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Memórias ruins podem ser reconfiguradas durante o sono

Atenuar medos durante o sono pode ajudar a aliviar a ansiedade quando se está acordado

 

Svitlana-ua/shutterstock
Descansar é preciso: De acordo com um estudo publicado na revista Nature Neuroscience, o treinamento orientado do cérebro durante o sono pode atenuar os efeitos de memórias assustadoras, ajudando no tratamento de transtornos psiquiátricos, fobias e transtornos de estresse pós-traumático.
Por Helen Shen e revista Nature

Esqueça o divã do psiquiatra. Algum dia, sua própria cama poderia ser um cenário de psicoterapia.

O treinamento orientado do cérebro durante o sono pode diminuir os efeitos de memórias assustadoras, de acordo com um estudo publicado em 22 de setembro na revista Nature Neuroscience. Os pesquisadores dizem que a técnica poderia ser utilizada para tratar de distúrbios psiquiátricos como fobias e transtornos de estresse pós-traumático.

Atualmente, essas condições frequentemente são tratadas por meio da “terapia de exposição”, que obriga os pacientes a reviverem propositalmente seus temores. Com exposições repetidas na segurança do consultório de um terapeuta, os pacientes podem aprender a reduzir as suas respostas a estímulos traumáticos, o que sugere que as memórias estão sendo alteradas.

Para alguns pacientes, porém, esse método de tratamento pode ser intoleravelmente doloroso, especialmente no início.

No mais recente estudo, a neurocientista Katherina Hauner e seus colegas da Feinberg School of Medicine da Northwestern University em Chicago, Illinois, desenvolveram uma forma de terapia de exposição que funciona enquanto as pessoas cochilam.

“É fascinante e muito promissor”, diz Daniela Schiller, neurocientista da Mount Sinai School of Medicine em Nova York.“ Acreditávamos que era preciso estar vigilante e ter uma compreensão consciente das respostas emocionais para mudá-las”.

Replay instantâneo 

Para criar memórias assustadoras, a equipe de Hauner aplicou leves choques elétricos nos participantes do estudo enquanto eles olhavam imagens de rostos associadas a um odor distinto, como limão ou hortelã. As pessoas começavam a suar ligeiramente ao ver as fotos e sentir os aromas antecipando que levariam um choque.

Pouco depois desse condicionamento os participantes cochilavam no laboratório enquanto os pesquisadores monitoravam suas ondas cerebrais com eletrodos colocados em seus couros cabeludos.

Quando os voluntários entravam no chamado sono de ondas lentas (SWS, na sigla em inglês), uma fase em que as memórias recentes são repetidas e reforçadas, a equipe produzia um dos odores ligados ao medo. Ao administrarem o aroma em intervalos de 30 segundos, os pesquisadores tentaram evocar a memória dos rostos correspondentes reiteradas vezes, mas sem aplicar os choques elétricos. Exatamente como quando estavam acordadas, as pessoas transpiravam mais quando expostas ao odor, mas essa reação cessou gradualmente.

A redução do efeito persistiu após o sono. Quando acordadas, as pessoas manifestaram respostas de medo atenuadas quando expostas à combinação de odor e rosto que havia sido acionada repetidamente durante o sono.

Mudanças de atividade na amígdala, uma região do cérebro envolvida em emoções e medos, sugerem que o tratamento não apagou a memória assustadora, mas criou associações novas e inócuas com a combinação de odor-rosto. As pessoas que dormiram mais e receberam um tratamento mais longo se beneficiaram mais do procedimento.

“É realmente paradoxal”, diz Jan Born, um neurocientista da Universidade de Tübingen, na Alemanha, observando que o replay espontâneo de memórias durante o sono em geral é considerado como algo que fortalece e não que enfraquece o aprendizado.

Hauner explica que a reiterada ativação de uma única memória assustadora durante o sono provavelmente funciona mais como uma terapia de exposição real e menos como um replay natural de memórias, em que as lembranças são desencadeadas a esmo quando se dorme. São necessários mais estudos para determinar quanto tempo o tratamento dura e se o sono durante a noite pode afetá-lo, observa ela.

Quanto à utilização terapêutica da técnica, Hauner lembra que as memórias traumáticas reais, especialmente as muito antigas, podem ser muito mais difíceis de tratar que os cenários simples produzidos no laboratório. “Esta é uma área muito nova”, diz ela. “Acredito que o processo precisa ser refinado”. 

Este artigo foi reproduzido com a permissão da revista Nature. O artigo foi publicado originalmente no dia 22 de setembro de 2013.