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Tentando salvar os diabos-da-tasmânia

Sequenciamento do genoma desses animais sugere novo tratamento contra o câncer contagioso

Katherine Harmon
Stephan Schuster/Penn State University
O tratador e criador Tim Faulkner com um diabo-da-tasmânia
O diabo-da-tasmânia (Sarcophilus harrisii) vem sendo atacado por um câncer altamente contagioso que tem encurralado a espécie, levando-a cada vez mais perto da extinção. Nos últimos 15 anos, o tumor facial do diabo-da-tasmânia se espalhou por toda a ilha da Tasmânia, na Austrália, matando a maioria dos animais contagiados.

Em uma ação para ajudar a salvar o maior marsupial carnívoro existente, os conservacionistas recolheram espécimes para preservar em cativeiro até a doença deixar de existir. Mas esse último recurso pode acabar restringindo o patrimônio genético de uma espécie que já tem diversidade genética limitada.

Para orientar melhor essas ações protecionistas – e ajudar a desvendar o comportamento desse câncer curioso – uma equipe de cientistas sequenciou o genoma do animal e de seus tumores. As descobertas foram publicadas on-line em 27 de junho no Proceedings of the National Academy of Sciences, e mais detalhes sobre o genoma estão disponíveis no The Tasmanian Devil Genome Project.

Não é fácil comparar o genoma do diabo-da-tasmânia com o de outros marsupiais, pois está um pouco distante de seus primos já sequenciados, o gambá e o wallaby, na árvore filogenética.

A equipe sequenciou o genoma completo de dois diabos: Cedric, um macho nascido em cativeiro, cujos pais eram do noroeste, e Spirit, uma fêmea selvagem, do sudeste. Como eram oriundos de dois extremos opostos da gama de diabos-da-tasmânia, os pesquisadores acharam que deveriam exibir uma boa faixa da atual diversidade genética da espécie. Por isso, seria útil ter dois espécimes para uma avaliação comparativa. Dessa forma, os cientistas descobriram que eles compartilham cerca de 47% de sua variabilidade genética; especificamente têm em comum muitos dos chamados polimorfismos de nucleotídeo único, mutações genéticas, com frequência, utilizadas para avaliar o nível de relação entre os animais. Os pesquisadores enfatizaram que esses dois animais são quase duas vezes mais semelhantes geneticamente que a comparação entre pessoas do Japão e da China. O genoma do animal tem cerca de 300 milhões de pares de base a mais que o do ser humano (3,3 bilhões contra cerca de 3 bilhões, respectivamente), o que poderá ajudar os pesquisadores a descobrir os segredos da rara imunidade a esse câncer.

Ao contrário da maioria dos outros tipos de câncer conhecidos de seres humanos e de mamíferos, o tumor facial se espalha de um indivíduo a outro por contato físico: uma mordida ou mesmo um toque casual. “Imagine um câncer que se espalhe com um aperto de mão", sugeriu o coautor Stephan Schuster, professor de bioquímica e biologia molecular da Pennsylvania State University acrescentou que um câncer tão fácil de disseminar “erradicaria a nossa espécie muito rapidamente”.
Spirit tinha cinco tumores – um dos quais foi sequenciado –, que acabou matando-a. Porém, Cedric, mostrou resistência a duas cepas diferentes da doença (embora mais tarde ele tenha sido infectado e morto por uma terceira).

Cerca de 70% do DNA do núcleo de células cancerosas de Spirit não se alinharam com o próprio, reforçando as observações anteriores de que o câncer é transferido diretamente de um indivíduo diferente. A identificação de mudanças genéticas específicas do câncer (o presente estudo já encontrou 128 variantes de aminoácidos) poderia ajudar a encontrar tratamentos para a doença mortal.

Enquanto isso, aos interessados em salvar a espécie só resta contar com a reprodução em cativeiro. Porém, um programa de preservação eficaz em cativeiro não é “apenas uma questão de coletar alguns espécimes de forma aleatória”, declarou o coautor do estudo, professor de engenharia, de ciências da computação e de biologia da Penn State, Webb Miller. Usando os perfis genéticos de animais em potencial, os criadores conseguirão reunir uma população com nível conhecido de diversidade genética. “Queremos desenvolver um patrimônio de espécimes diversos e saudáveis que possam combater doenças futuras ou mesmo agentes patogênicos que ainda não evoluíram”, Schuster explica.

As informações genômicas, e os novos perfis genéticos de 87 indivíduos selvagens, ajudaram os pesquisadores a esboçar grupos populacionais distintos na ilha, oferecendo um roteiro para monitorar as populações cativas geneticamente robustas. A coleta deveria vir de sete áreas populacionais da ilha, inclusive nas que a doença já é endêmica. “Pode parecer que seria melhor escolherem apenas os indivíduos geneticamente resistentes ao tumor facial”, Schuster explicou. “No entanto isso iria contra o objetivo de manter a diversidade genética porque, por definição, você estaria selecionando um pequeno subconjunto de patrimônio genético. Em vez disso, nosso modelo sugere uma abordagem mais equilibrada. Não adianta apagar apenas pequeno incêndio.”

Para o diabo-da-tasmânia, a ajuda ainda pode demorar. Pesquisadores estimam que o câncer se espalhará a todas as populações selvagens do animal até 2016, “tornando a extinção iminente uma possibilidade real”.