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Tecnologia móvel de saúde carece de rigor, conclui avaliação

Apesar dos resultados pouco confiáveis da maioria, há aplicativos úteis para tratamento de aids e diabetes

Lucas Laursen
Flickr/The Reboot
Mensagens SMS na África fornecem lembretes para pacientes tomarem medicamentos antirretrovirais, reduzindo a contagem de vírus da AIDS. 
Os serviços de saúde por tecnologia móvel ainda estão engatinhando. De 75 exames em que pacientes usaram tecnologia móvel, como mensagens de texto e aplicativos para administrar uma doença ou adotar comportamentos mais saudáveis, apenas três mostraram sinais confiáveis de sucesso, de acordo com uma pesquisa sistemática.

Em uma pesquisa anexa com funcionários médicos que usaram smartphones e outros dispositivos para ajudar com tratamentos, a mesma equipe encontrou mais sucesso: 11 de 42 testes tiveram resultados positivos e confiáveis.

Mas o serviço de saúde auxiliado por dispositivos móveis, chamado de mHealth [abreviação de “saúde móvel”], atrai muita atenção e dólares, como escreveu Francis Collins, diretor dos National Institutes of Health dos Estados Unidos no ano passado em Scientific American.

Em 2012, empresas de capital de risco investiram mais de US$900 milhões em mHealth, de acordo com um relatório da Mobile Health Market News.

 “Existe muito entusiasmo pelo mHealth, mas sua eficácia não está muito clara”, observa a epidemiologista Caroline Free, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, na Inglaterra, principal autora das revisões.

Em 2011, por exemplo, a Organização Mundial da Saúde descobriu que apenas 12% das iniciativas de saúde móvel incluíam uma avaliação.

Free e seus colegas conduziram as revisões, que aparecem na PLoS Medicine para, de acordo com ela: “nos colocar na posição de saber exatamente em que áreas há boas evidências onde a evidência era promissora” [sic]. Essas informações poderiam ajudar investidores e pesquisadores a tomar melhores decisões sobre como identificar, melhorar e promover os melhores tratamentos de saúde.

Na primeira avaliação, a equipe identificou 334 testes relevantes de mHealth em sete bases de dados médicas. A maioria dos testes usava mensagens de texto para interagir com pacientes, apesar de alguns interagirem por meio de aplicativos dedicados, áudio e vídeo disponíveis para download, ou pela web.

Apenas 75 desses testes incluíam um grupo de controle, que permite que os pesquisadores comparem intervenções experimentais com não fazer nada.

Dos 75 testes controlados, 26 procuravam mudar o comportamento dos pacientes com métodos que incluíam exercícios, e 49 tentavam ajudar pacientes a administrar doenças com medicamentos, tomando pílulas na hora certa, por exemplo. Esse estudo pode ser diferente de muitos outros, mas o médico Rahul Chakrabarti da Monash University, na Austrália, coeditor do Journal of Mobile Technology in Medicine, considerou o trabalho ‘a meta-análise mais ampla de evidências de mHealth até o momento’. 

A má notícia é que a maioria dos testes tinha projetos fracos, como falhas em randomizar participantes no grupo de controle e no grupo experimental. Free aponta que testes assim deveriam usar exames bioquímicos.

Em alguns casos, é cedo demais para dizer se um resultado, como uma cintura menor, duraria o suficiente para melhorar a saúde dos pacientes. A maioria dos testes também negligencia o mundo em desenvolvimento, onde telefones móveis têm o maior potencial para melhorar o acesso à saúde. Na opinião de Chakrabarti, “Isso não mina os resultados, mas mostra que no futuro há uma clara necessidade de melhorar a metodologia”.

Alguns testes foram promissores e confiáveis: por exemplo, receber mensagens ajudou fumantes a abandonar o hábito em um teste que verificou seus resultados com exames bioquímicos.

Lembretes de outro teste também ajudaram diabéticos a se manterem tratamento. No único teste bem sucedido do mundo em desenvolvimento, no Quênia, lembretes por SMS para que pacientes tomassem medicamentos antirretrovirais ajudaram a reduzir a contagem de vírus da AIDS.

De acordo com Free, as limitações dos tratamentos mHealth atuais não deveriam desencorajar pesquisadores, porque pessoas podem aprender a partir de intervenções que funcionam. Por exemplo, em alguns dos testes na segunda avaliação de Free, telefones móveis ajudaram médicos e enfermeiras a se comunicar melhor uns com os outros, e também com pacientes. Mas câmeras de telefones móveis acabaram sendo péssimas para diagnósticos remotos.

“Estamos em um momento muito empolgante, e essas avaliações estão, de certa forma, catalisando uma discussão muito maior dentro da comunidade para considerar as evidências do mHealth com mais atenção”, declara Patricia Mechael, diretora executiva da mHealth Alliance em Washington, capital.

Chakrabarti observa que um dos desafios da área será conduzir estudos em locais com um impacto maior. Um teste bem sucedido no Reino Unido pode não ser viável no mundo em desenvolvimento devido a leis, cultura ou infraestrutura diferentes. Deveriamos fazer mais testes de mHealth em países de economia pequena e média, acredita ele, e seus criadores precisam usar o mais alto padrão de evidências. “Isso tem o potencial de derrubar muitas barreiras ao acesso”, adiciona ele.