos no Leste da África pode ter outras causas além do físico

Ao focar nos genes dos corredores e na adaptação ao clima, a ciência costuma negligenciar uma importante pista cultural

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A atleta etíope Tigst Tufa competirá na Maratona do Rio 2016

Quando a largada for dada na pista de corrida olímpica no Rio de Janeiro, existe pouca dúvida de quem estará na liderança. Na prova de 1.500 metros masculina, o primeiro colocado será Asbel Kiprop. Nos 5.000 metros femininos, Almaz Ayana correrá na frente, e provavelmente fará o mesmo nos 10.000 metros. Na maratona, Helah Kiprop liderará as mulheres enquanto Eliud Kipchoge puxará os homens. Nos 800 metros masculinos, David Rudisha manterá seu título e provavelmente quebrará seu próprio recorde mundial.  

Em outras palavras, a maior parte dessas corridas será dominada por corredores do, ou com raízes no, Leste da África — especialmente Quênia e Etiópia, com a Eritreia e alguns ugandeses também se destacando. Mo Farah, atualmente no topo do ranking dos 10.000 metros, nasceu na Somália e foi criado no Reino Unido, treinando agora nos EUA. Bernard Lagat, que recentemente ganhou a qualificação olímpica americana dos 5.000 metros (com 41 anos de idade) é um queniano-americano.  

Corredores do Leste africano dominam há duas décadas, desde que os quenianos começaram a correr em meados de 1990, seguidos pelos etíopes logo depois. Isso levou a uma grande procura por parte de antigas potências nas corridas de distância, como os EUA e o Reino Unido. Ainda assim, as razões dessa predominância ainda geram debates acalorados, e a ciência teve pouco a dizer sobre isso.

A teoria que reina no Ocidente é a de que corredores do Leste da África possuem alguma vantagem evolutiva sobre corredores de outros contextos. Como muitos corredores de elite vêm do grupo étnico Oromo, na Etiópia, e das tribos Kalenjin, no Quênia, acredita-se que esses grupos devam possuir adaptações ou ambientes que os tornem mais velozes. Talvez tenham sido seus pais e avós que, como pastores, passaram gerações correndo atrás do gado. Talvez seus ancestrais tenham praticado a  “caça persistente”, correndo atrás das presas até que elas se cansassem e se tornassem mais fáceis de matar. Talvez sejam suas pernas, mais finas e longas, ou a maior capacidade de seus pulmões, graças às altitudes relativamente elevadas. Em uma tentativa de encontrar respostas, pesquisadores coletaram DNA de pessoas da região. Yannis Pitsiladis, uma fisiologista esportiva e geneticista da Universidade de Brighton, na Inglaterra, contou recentemente ao The New York Times: “sabemos que os genes são importantes. Só não sabemos quais são eles.”

Garrett Ash, um fisiologista do exercício na Escola de Enfermagem de Yale que estudou corredores etíopes com Pitsiladis, concorda. “De acordo com meu trabalho, e com a literatura que estudei”, ele diz, “você não pode dizer que existe qualquer vantagem ancestral genética em ter nascido na Etiópia. É uma ascendência muito heterogênea. Dito isso, você precisa sim escolher seus pais e avós com cuidado. Existem certos variantes genéticos que são necessário para competir em nível de elite. Muitas vezes é uma interação gene-ambiente. Mas existe muito trabalho a ser feito para ver o que esses genes são de fato.”

Outro fator que vem sendo muito negligenciado, no entanto, é a “cultura de corrida” que se desenvolveu em lugares específicos entre a Etiópia e o Quênia. Um deles é a cidade etíope de Bekoji, objeto de estudo de um documentário de 2012 chamado Town of Runners. É uma cidade pobre e de montanha com cerca de 16.000 habitantes há algumas horas da capital, Addis Abeba. Nos últimos anos, a cidade produziu 10 medalhas de ouro olímpicas, 15 recordes mundiais e 34 medalhas de ouro em campeonatos mundiais, de acordo com o corredor britânico e escritor Declan Murray, cujo livro sobre Bekoji será publicado em 2017.

Essa é uma taxa de sucesso fenomenal, considerando que existem outras inúmeras cidades na região com contextos étnicos, formação genética, economia e ambientes similares — mas que não produziram um único corredor de elite. Então o que faz Bekoji ser o que é?

