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Uma causa para os Nobel

Professor aproxima ganhadores do prêmio Nobel de escolas. Você já conheceu algum?

Dr. Ed Shapiro
O Prêmio Nobel de Física, de 1990, professor do MIT Jerome I. Friedman visita a escola de periferia especializada John D. O`Bryant School of Mathematics and Science, em Roxbury, Massachusetts.
Por Maria Thompson

O Dr. Edward Shapiro, um inventor aposentado em Massachusetts, está transformando a resposta a essa pergunta em “pelo menos um” para um número crescente de alunos do ensino fundamental e médio.

Como outros programas que levam cientistas às salas de aula, o seu também quer inspirar os estudantes a considerar uma carreiraem ciências.

A diferença? Shapiro está levando personalidades notáveis às escolas.

Seu programa “Nobel Laureate School Visits” (“Prêmios Nobel Visitam Escolas”, em tradução livre) nasceu de uma ideia que teve em 2009. Shapiro estava impressionado com a escassez de modelos acadêmicos. Com tantos atores e atletas para rivalizar como exemplos, ele temia que os adolescentes não se sentissem estimulados a seguir uma carreira dedicada às ciências. De fato, esse pensamento talvez nunca lhes ocorresse.

Shapiro pediu ajuda a um amigo, o Dr. Dan Fenn, para concretizar e lançar o programa.

Fenn havia passado um tempo considerável envolvido no governo e na educação, como professor na Harvard University e a serviço do ex-presidente John F. Kennedy. Ele ficou entusiasmado com a ideia e foi decisivo para estabelecer o contato entre Shapiro e ganhadores do Prêmio Nobel. Foi ele quem apresentou Shapiro a um ex-colega seu do MIT, o laureado de Economia de 1987, Robert Solow. Este contatou outros colegas “nobelistas”, procurando voluntários dispostos a visitar escolas do ensino médio.

O resultado dos esforços é o programa Nobel Laureate School Visits, uma organização sem fins lucrativos gerenciada com um orçamento apertado a partir de um subúrbio de Boston.

Desde2009, a entidade já levou laureados a 31 escolas de ensino fundamental e médio. De acordo com Shapiro, aproximadamente 200 ganhadores de prêmios Nobel vivem atualmente nos Estados Unidos — cerca de um sexto deles em Massachusetts.

Shapiro está se valendo desse recurso local. “Temos a visão de utilizar essa fonte exclusiva e desenvolver um modelo de premiados com o Nobel para os jovens”, explica ele. Shapiro e sua modesta equipe levam nobelistas a escolas públicas desprivilegiadas nos arredores de Boston, onde há uma proporção maior de famílias de baixa renda e de imigrantes.

Ele seleciona essas escolas por uma razão e visa um subconjunto específico da população estudantil em suas visitas: ele quer atingir os alunos mais brilhantes.

Como imigrante da Rússia, Shapiro conhece de perto a motivação que as crianças de famílias imigrantes sentem para trabalhar duro e estudar com afinco. Se o trabalho dedicado estiver vinculado ao sucesso científico, esse fato também se reflete nas estatísticas dos ganhadores do Prêmio Nobel.

Mais de um terço dos laureados americanos homenageados com o prêmio de Medicina e Fisiologia nos últimos cento e tantos anos nasceram em outros países. As escolas que atendem os filhos de famílias menos abastadas e de imigrantes podem ser incubadoras de futuros inovadores e inventores. Talvez até de ganhadores do Prêmio Nobel.

Estranhamente, a escola pode ser uma experiência dura para alunos excepcionais. Shapiro se preocupa com esse grupo relativamente pequeno de estudantes brilhantes que não são aceitos por seus colegas. “Eles tendem a comer, pensar e estudar melhor que qualquer outra coisa, porque esse é o seu verdadeiro talento; mas em geral a sociedade os rejeita e eles nunca se desenvolvem plenamente”.

Então, como é que nós, como sociedade, garantimos que esses jovens desenvolvam todo o seu potencial?

A resposta de Shapiro é mostrar a eles a etapa final do processo. É fácil perder de vista a perspectiva maior com uma mochila cheia de livros e noite após noite de tarefas de casa. Mas os estudantes têm de passar por esse ritual, trabalhar duro e se sobressair em excelência se quiserem ter carreiras interessantes e gratificantes na vida adulta.

