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Twitter pode ser auxílio em desastres naturais

Mensagens podem, por exemplo, fornecer mapas de inundações em tempo real

世書 名付/Flickr
Inundação em Jacarta
Brian Kahn e ClimateCentral

No final de janeiro de 2014, Jacarta, capital e maior cidade da Indonésia, foi inundada por pesadas chuvas. 

Choveu tanto que a região registrou uma precipitação de 405 mm acima do que é considerado normal para esse mês.

Rios subiram, romperam suas margens e invadiram as ruas da capital indonésia.

Em algumas áreas, o nível da enchente atingiu mais de 1,8 metro, afetando quase 135 mil habitantes.

Pessoas que tinham Smartphones e uma conta no Twitter se apressaram para transmitir informações a familiares, amigos e seguidores sobre a extrema elevação das águas.

Aqueles tuítes foram feitos para retuítes convincentes e noticiários, mas pesquisadores holandeses também descobriram outra utilidade para as mensagens: mapas de inundações em tempo real.

Atualmente, seus esforços estão passando por um teste-piloto em Jacarta, mas eles poderiam acabar mudando o modo como agências de resposta a desastres, como a Cruz Vermelha, lidam com catástrofes meteorológicas em nível global.

Além disso, em um mundo em aquecimento, em que chuvas pesadas provavelmente aumentarão (assim como o número de usuários de mídia social), o projeto representa um chamado “ponto perfeito” que aborda uma necessidade com uma crescente fonte de dados.

“Existem muitas pessoas tuitando sobre pontos ou localidades de inundações e muitas vezes elas descrevem o nível da água em seus tuítes”, comentou Arnejan van Loenen, especialista em enchentes no instituto de pesquisa Deltares, com sede na Holanda.

“Isso me deu a ideia de que, se existe essa quantidade de informações, então cada tuíte poderia ser visto como uma observação; e isso somou muitas observações sobre inundações que não estavam sendo usadas”.

O projeto, chamado Floodtags, usa um algoritmo e filtro AntiSpam para localizar tuítes sobre inundações e identificar “clusters”, concentrações de tuítes sobre um determinado local, em geral um forte sinal de que algo importante está acontecendo.

Nesses casos, van Loenen e seus colegas então são capazes de traduzir as informações efêmeras do Twitter em detalhados mapas de inundações que identificam os níveis das águas e as áreas mais duramente atingidas.

Atualmente, o projeto não analisa dados de imagem em tuítes, mas de acordo com van Loenen, isso poderia acabar se tornando outra rica fonte de informações para sua ferramenta.

A técnica é particularmente útil em cidades ou locais que têm muitos usuários ativos do Twitter.

Durante as inundações de janeiro de 2014, mais de 360 mil tuítes foram postados sobre a enchente, inclusive 15 mil com informações sobre a profundidade das águas.

Para um evento muito grande, como o furacão Sandy, mais de 20 milhões de tuítes foram postados em um período de cinco dias, fornecendo uma quantidade de dados ainda maior (e, é claro, um monte de ruídos).

Mas, ao contrário de Nova York e de outras áreas da costa leste americana, Jacarta e outras áreas urbanas ao redor do mundo em desenvolvimento têm menos estações meteorológicas e dados (embora muitas sejam a base de alguns dos 302 milhões de usuários mensais do Twitter).

Isso significa que a ferramenta poderia ser um grande benefício para o pessoal que responde a desastres em países em desenvolvimento. Depois que as águas recuam, os dados podem ajudar a avaliar os danos e recriar uma linha de tempo da inundação para planejamento futuro.

“A Cruz Vermelha já usa o Twitter; a Cruz Vermelha Filipina o monitora; a Cruz Vermelha Americana o monitora”, salientou Erin Coughlan, especialista climática sênior no Centro Climático da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho.

“O Floodtags tem essa abordagem que utiliza um algoritmo que permite que as pessoas lidem com o grande problema de dados, há tantos tuítes, e o tornam útil para nós em todos os sentidos”.

Van Loenen declarou ser pouco provável substituir completamente ferramentas que já estão à disposição de socorristas de desastres, inclusive imagens de satélites e bons e antiquados telefonemas.

Mas salientou que, à medida que o projeto se expande para incluir outros países, é possível que eles também possam acessar outras redes sociais, como o Instagram, que tem, orgulhosamente, 300 milhões de usuários mensais, e o Weibo, uma plataforma de mídia social chinesa com quase 200 milhões de usuários mensais.

O Floodtags não é a única aplicação dos milhões de fragmentos de dados que as pessoas geram inadvertidamente todos os dias nas redes sociais.

“Nesse momento, há um grande potencial para projetos (como esse)”, avaliou van Loenen.

“Por exemplo, como sistemas de alerta para epidemias de fome que se concentram em palavras como cólera ou outras epidemias, ou até sistemas de respostas a terremotos. Tudo isso ainda está em sua fase inicial de desenvolvimento”.

 

Publicado em Scientific American em 17 de junho de 2015.