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Treinamento reduz inflamações

Artigo publicado no PNAS indica que o corpo pode ser condicionado a modular respostas do sistema imune 

Racorn/Shutterstock
Os resultados, publicados em Proceedings of the National Academy of Sciences, sugerem que as pessoas podem aprender a modular as respostas de seu sistema imune. A descoberta aumentou as esperanças para pacientes que sofrem de doenças inflamatórias crônicas, como artrite reumatoide e doença inflamatória intestinal.

 
Por Heidi Ledford e revista Nature

O temerário Wim Hof, uma celebridade holandesa, suportou longos banhos de água gelada, escalou o pico do monte Kilimanjaro, na África, de shorts e imprimiu sua marca no famoso livro Guiness World Records, o livro dos recordes, com sua capacidade de resistir ao frio.

Agora ele também deixou sua marca na ciência. Pesquisadores empregaram os métodos de condicionamento físico e mental de Hof para treinar 12 voluntários a evitar inflamações.

Os resultados, divulgados em 6 de maio na publicação Proceedings of the National Academy of Sciences, sugerem que as pessoas podem aprender a modular suas respostas imunes — uma descoberta esperançosa para pacientes que sofrem de doenças inflamatórias crônicas, como artrite reumatoide e doença inflamatória intestinal.

Os resultados são apenas preliminares, adverte o principal autor do estudo Matthijs Kox, que investiga respostas imunes no Centro Médico da Universidade Radboud, em Nijmegen, na Holanda. Kox conta que pessoas com distúrbios inflamatórios às vezes ficam sabendo de seus experimentos e telefonam para perguntar se o treinamento lhes permitiria reduzir suas medicações. “Simplesmente ainda não sabemos isso”, admite ele.

Ainda assim, o trabalho se destaca como um exemplo das interações entre os sistemas nervoso e imune na opinião de Guiseppe Matarese, um imunologo da Universidade de Salerno, na Itália, que não esteve envolvido no estudo. “Esse estudo é uma forma interessante de mostrar essa ligação”, observa. “Neurobiólogos ortodoxos e imunólogos ortodoxos têm sido céticos. Eles consideram que o estudo das interações entre os dois sistemas é um ‘campo nas sombras’”, critica.

Sangue frio

Em 2010, quando ainda era estudante de graduação, Kox estudava como o sistema nervoso influencia respostas imunes. Foi nessa época que ele soube pela primeira vez que Hof havia alegado ser capaz de regular não só a sua própria temperatura corporal, mas também seu sistema imune. “Pensamos, `Tudo bem, vamos lhe dar uma chance’”, revela Kox. “Mas julgamos que o resultado seria negativo”.

Kox, e seu orientador, médico e coautor do estudo Peter Pickkers, também do Centro Médico da Universidade Radboud, convidaram Hof a visitar seu laboratório para verificar como ele reagiria ao seu teste padrão de inflamação, que envolve exposição a uma toxina bacteriana de Escherichia coli para induzir temporariamente febre, dor de cabeça e tremores.

Para surpresa de Kox, a reação de Hof à toxina foi mais branda que a da maioria das pessoas. Ele teve, por exemplo, sintomas de gripe menos severos e níveis mais baixos de proteínas inflamatórias no sangue.

Em seguida veio o estudo mais recente, que incluiu 24 voluntários. Metade deles viajou à Polônia para participar do programa de treinamento de Hof, que incluiu nadar em águas gélidas e deitar de peito nu na neve, além de exercícios respiratórios e de meditação. Depois disso, os recrutas voltaram para a Holanda onde foram submetidos ao teste de inflamação, fazendo seus exercícios respiratórios ao receberem as injeções de toxina. Os outros 12 fizeram o teste sem qualquer treinamento.

Estados alterados

Em média, os voluntários treinados por Hof relataram menos sintomas de gripe que os que não participaram dos exercícios. Além disso, as pessoas treinadas produziram quantidades menores de várias proteínas associadas a inflamações, e níveis mais altos de uma proteína que combate inflamações chamada interleucina-10.

Kox suspeita que as técnicas de respiração foram as maiores contribuintes para suprimir reações inflamatórias. Trinta minutos depois de iniciarem os exercícios respiratórios, mas antes que a toxina fosse injetada, os participantes treinados começaram a produzir mais adrenalina, um hormônio envolvido em respostas imunes e estresse.

Agora, Kox e Pickkers esperam isolar os efeitos dos exercícios respiratórios e repetir o experimento com mais voluntários. Eles também advertem que sua pesquisa envolve apenas inflamações de curto prazo. Como os resultados se aplicam a condições crônicas ainda não está claro.

No entanto, o estudo atual deve ajudar a explicar a ligação entre sistema nervoso e respostas imunes, argumenta Kevin Tracey, médico e presidente do Instituto Feinstein para Pesquisa Médica, em Manhassett, Nova York. “Não se pode entender imunidade sem entender sua regulação neural”, salienta. “E eles encontraram um desses circuitos reguladores, que pode ser modulado”.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado originalmente em 5 de maio de 2014