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Tratamento de esgotos falha na remoção de fármacos

Estações só conseguem remover metade de componentes de medicamentos e outros contaminantes 

Doc Searls/Wikimedia Commons
Usinas de tratamento de águas residuais: Aproximadamente 1.400 estações de tratamento de águas residuais nos Estados Unidos e no Canadá lançam diariamente 18,16 bilhões de litros de efluentes tratados na bacia dos Grandes Lagos.
 

Por Brian Bienkowski e Environmental Health News 

Essa foi a conclusão de um novo relatório da International Joint Commission (IJC, na sigla em inglês), um consórcio de autoridades dos Estados Unidos e do Canadá que estuda as águas dos Grandes Lagos situados entre os dois países.

Embora o impacto da maioria dessas “substâncias químicas de interesse emergente” na saúde humana e na vida aquática permaneça obscuro, o estudo concluiu que é necessário aprimorar o tratamento da água.

“Os compostos químicos aparecem em níveis baixos, em partes por bilhão ou partes por trilhão, mas as pessoas e a vida aquática não são expostas a apenas um composto de cada vez e sim a uma mistura de diversas substâncias”, explicou Antonette Arvai, cientista física da Joint Commission International e principal autora do estudo. “Precisamos descobrir quais dessas substâncias podem nos prejudicar”.

De acordo com a pesquisa, mais de 1.400 estações de tratamento de águas residuais nos Estados Unidos e no Canadá lançam diariamente 18,16 bilhões de litros de efluentes tratados na bacia dos Grandes Lagos.

Os cientistas revisaram 10 anos de dados de usinas de tratamento de esgotos em todo o mundo para determinar com que eficiência elas removiam 42 compostos que estão aparecendo com frequência cada vez maior nos Grandes Lagos.

Seis dessas substâncias detectadas apresentaram um baixo índice de remoção em efluentes tratados: um herbicida, um medicamento anticonvulsivo, dois antibióticos, um remédio antibacteriano e um antiinflamatório.

Traços de cafeína, paracetamol e estriol (um estrogênio natural) também foram encontrados com frequência em esgotos, mas tiveram altos índices de remoção. 

As estações de tratamento apresentaram uma baixa taxa de remoção (com menos de 25% de chance de remover 75% ou mais) para 11 das 42 substâncias químicas.

“A maior parte das evidências sugere que pelo menos metade das 42 substâncias examinadas no presente estudo provavelmente é removida em estações de tratamento de águas residuais municipais”, escreveram os autores.

Pesquisas anteriores associaram outros fármacos encontrados em peixes a reações mais lentas a predadores, hábitos alimentares alterados e ansiedade.

O triclosan (ou triclosano), um composto antibacteriano e antifúngico encontrado em alguns sabonetes, dentifrícios e outros produtos de consumo, provou ser altamente tóxico para algas e pode agir como um disruptor hormonalem peixes. Deacordo com o novo estudo, o triclosan foi encontrado com frequência e as plantas apresentaram uma “eficiência de remoção média”.

Além disso, o antiinflamatório diclofenaco se acumula em elevadas concentrações em peixes (um processo chamado bioacumulação), mas seu impacto ainda não está claro, informou Diana Aga, uma professora de química e pesquisadora da University of Buffalo que estuda substâncias químicas emergentes nos Grandes Lagos.

Aga acrescentou que, mesmo sem conhecer precisamente os impactos, a consistência com que antibióticos aparecem em efluentes é preocupante.

“Mesmo em níveis baixos não é bom que as pessoas ingiram regularmente antibióticos, porque isso criará uma resistência a eles”, explicou.

A detecção de substâncias químicas em efluentes de águas residuais não significa necessariamente que elas serão encontradas em água potável; embora alguns estudos tenham encontrado traços de medicamentos controlados em água potável a níveis de partes por trilhão. Um estudo federal de 74 vias aquáticas utilizadas para água potável em 25 estados americanos constatou que 53 continham traços de um ou mais fármacos. 

Atualmente não existem normas federais que regulamentam a presença de produtos farmacêuticos em águas residuais ou na água potável, embora 12 substâncias já constem da lista da Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) de produtos químicos que devem ser considerados na determinação dos padrões para a água potável.

A maioria dos pesquisadores esperava que os enormes lagos diluíssem substâncias farmacêuticas rapidamente, mas um estudo realizado neste verão americano detectou os fármacos que estão contaminando o lago Michigan a3,2 kmdas desembocaduras dos esgotos de Milwaukee.

É importante não culpar diretamente as estações de tratamento de águas residuais, frisou Michael Murray, um cientista do Centro Regional dos Grandes Lagos da National Wildlife Federation, que faz parte do conselho do IJC.

“Elas não foram projetadas para lidar com esses tipos de substâncias químicas”, argumentou Murray, acrescentando que “a maioria dos municípios da região dos Grandes Lagos está com orçamentos apertados, fazendo apenas o que podem para atender às exigências”. 

A maioria das usinas de tratamento utiliza o processo do lodo ativado, que emprega bactérias para decompor sólidos provenientes de águas residuais. Como as substâncias químicas chegam às usinas em níveis muito baixos, muitas são desagregadas prontamente, declarou Allison Fore, porta-voz do Metropolitan Water Reclamation District of Greater Chicago (Distrito Metropolitano de Recuperação de Água da Grande Chicago, MWRD).

Tecnologias mais recentes, como a ozonização ou filtros de carbono, também são eficientes na remoção de substâncias farmacêuticas e outros produtos químicos novos, mas são caros, argumentou Arvai.

Este artigo foi divulgado originalmente no site Environmental Health News,uma fonte de notícias publicada pela Environmental Health Sciences, uma empresa de mídia sem fins lucrativos.