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Uma barata consegue sobreviver sem cabeça?

Consegue, sim. E a cabeça também se mantém viva sem o corpo – pelo menos por algumas horas

Charles Q. Choi
© Terry & Natasha Turner/Stock.Xchng
Infames por sua persistência, as baratas muitas vezes são citadas como as únicas prováveis sobreviventes a um holocausto nuclear. Alguns sábios de plantão argumentam que as criaturinhas conseguiriam até mesmo viver sem a cabeça – e eles estão certos: às vezes, uma barata sem cabeça consegue sobreviver por semanas.

Compreender como as baratas – e muitos outros insetos – conseguem sobreviver à decapitação também pode ajudar a entender porque os humanos não são capazes de tal façanha, diz o fisiologista e bioquímico Joseph G. Kunkel, da University of Massachusetts Amherst, que estuda o desenvolvimento das baratas. Em primeiro lugar, a decapitação em humanos resulta em hemorragia e queda na pressão sanguínea, dificultando o transporte de oxigênio e nutrientes até os tecidos vitais. “A pessoa sangra até morrer”, afirma Kunkel.

Além disso, os humanos respiram pela boca ou pelo nariz, e o cérebro controla essa função crucial – assim, a respiração cessaria. O corpo humano também não pode se alimentar sem a cabeça, o que garante morte certa por inanição se alguém sobrevivesse aos outros “efeitos“ da decapitação.

As baratas possuem um sistema circulatório diferente. Para que o sangue siga seu caminho pela vasta rede de vasos e artérias do corpo humano, e especialmente através dos minúsculos capilares, é preciso manter uma certa pressão. O sistema vascular da barata é bem menos extenso e não possui capilares; assim, a pressão pode ser significativamente mais baixa. “Depois de cortar a cabeça da barata, o pescoço do inseto se ‘fecha’ com a coagulação”, explica Kunkel, “Não há uma hemorragia descontrolada”.
Além disso, esses bichinhos resistentes respiram através de espiráculos, buracos minúsculos em cada segmento do corpo. O cérebro da barata não controla sua respiração, e o sangue não carrega oxigênio por todo o seu corpo. Na verdade, os espiráculos mandam o ar diretamente para os tecidos através de uma série de tubos chamados traquéias.

As baratas também são poiquilotérmicas, ou seja, são animais de “sangue frio”. Consequentemente, não gastam energia para se manter aquecidas e, assim, conseguem sobreviver com uma quantidade muito menor de alimento. Elas conseguem se virar por semanas com apenas uma refeição, explica Kunkel. “Se não forem vítimas de algum predador, ficarão quietas e durarão por mais algum tempo”.

O entomólogo Christopher Tipping, do Delaware Valley College, já decapitou baratas (da espécie Periplaneta americana) “muito cuidadosamente sob a lente do microscópio”, ele conta, para estudar o que acontece. “Selamos a ferida com cera dental para evitar que as baratas secassem. Duas delas ainda sobreviveram por várias semanas dentro de um vidro”.

Baratas e muitos outros insetos possuem grupos de gânglios – aglomerações de tecido nervoso – distribuídos por cada segmento do corpo. Esses agrupamentos são capazes de executar as funções nervosas básicas, responsáveis pelos reflexos. “Assim, sem o cérebro, o corpo ainda consegue funcionar em termos de reações muito simples”, explica Tipping, “e elas são capazes de ficar de pé, reagir ao toque e se movimentar”.
E não é apenas o corpo que consegue sobreviver à decapitação: a cabeça também continua funcionando sozinha, mexendo as antenas pra lá e pra cá por horas até ficar sem energia, revela Kunkel. Se receber nutrientes e for refrigerada, uma cabeça de barata pode até durar mais.

Mesmo assim, nas baratas “o corpo fornece uma enorme quantidade de informação sensorial para a cabeça, e o cérebro não consegue funcionar normalmente ao deixar de receber esses dados”, explica o neurocientista Nicholas J. Strausfeld, da University of Arizona, especializado no aprendizado, memória e evolução cerebral dos artrópodes. Por exemplo, apesar de as baratas contarem com uma memória fantástica, ele diz, tentar ensinar alguma coisa a essas criaturas é inútil quando alguma parte de seu corpo está faltando. “Temos que manter seus corpos completamente intactos”.

Decapitar uma barata pode parecer macabro, mas cientistas já conduziram vários experimentos com baratas sem cabeça – e só com as cabeças – para responder a questões pertinentes. Ao literalmente perderem a cabeça, as baratas ficam privadas de hormônios que controlam o amadurecimento, uma descoberta que está ajudando os pesquisadores a investigar a metamorfose e a reprodução dos insetos. Já o estudo das cabeças separadas revela como os neurônios dos insetos funcionam. No final das contas, os resultados são mais uma prova da resistência invejável dessas criaturas. Uma barata sem cabeça pode não ser a mais esperta, mas com certeza consegue sobreviver.