No centro do sucesso da cidade está um técnico chamado Sentayehu Eshetu, que vem nutrindo o talento para corrida local por mais de 30 anos.  Uma de suas primeiras estrelas foi Derartu Tulu, que ganhou a medalha de ouro nas Olimpíadas de Barcelona em 1992. Desde então, Sentayehu atraiu mais e mais corredores para seu programa. Todos os dias, às 6h da manhã, as colinas ao redor de Bekoji ficam cheias de centenas de jovens atletas que lá moram e que sonham em ser os próximos Tirunesh Dibaba ou Kenenisa Bekele (ambos de Bekoji). Os corredores de Sentayehu trouxeram para casa cinco medalhas olímpicas de Atenas em 2004, quatro de Pequim em 2008 e mais quatro de Londres em 2012.  

Como em muitos países, a cultura de corrida da Etiópia começou com um notável pioneiro, cujo sucesso pareceu criar uma safra de jovens que passaram a querer seguir seus passos. Na Etiópia, esse nome foi Adebe Bikila, que ainda é um herói de seu povo, por ter ganho a maratona das Olimpíadas de 1960 descalço. Mais recentemente, o sucesso de Haile Gebrselassie, em 1990, viu surgir um boom de corredores em sua cidade natal, Assella. Mas, desde então, o centro desse crescimento se moveu para Bekoji. “Quando você pergunta para pessoas por que eles se envolveram com a corrida, é porque eles viram essas pessoas na TV ou ouviram falar delas no rádio,” diz Malcolm Anderson, agente  de atletismo e fundador da Moyo Sports, uma agência de gestão com corredores do Quência, Etiópia e Reino Unido. “É o que o meus atletas me dizem. Existem muitos fatores envolvidos no que faz corredores de elite chegaram no nível que estão, mas um deles é ter um ídolo para seguir, e Bekoji é um lugar onde você vê isso fundamentalmente.”

“Asella e Bekoji são, historicamente, os exemplos mais extremos”  de focos de corredores, diz Richard Nerurkar, um ex maratonista de elite e organizador da Grande Corrida da Etiópia. Ele aponta que existem outros lugares onde é possível observar um fenômeno similar, e onde corredores não são do grupo étnico Oromo. “Gebregziabher Gebremariam (campeão mundial de Cross Country em 2009) é de Tigré, a província mais ao nordeste da Etiópia, e nos últimos cinco anos nós estamos vendo mais atletas de nível mundial vindo dessa província, incluindo Hagos Gebrhiwet e Atsedu Tsegay, e isso provavelmente continuará assim nos próximos anos.”

Essas fontes locais de talento, por sua vez, desaguam em uma corrente maior, feita de mais de 100 clubes de corrida registrados oficialmente, alguns com cerca de 500 atletas, e um número igualmente grande de clubes menos formais nas áreas rurais do país.

A cultura de corrida do Quênia começou de maneira mais notável com o pioneiro  Kipchoge “Kip” Keino, que ganhou a corrida de 1.500 metros na Cidade do México em 1968. Hoje, a cultura inclui grupos e campos de treinamento — muitos localizados na pequena cidade de Iten ou em seus arredores, onde professores estrangeiros chegaram para trabalhar no Colégio Saint Patrick em 1976. Esses professores incluíram Peter Foster, cujo irmão ganhou a medalha olímpica de bronze na corrida de 10.000 metros naquele mesmo ano, e Colm O’Connell, um jovem professor de geografia que herdou o programa de corrida de Foster nos anos 70. Logo seus corredores começaram a ganhar, e, dali em diante, ele treinou atletas como o campeão olímpico de 1988 na corrida de 1.500 metros, Peter Rono, e o campeão olímpico de 2012 nos 800 metros (e dono do recorde mundial atual), David Rudisha.  

Culturalmente, Iten e Bekoji funcionam de maneira parecida: atraindo um enorme conjunto de talento ao mesmo tempo que fomenta competição feroz e treinamento sério. Todos os dias, corredores vorazes e jovens chegam em Iten de vários cantos da região. Se eles forem sortudos — e rápidos — eles serão aceitos em um campo de treinamento. Se forem ainda mais sortudos, eles serão selecionados por um agente para treinar e correr no exterior. Mas quase todos verão alguns de seus colegas atletas ascenderem para nível mundial.  “Eu perdi a conta de quantos atletas responderam minha pergunta ‘Por que você começou a correr?’ dizendo que tinham ouvido no rádio Haile Gebrselassie ganhando ou porque tinham ‘simplesmente decidido começar’”, diz Michael Crawley, um aluno PhD da Universidade de Edimburgo, onde estuda a relação entre corrida de longa distância e desenvolvimento na Etiópia.

Mas mais importante do que corredores famosos do Quênia ou da Etiópia são os corredores que eles conhecem. Como um técnico explicou para Crawley, para que um corredor obtenha sucesso, ele ou ela precisam de uma “pessoa imaginária” ou “exemplo” para oferecer esperança.

