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Um gênio matemático como nenhum outro chega aos cinemas

O Homem Que Viu O Infinito traz para as telas a vida do indiano autodidata Srinivasa Ramanujan

Crédito: Fotógrafo desconhecido, Domínio Público, via Wikimedia Commons 

O Homem Que Viu O Infinito (estreia 22 de setembro) é o mais novo a fazer parte da série de filmes biográficos do gênero “gênios incompreendidos” — seguindo os lançamentos de “O Jogo da Imitação” (sobre Alan Turing) e “A Teoria de Tudo” (sobre Stephen Hawking), em 2014.

Enquanto esses filmes falaram sobre os pioneiros da ciência da computação e da física, respectivamente, e se passaram, em grande parte, durante a Segunda Guerra Mundial e os anos 60, o novo filme é uma história de amor matemática como nenhuma outra jamais foi contada. Ancorado na experiência da Universidade de Cambridge durante a eclosão da Segunda Guerra um século atrás, ele trata da relação acadêmica improvável e extraordinária entre um rapaz indiano pobre e mal instruído, Srinivasa Ramanujan, e G. H. Hardy, um dos matemáticos mais célebres da Inglaterra.

Dev Patel (Quem Quer Ser Um Milionário) é Ramanujan, enigmático e de espírito livre, e Jeremy Irons (A mulher do Tenente Francês) é o socialmente desajeitado Hardy — com participações de  Stephen Fry e Jeremy Northam — O Homem Que Viu O Infinito tem roteiro de Matt Brown, que também é o diretor, e foi baseado no livro de mesmo nome, escrito por Robert Kanigel, em 1991. Tanto o livro quanto o roteiro foram parcialmente patrocinados pela Alfred P. Sloan Foundation, que há 25 anos tenta maior reconhecimento público para Ramanujan (a fundação também apoiou um musical sobre Ramanujan, que não foi produzido, uma peça chamada Partition, que foi, e muitos outros projetos, incluindo outro roteiro).

O núcleo da história é conhecido por muitos matemáticos, e, graças ao seu lançamento nas telas, ela está prestes a ganhar uma exposição muito maior e muito merecida. Ramanujan nasceu em uma pequena vila tâmil em 1887 e, inicialmente, ia bem na escola. Mas em 1905, ele estava em Kumbakonam e havia largado a faculdade. Mudou-se para Madras para tentar a universidade de novo, mas não conseguiu: apesar de seu excelente desempenho em matemática, Ramanujan  falhou em todas as outras disciplinas. Destemido, ele seguiu realizando pesquisas matemáticas altamente originais sozinho, usando seu próprios sistema de numeração e seus próprios métodos. Ele frequentemente reinventava a roda, chegando a resultados já conhecidos por outros, e outras vezes ele tropeçava em novas perspectivas e fórmulas desconcertantes. Em 1912, conseguiu emprego como balconista, e já havia publicado um artigo na revista científica Journal of the Indian Mathematical Society.

Não há dúvida de que Ramanujan tinha uma misteriosa “linha direta” para verdades matemáticas sofisticadas e profundas de uma maneira nunca antes registrada em nenhum ser humano. Esse autodidata se atreveu a mandar algumas de suas surpreendentes descobertas para Hardy (e outros) em Cambridge, o que, com o tempo, o levou a realizar uma viagem proibida (para uma brâmane devoto) de mar para a Inglaterra. Depois de passar cinco desafiadores anos trabalhando com o ateu Hardy — e seu colaborador durante toda a vida, J. E. Littlewood, interpretado pelo afável Toby Jones— em uma cultura que não recebia bem seus hábitos vegetarianos,  ele foi tomado de assalto por doenças.

Voltou para a Índia em 1919, e para a noiva que ele havia deixado para trás, mas morreu um ano depois, aos 32 anos de idade, não antes sem encher mais cadernos com seus rabiscos inspirados pelo divino. “Uma equação não tem nenhum significado para mim a menos que expresse um pensamento de Deus,” era como ele enxergava. Alguns mistérios desses cadernos perdidos foram finalmente desvendados recentemente, depois de quase 100 anos, graças aos esforços do Professor Ken Ono, da Universidade Emory, além de outros. Ono foi conselheiro especial e treinador meio período dos atores dos filmes, e um dos efeitos prazerosos disso é a falta de gafes que provocam contorções e outras imprecisões típicas de retratos comuns de matemáticos. O filme alcança um bom equilíbrio entre retratar matemática demais ou de menos, considerando que tem como público alvo a audiência geral. Como diz Ono, “O diretor Matthew Brown fez questão de retratar a matemática corretamente. Ao invés de fugir dela, era importante para ele fazer um filme que matemáticos abraçassem. E ele fez isso.”

