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Uma cantora de ópera pode quebrar uma taça com a voz?

A façanha é possível, mas não depende apenas dos pulmões da soprano

Karen Schrock
PODER VOCAL: Despedaçar uma taça de vinho não requer apenas um cantor de ópera que produza uma nota bem longa e alta, mas também encontrar a taça certa
A orquestra toca e uma mulher loira de proporções consideráveis, com tranças amarradas com fitas e vestindo um colete de metal dourado e um capacete com chifres caminha em direção ao centro do palco. Seu busto cresce à medida que toma fôlego; ela abre a boca cuidadosamente delineada com batom e, como um terremoto, emite uma poderosa nota. Taças de champanhe estouram, monóculos racham, os lustres de cristal explodem com a força da voz destruidora. A cena é comum em vários desenhos animados e comédias, mas será que essa piada tem um fundo de verdade? Será que uma cantora de ópera tem o poder de romper vidros com o som da própria voz?

A Física sugere que a voz é capaz de quebrar vidro. Cada pedaço de vidro, assim como todos os materiais, possui uma freqüência ressonante, isto é, a velocidade com que vibra quando se choca ou recebe outro estímulo, que pode ser, por exemplo uma onda sonora. Taças de vinho são especialmente ressonantes devido à sua estrutura tubular interna oca, que produz um som agradável ao tinir. Se uma pessoa conseguir cantar neste tom exato – que de acordo com a lenda é um “Si Maior” mas, na verdade, pode ser qualquer tom – sua voz fará as moléculas do ar em volta da taça vibrarem em uma freqüência, forçando-a a vibrar também. Se a nota for emitida suficiente alta, o copo irá vibrar até quebrar.

Jeffrey Kysar, engenheiro mecânico da Columbia University que estuda como esses materiais podem ser rachar e quebrar, diz que é possível estilhaçar um copo com a voz mas, além de ter uma voz poderosa, a cantora também terá que contar com um pouco de sorte. “Mesmo que você consiga excitar as moléculas do copo, não é garantido que você consiga quebrá-lo. A quebra depende do tamanho dos defeitos próprios da peça”. Por isso, se uma diva se dispuser a quebrar uma taça com a voz, ela precisa torcer para que defeitos microscópicos sejam suficientemente grandes para cederem à pressão do som.

Kysar explica que todos os materiais são cobertos de fissuras invisíveis que podem variar de posição, tamanho e espessura. As taças de vinho, mesmo parecendo idênticas a olho nu, podem ser radicalmente diferentes em sua resistência à quebra, permitindo que algumas peças resistam a volumes muito mais altos do que outras.

O volume tem um papel fundamental na brincadeira de quebrar o copo, uma vez que a altura do som está ligada diretamente à capacidade de deslocar as moléculas de ar. Em poucas palavras, o que acontece é que o som passa de molécula em molécula até chegar à taça. Como Brunhilde – a princesa viking – canta muito alto, ela está, na verdade, empurrando ar em direção à taça com mais força. O efeito é muito parecido com o ato de empurrar uma criança no balanço. Quanto mais forte é o empurrão, maior é a altura que o balanço atinge. No entanto, neste caso, apenas o tranco não é suficiente. Ë preciso que ele seja compassado de forma que se adapte à oscilação natural do balanço, ou seja, o candidato a quebrador de taças deve cantar a nota musical que combina com a freqüência de ressonância da taça.
A física envolvida na arte da destruição pela voz parece ser bem clara mas mesmo assim, histórias de cantores com uma voz tão poderosa que destroem taças, copos e óculos são abundantes. No entanto, a ocorrência destes casos são um tanto quanto suspeitas, uma vez que não há registros históricos. Diziam que o famoso tenor Enrico Caruso tinha essa habilidade, mas depois de sua morte sua esposa negou os rumores. Por que será?

Acontece que a maioria das peças de vidro, incluindo as taças de vinho, são o equivalente a uma “criança” de uma centena de quilos num balanço. Quer dizer, por mais trancos e empurrões que você dê nela, ela nunca vai chegar perto do topo.

Apenas o cristal mais frágil é delicado e ressonante suficiente para que se possa romper com o volume que algumas pessoas podem produzir sem nenhum tipo de amplificação, ou seja 100 decibéis. Um comercial americano da década de 70 mostrava Ella Fitzgerald estourando uma taça de vinho facilmente com a ajuda de autofalantes Memorex. O truque já foi repetido varias vezes, mas sempre com a ajuda de amplificadores. O principio de direcionar o som para um objeto sensível com o intuito de despedaçá-lo é bem conhecido. Um exemplo? Quebrar pedras no rim. A diferença é que os médicos não se preocupam em encontrar a freqüência exata para destruir a pedra apenas bombardeiam seu alvo com várias freqüências diferentes (se um cantor pudesse cantar tão alto quanto o barulho de uma explosão, também não precisaria encontrar a freqüência exata para quebrar o vidro). Ainda assim, até poucos anos atrás não existia nenhum prova documentada de alguém que tivesse conseguido quebrar uma taça com a própria voz.

Em 2005, o programa “Mythbusters” (“Os Caçadores de Mitos)”, do Discovery Channel, recrutou um cantor de rock, Jamie Vendera, e um treinador vocal, para ensiná-lo a destruir cristais. Ele tentou, sem sorte, quebrar 12 taças de vinho, até que encontrou aquela que se estilhaçou com o som. O feito foi registrado em vídeo pela primeira vez.

O som estilhaçador emitido por Vendera atingiu 105 decibéis, quase tão alto quanto uma britadeira. Não são muitas as pessoas com condições de emitir um som alto como esse. Cantores de ópera treinam por anos para alcançar potência vocal e conseguir sustentar notas musicais em volumes superiores a 100 decibéis (para se ter uma idéia, um discurso normal está por volta dos 50 decibéis). Mesmo eu, sendo treinada para cantar ópera (antes de me tornar jornalista de ciência), nunca presenciei esse fenômeno ou fui capaz de recriá-lo. Isso não quer dizer que eu não vá tentar de novo, mas talvez eu deva procurar um capacete com chifres, um colete de metal dourado e principalmente, um amplificador e um bom par de alto-falantes.