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Tomates fazem lagartas se transformarem em canibais

Quando atacada por praga, planta produz substâncias químicas que mudam comportamento de insetos

Oregon State University/Flickr
Não é incomum que pragas de insetos comam umas às outras, bem como aos vegetais dos quais se alimentam, mas uma pesquisa mostra que tomates podem se juntar e fazer com que as lagartas que as atacam se tornem canibais.

“Esse é um novo mecanismo ecológico de resistência induzida que muda efetivamente o comportamento dos insetos”, diz Richard Karban, que estuda as interações entre herbívoros e suas plantas hospedeiras na Universidade da Califórnia em Davis e que não esteve envolvido na pesquisa.

Pragas herbívoras frequentemente viram-se umas contra as outras quando o alimento que disputam acaba ou é de má qualidade. E algumas plantas são conhecidas por afetarem o comportamento dos insetos que as atacam, tornado-os mais predatórios em relação a outras espécies. Porém, até agora não estava claro se as plantas poderiam causar diretamente o canibalismo em lagartas.

O biólogo John Orrock e seus colegas da Universidade de Wisconsin em Madison desencadearam uma reação defensiva em plantações de tomate (Solanum lycopersicum) expondo-as a várias quantidades de metil jasmonato (MeJA). Este é um produto químico que plantas soltam no ar para alertar umas às outras sobre o perigo de pragas. Quando tratadas com MeJA, plantas de tomate respondem produzindo toxinas que as tornam menos nutritivas para os insetos.

Então, os pesquisadores deixaram que lagartas de uma praga comum, a pequena traça de salgueiro (Spodoptera exigua), atacassem a cultura. Oito dias depois, observaram que as plantas mais tratadas com MeJA haviam perdido menos biomassa comparadas com as plantas de controle ou com as que receberam uma indução mais fraca da substância. Isso mostrou que a reação foi, de alguma forma, efetiva na proteção das plantas.

Gatilho de canibalismo

Em seguida, a equipe queria testar se a resposta das plantas estava desencadeando um comportamento “antropofágico” nas lagartas. Então, trataram plantas de tomate com MeJA e depois deram folhas de plantas com a substância química, e folhas de plantas controle sem o componente, para lagartas em recipientes onde foram colocados também um número definido de lagartas mortas. Dois dias depois, a equipe observou que as lagartas alimentadas com folhas das plantas tratadas com MeJA voltaram-se para as larvas mortas e comeram mais delas do que aquelas alimentadas com folhas das plantas de controle. Os resultados estão publicados na Nature Ecology & Evolution.

As lagartas sempre comeram umas às outras eventualmente, mas a diferença de tempo é crítica, diz Orrock. “Se as plantas puderem induzir as pragas a se alimentarem umas das outras mais cedo, haverá mais plantas intocadas”, diz. Contudo, ele também alerta que o custo para a planta ativar suas defesas é bastante alto. “É bem possível que as plantas busquem um equilíbrio, e avaliem se um ataque é sério o bastante para ativar suas defesas.”

Anurag Agrawal, que estuda interações entre plantas e animais na Universidade Cornell em Ithaca, Nova Iorque, diz que a pesquisa sugere que fazendeiros poderiam promover o canibalismo como uma estratégia de controle de pestes. “No entanto, em algumas condições de campo, canibais podem se adaptar melhor ao ambiente do que não-canibais. Portanto, isso é algo para se levar em conta”, ele acrescentou. “Não queremos encorajar super pragas.”

Laura Castells, Nature

Este artigo é reproduzido com permissão e foi publicado originalmente no dia 10 de julho de 2017.
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