Conhecer alguém que faz algo é sempre mais poderoso do que saber que alguém faz algo. Esse é, provavelmente, um fator significativo no alto número de corredores de elite em Bekoji e Iten. Em um contexto bem diferente, é um fenômeno identificado pela Universidade de Texas, no trabalho das sociólogas Catherine Riegle-Crumb e Chelsea Moore, em 2014. O estudo observou 20.000 alunos de ensino médio dos EUA e buscava investigar a falta de mulheres no campo da física. Elas descobriram que “à medida que a porcentagem de mulheres empregadas [localmente] em cargos de ciência, tecnologia, engenharia e matemática cresce, as chances de meninas escolherem física, comparadas a meninos, também cresce. Em outras palavras, escolas em comunidades com maior porcentagem de mulheres nesses campos possuem uma desvantagem menor no que diz respeito à mulheres cursando física.”  

Aprender de um modelo é uma forma de “aprendizado social,” (ou, em casos imediatos, “aprendizado observacional”) de acordo com o antropólogo de Harvard, Joe Henrich, autor de The Secret to Our Success. Henrich é um dos coautores da teoria de evolução por “nicho cultural”  (com Robert Boyd e Peter Richerson), que argumenta que o aprendizado social é a força mais poderosa na evolução humana. Ele permite que o conhecimento técnico seja transmitido entre gerações sem que precise ser aprendido de novo a todo momento. Indivíduos que coletam esse conhecimento são recompensados com uma forma de status conhecido como “prestígio”, que é desconhecido em outras espécies (onde “dominância” é a única forma de status). Aqueles que possuem prestígio são aqueles com quem desejamos aprender.

Por muitas gerações, o conhecimento sobre treinamento atlético tem se acumulado nas terras do Quênia. Em meados do século 20, membros da tribo Kalenjin adotaram atletas britânicos, enquanto outras tribos não o fizeram, escrevem John Bale e Joe Sang no livro Kenyan Running: Movement Culture, Geography and Global Change. Por exemplo, Kip Keino escolheu uma trilha rústica quando jovem e “manteve registros quantitativos de seu progresso desde os 15 anos, quando seu melhor tempo por milha foi de cinco minutos e 49 segundos.” Sete anos depois, ele fez sua primeira aparição internacional em 1965, aos 22 anos, nos Jogos da Commonwealth Games, na Austrália. Quatro anos depois disso, ele ganhou a corrida dos 1.500 metros nas Olimpíadas de 1968 e levou a prata nos 5.000 metros.

Pode ser que haja alguma vantagem genética em ser de Kalejin. Mas o fato de a maior parte dos grandes corredores do Quênia virem de uma das tribos de Kalejin pode ter uma explicação cultural também, de acordo com Benoit Gaudin do Departamento de Ciências Esportivas da Universidade de Addis Abeba. Um de seus projetos de pesquisa envolve entrevistar corredores de elite que não são de Kalejin e perguntar para eles como chegaram onde estão. Eles descobriram que achar acomodação e fazer parte de um campo de treinamento é bem mais difícil se você não é de Kalenjin.

Aqueles que foram bem-sucedidos conseguiram se tornando de Kalenjin. “Ou eles aprendem a linguagem ou casam com uma garota local ou possuem suporte dentro da comunidade de corrida, e alguém os ajuda. De outro jeito é muito difícil, porque eles têm sua própria linguagem mesmo dentro do grupo Kalenjin. Por exemplo, você pode treinar com eles hoje, mas não sabe se o próximo treino é amanhã, porque quando chega a hora de fornecer essa informação essencial, eles trocam a linguagem. Se eles quiserem fechar o negócio, eles podem fazer isso muito facilmente. Eles estão protegendo seu nicho. E isso é muito interessante, porque é etnicidade, mas não tem anda a ver com genética.”

Até a data, essas explicações para a predominância dos leste africanos na corrida têm sido amplamente ignoradas. Podem sim haver fatores ambientais e fisiológicos fundamentais, como dieta e altitude ou viagem à pé quando crianças. Mas a história oferece um aviso contra exagerar esses fatores. Como notam Bale e Sang, quando atletas finlandeses predominaram no cenário da corrida nos anos 30 e 40, várias teorias sobre a “energia climática” e sobre a vasta região selvagem onde viviam —“como animais na floresta”— foram traçadas para explicar esse sucesso. Então, quando procuramos explicar nossas perdas, devemos levar em consideração que o Quênia e a Etiópia podem não ficar para sempre no topo e essas sementes da vitória podem ser plantadas em outro lugar. Afinal, como O’Connell— que dirigiu o programa de corrida no Iten — disse a David Epstein, autor do livro A Genética do Esporte - Como a Biologia Determina a Alta Performance Esportiva, “Os genes não foram embora na Finlândia, a cultura foi.”

 

Frank Bures

 


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