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Talento demais atrapalha

Novas descobertas na área de esportes sugerem implicações em negócios e outros campos

Thinkstock
Todos juntos agora.
Por Cindi May

Tanto faz se você é dono do Dallas Cowboys [time de futebol americano profissional] ou capitão da equipe de “queimada” no playground, o objetivo na hora de escalar os jogadores é o mesmo: reunir os melhores talentos.

Corações foram partidos, alianças testadas, e orçamentos estourados na competição interequipes pelos melhores atletas.

A motivação para recrutar os melhores entre os melhores é óbvia: jogadores excepcionais são a chave para o sucesso de equipes, e essa convicção não é compartilhada apenas por treinadores e fãs de esportes, mas também por empresas, investidores e até indústrias inteiras.

Todo mundo quer um time de estrelas.

Inegavelmente, jogadores extraordinários, como Emmitt Smith [ex-astro do futebol americano na Liga Nacional, NFL], acrescem pontos ao placar e aumentam o sucesso de uma equipe.

Mas uma nova pesquisa realizada por Roderick Swaab da INSEAD Business School e seus colegas sugere que há um limite para o benefício que esses talentos trazem para um time.

Swaab e colegas compararam o nível de talento individual em equipes com o sucesso delas mesmas, e encontraram exemplos notáveis de que mais talento prejudica o time.

Os pesquisadores analisaram três esportes: basquete, futebol e beisebol.

Em cada modalidade, eles calcularam tanto a porcentagem de talentos extraordinários em cada equipe como o sucesso delas ao longo de vários anos.

Eles identificaram, por exemplo, os melhores talentos da NBA utilizando os Estimated Wins Added (EWA), as prováveis vitórias acrescidas por cada jogador, uma estatística comumente empregada para sintetizar a contribuição geral de um atleta para seu time, juntamente com uma seleção para o torneio All-star.

Assim que os pesquisadores determinaram quais eram os jogadores de elite, eles calcularam a porcentagem dos talentos supremos na equipe ao dividir o número de jogadores excepcionais pelo número total de jogadores na equipe.

Por fim, o desempenho do time foi medido por seu registro de perdas e vitórias ao longo de 10 anos.

Em basquete e futebol, foi constatado que os grandes talentos de fato deixavam prever um sucesso do time, mas só até certo ponto.

Além disso, não havia simplesmente retornos decrescentes em relação ao supertalento; havia, de fato, um custo.

Equipes de basquete e futebol com as maiores proporções de atletas de elite tiveram um desempenho pior que as que tinham proporções mais moderadas de jogadores de alto nível.

Por que talento demasiado é uma coisa ruim?

Pense em trabalho em equipe.

Em muitos empreendimentos, sucesso requer colaboração, trabalho cooperativo para uma meta que está além da capacidade de qualquer pessoa individual.

Mesmo Emmitt Smith precisava do bloqueio eficaz da linha ofensiva dos Cowboys para ganhar espaço. Quando a escalação de uma equipe está cheia de talentos individuais, a busca de status pessoal de estrela pode atrapalhar ou impedir a conquista dos objetivos do grupo.

O jogador de basquete que vai atrás de um recorde de pontos, por exemplo, pode prejudicar o time ao arriscar jogadas duvidosas em vez de passar a bola para um companheiro que está livre e pronto para marcar uma cesta.

Duas conclusões relacionadas alcançadas por Swaab e seus colegas indicam que de fato há uma espécie de troca entre talentos supremos e trabalho em equipe.

Primeiro, Swaab e sua equipe constataram que a porcentagem de astros, ou supertalentos em uma equipe afeta a coordenação interna do grupo.

Para o estudo de basquete, as equipes com os níveis mais elevados de talentos excepcionais tiveram menos jogadas de assistência e rebotes defensivos, e porcentagens menores de cestas de meio de quadra.

Essas falhas em um jogo estratégico e colaborativo minaram a eficiência da equipe.

A segunda constatação reveladora foi que níveis extremos de grandes talentos não tiveram o mesmo efeito negativo no beisebol que, de acordo com argumentações de especialistas, envolve jogadas muito menos interdependentes.

No estudo de beisebol, números crescentes de astros em uma equipe nunca atrapalharam o desempenho geral do grupo.

Juntos, esses resultados sugerem que altos níveis de supertalentos serão prejudiciais em arenas, ou quadras, que exijam esforços estratégicos, coordenados, uma vez que a busca pela luz dos holofotes, pelo destaque individual, pode superar o trabalho em equipe necessário para conquistar a vitória.

Essas lições se estendem além de uma quadra, ou de campo de bola para qualquer grupo ou empreendimento que precisa equilibrar esforços competitivos e colaborativos, incluindo aqui equipes corporativas, grupos de pesquisa financeiros, e exercícios de brainstorming, a troca de grandes ideias.

De fato, o impacto de um excesso de talento é óbvio até em outros animais. Quando galinheiros têm um excesso de galinhas dominantes, de alta produtividade, conflitos e taxa de mortalidade aumentam, enquanto a produção de ovos cai.

Portanto, antes de “quebrar a banca”, ou exaurir todos os recursos, para recrutar superastros, proprietários de times e equipes, e especialistas da indústria, talvez queiram considerar se o objetivo que estão tentando alcançar depende só de talento individual, ou de uma sinergia cooperativa da equipe.

Nesse último caso, seria prudente frear o talento e focar no trabalho em equipe.

Sobre a autora: Cindi May é professora de psicologia na College of Charleston. Ela explora mecanismos para aperfeiçoar a função cognitiva em estudantes universitários, adultos mais idosos e pessoas com deficiências intelectuais. Ela também é diretora de um projeto que tem uma verba TPSID [sigla, em inglês para Programas de Transição e Pós-Secundários para Estudantes com Deficiências Intelectuais] do Departamento de Educação, que promove a inclusão de alunos com deficiências intelectuais em educação de nível superior.

Publicado em Scientific American em 14 de outubro de 2014.