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Tecnologia que promete reduzir população de Aedes aegypti espera aprovação da ANVISA há 3 anos

Fábrica construída no Brasil por empresa britânica de biotecnologia produz mosquitos que não geram prole fértil

Muhammad Mahdi Karim/Wikimedia Commons
O Brasil abriga uma das mais modernas instalações de biotecnologia do mundo - mas ela ainda opera de forma experimental, à espera do licenciamento. Localizada em Piracicaba (SP), a fábrica consumiu US$ 7 milhões em investimentos da Oxitec, uma empresa britânica de biotecnologia, e destina-se à produção de mosquitos da espécie Aedes aegypti geneticamente modificados para não gerarem descendentes férteis. A tecnologia já foi usada experimentalmente por aqui nos estados de São Paulo e da Bahia para reduzir a população do mosquito, propagador de doenças como a dengue e a zika. Os testes foram autorizados pela Comissão Técnica Nacional de Biosegurança, órgão consultivo do MCTIC responsável pela formulação das políticas de biossegurança relativas aos organismos geneticamente modificados.

Embora os testes tenham sido bem-sucedidos - em alguns casos, chegando a reduzir em até 99% a população do mosquito selvagem -, o processo regulatório está na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) há três anos. Esta semana, Tom Bostick, vice-presidente da companhia norte-americana Intrexon, que é proprietária da Oxitec, esteve no Brasil para participar de um fórum sobre investimento estrangeiro e deu uma entrevista a Scientific American Brasil sobre as perspectivas para que a tecnologia venha a ser empregada no Brasil. Na conversa, ele revelou que até já ofereceu ao governo brasileiro a possibilidade de adquirir a fábrica e, com ela, a tecnologia. A seguir, veja uma seleção de tópicos abordados na conversa.

Sobre as perspectivas de aprovação pela ANVISA:

“Eu conversei com o ministro [da Saúde] [Ricardo] Barros antes do Fórum e uma das coisas de que falamos foi sobre a Anvisa. Nós estamos trabalhando com a Anvisa há três anos e ainda não temos a aprovação para comercializar nossos produtos. Trabalhamos com comunidades como Piracicaba para fazer o melhor que podemos para somar forças com elas.

Claro que somos uma empresa pública [isto é, de capital aberto] e possuímos acionistas, mas continuamos fazendo trabalho para comunidades que realmente precisam - e uma companhia pública não consegue sobreviver assim, tendo [tais] perdas. Portanto, estamos esperançosos de que as declarações feitas pelo ministro serão transmitidas de maneira a nos dar uma rápida aprovação da Anvisa, ou uma decisão de nos aprovar de outra forma.”

Sobre o processo de transferência tecnológica:

“Quando conversei com algumas pessoas da FioCruz [Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro], falamos sobre a habilidade deles para pegar essa tecnologia e utilizá-la da maneira que quiserem. Eles podem expandi-la por todo o Brasil. Na verdade, nós até venderíamos a fábrica ao país por preço de custo, para que eles pudessem usar essa tecnologia. Não conversamos sobre exportar para outros países da América Latina, mas podemos falar sobre isso. A idéia era se transferiríamos a tecnologia para [que pudesse ser usada para] abordar outro tipo de mosquito, mas não discutimos isso - e não acho que, agora, eles tenham a capacidade necessária para fazer isso.

O Brasil é um país brilhante, muito inteligente. Imagino que vocês poderiam utilizar engenharia reversa e descobrir como a tecnologia funciona. Contudo, dado tudo aquilo que possuímos no laboratório, nós fizemos a oferta - e eu disse isso ao ministro - de vender a fábrica, hoje, a preço de custo, se eles quisessem. Certamente investimos bastante, então precisaríamos ver quais foram esses investimentos.

Porém, é uma questão complicada. Não é apenas transferir a tecnologia dessa mosquito e, então, conseguir utilizá-la contra, digamos, a malária. Bill Gates tem tentado enfrentar o mosquito da malária e nós gostaríamos de enfrentar a malária. Temos as pessoas mais inteligentes do mundo trabalhando nisso e ainda não há solução. Portanto, sim: na teoria, a tecnologia pode ser usada para combater outros tipos de pragas, mas a realidade é que esse é um trabalho bastante desafiador. Com tempo, acredito que seja possível

Contudo, gostaríamos de ver o Brasil liderando nesse sentido. E, sabe, a fábrica é de categoria mundial - não existe nada como ela no mundo. Então, em muitos aspectos, o Brasil está liderando.”

Sobre o processo brasileiro para aprovação de biotecnologia transgênica:

“A CTNBIO aprovou nosso lançamento por todo o nosso país. Nós podemos fazer o lançamento em qualquer lugar do Brasil e conduzir o mesmo tipo de trabalho que estamos fazendo em Piracicaba. Do nosso ponto de vista, isso nos dá, de muitas formas, a autoridade para comercializar.

O que me surpreende aqui é que, dadas todas as crises e preocupações as quais, francamente, outros países não possuem, as coisas não estejam se movendo com maior rapidez. Todos estão olhando para o Brasil em relação ao zika. Algumas pessoas estão tomando a decisão de não viajar para o país, então o turismo foi impactado, a assistência médica foi impactada. Nós estamos matando os mosquitos aqui. Quem não quer fazer isso? Ninguém está utilizando o mosquito, a sua prole morre, tudo é seguro para o meio ambiente e não há impactos em humanos ou animais… E talvez esse assunto nem pertença à Anvisa, mas sim à CTNBIO.”

Pablo Nogueira
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