Uma das mais famosas de todas as anedotas matemáticas, sobre a fascinação de Ramanujan com o número 1729, é, naturalmente, realçada. Mas o que foi revelado apenas recentemente, no entanto, e graças à uma descoberta de Ono e seus pesquisadores na Índia, foi o porquê de Ramanujan já saber que 1729 era o menor número natural que poderia ser obtido pela soma de dois cubos e de dois jeitos diferentes: ele descobriu isso enquanto buscava por “resultados aproximados” para a impossível equação de números inteiros x3 + y3 = z3.

Patel e Irons estão muito convincentes como dois talentos matemáticos teimosos e de mundos diferentes, que tentam encontrar um território em comum para construir uma relação produtiva, apesar de suas abordagens diferentes no que diz respeito à vida, inovação e certeza. Hardy, um solteirão, uma vez comentou que sua relação (estritamente profissional) com  Ramanujan foi “o único incidente romântico” de sua vida.

A avaliação de Hardy sobre as afirmações de Ramanujan, que não possuíam, no começo, qualquer tipo de justificativas ou provas no sentido tradicional, foi a seguinte: “Eu nunca havia visto algo nem próximo daquilo em toda a minha vida. Uma única olhada nelas bastava para saber que elas só poderiam ter sido escritas por um matemático da mais alta classe. Elas devem ser verdade, porque, se não fossem, ninguém teria a imaginação para inventá-las.”

Mas de onde vinham os insights sem precedentes de Ramanujan? De acordo com Ono, “Ramanujan afirmava que muitas das suas fórmulas fantásticas tinham sido literalmente apresentadas para ele durante seu sono, pela deusa hindu Namagiri. Seja lá como for que interpretemos isso, ele estava operando em um alto nível de criatividade. Em um senso mais amplo, ele tinha confiança de que podia enfrentar enormes mistérios com seus próprios poderes. Seus sonhos o motivavam em vários níveis.”  

Na visão de Ono, o filme também é bem-sucedido em muitos níveis. “Em Ramanujan," ele diz “temos um arquétipo de talento incompreensível superando circunstâncias impossíveis. Sua história ressoa com conotações mitológicas. Mas, ainda assim, sua trajetória dialoga de maneira mais vital com a nossa era moderna. Alguém pode se perguntar: Ramanujan não foi a ponta do iceberg, apenas um exemplo de um gênio que trabalhava isolado e que se criou e se motivou sozinho? Ele importa hoje porque representa um potencial inexplorado de que nós temos que acreditar na ciência para prosseguir nela.”

O Homem Que Viu O Infinito também nos força a refletir sobre o estado atual da educação no mundo, diz Ono. “Ramanujan foi reprovado na faculdade duas vezes. (‘É a pior instância de danos que eu conheço, a que pode ser causada por um sistema educacional estagnado’, comentou Hardy). Os educadores de hoje são inundados com uma ladainha depressiva de reclamações – alunos descontentes, testes demais, esgotamento de professores, falhas em acompanhar a tecnologia, financiamentos inadequados e desiguais, e falta de relevância, para falar sobre alguns. Como nós reconheceríamos e nutriríamos pontos fora da curva como Ramanujan hoje? Essa é a pergunta que merece atenção.”

É importante notar que o próprio Ono é um exemplo espetacular de um aluno que largou o sistema educacional e seguiu para alcançar grandes feitos, inspirado pela história de Ramanujan — e por uma carta enviada por seu “pai” matemático recebida há décadas da viúva de Ramanujan - como ele contou no seu revelador livro My Search for Ramanujan: How I Learned to Count (Springer, 2016), escrito com o também matemático Amir Aczel.

Para aqueles se perguntando se o nome do sábio indiano é pronunciado “Ra-MAN-ujan” ou “Raman-UJ-an”, a pergunta permanecerá após o filme: na tela — e também em aparições na imprensa e entrevistas dadas pelo elenco do filme — as duas versões são usadas. Ono explica “Ra-MAN-ujan é tâmill,  Raman-UJ-an é britânico.”  Esse é um mistério Ramanujan que pode ser resolvido sem a necessidade de entender matemática avançada.

Colm Mulcahy

 

 


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