A ideia de Shapiro é fornecer aos alunos um modelo real, que conhece tudo isso, que já passou por isso e seguiu em frente para realizar coisas verdadeiramente notáveis.

É claro que poucos (ou nenhum) desses alunos chegarão ao ponto de ganhar um Prêmio Nobel, mas eles saem da escola com duas informações muito importantes.

Uma é que a ciência é legal. Eles aprendem que ser um cientista é uma aventura incrível rumo ao imenso desconhecido, que os cientistas fazem contribuições significativas para a sociedade, e que ser cientista é um trabalho muito divertido.

A outra é que os cientistas também são gente. Eles cabularam aulas. Tiveram laboratórios clandestinos de química no porão. Achavam algumas aulas chatas. Gostavam de fazer caminhadas e passar tempo com os amigos e a família. Eles são, ao mesmo tempo, “normais” e excepcionais, e inspiram suas audiências a viver a vida com paixão.

O grupo fundador expandiu seu quadro inicial de três pessoas e agora inclui uma base organizacional de dois ex-educadores. Van Seasholes, um ex-diretor de escola do ensino médio, e Phil Flaherty, o diretor-associado da Massachusetts Secondary School Administrators’ Association. Juntos, eles fazem uma avaliação para verificar se a expectativa, o desenvolvimento do programa, corresponde à realidade. Além disso, eles ajudam a divulgar o programa e convidam novas escolas a se inscrever para receber as visitas.

Embora o programa tenha se firmado e popularizado na área de Boston, ele ainda não é reconhecido nacionalmente — algo que Shapiro e sua equipe gostariam de mudar.

Desde a criação do Prêmio Nobel (a Fundação Nobel foi criada em 1900 e a primeira entrega de prêmios ocorreu em 1901), 48% dos laureados em ciências, medicina e economia vieram dos Estados Unidos. Esses nobelistas constituem um recurso nacional um tanto inexplorado.

Com esse número desproporcional de premiados vivendo em território americano, estudantes do ensino médio de todo o país poderiam ter a oportunidade de conhecer laureados e ouvir as suas histórias. Shapiro quer viabilizar isso ao ampliar o âmbito do seu programa.

Se a “Fase1” foi Boston, então a “Fase2”é uma extensão nacional para outras cidades que tenham uma concentração de residentes nobelistas. O objetivo final é desenvolver um programa de alcance mundial.

Expandir envolve dinheiro e esse é o maior obstáculo para seguir adiante.

O programa de visitas de laureados a escolas começou com um “capital semente” (seed money, em inglês) da IBM Corporation. Atualmente, a maior parte dos recursos humanos que mantém a organização em funcionamento é voluntária.

Ainda assim, mesmo com essa ampla base é preciso dinheiro para custear viagens e despesas operacionais. Shapiro investe muito tempo viajando para as escolas antes que o orador chegue. Seu trabalho preliminar garante que as visitas dos ilustres transcorram sem problemas e que o tempo deles seja bem empregado. Seu respeito pelos premiados garante que eles queiram voltar, o que é essencial para o sucesso de seu programa.

Shapiro é, no mínimo, engenhoso. Em seu esforço para expandir, ele conseguiu penetrar em conferências científicas, onde procura divulgar seu programa (e agir como uma espécie de “olheiro” para avaliar a próxima safra de possíveis ganhadores do Prêmio Nobel). Além disso, ele gasta tempo estabelecendo uma rede de contatos em busca de novos patrocinadores.

Seus esforços valeram à pena.

Em uma recente conferência ele fez contato com a BioCision, que concordou em lhe dar o apoio financeiro para ajudá-lo a dar o próximo passo. Shapiro já está considerando uma viagem para explorar o pool de ganhadores do Prêmio Nobel que vivem no norte da Califórnia, onde se encontra a sede da BioCision. Para se tornar um programa nacional, ele precisará de toda ajuda possível, tanto dos laureados como da sociedade em geral. Até agora, os nobelistas parecem felizes em doar seu tempo. Ao que tudo indica, depende do resto dos americanos garantir que aproveitam essa doação.

Sobre a autora: Maria Thompson, PhD, tem uma formação em genética molecular e mais de 15 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento farmacêutico e de diagnósticos. Ela desempenhou diversas funções, entre elas, a de chefe do projeto de Ampla Triagem do Genoma para Diabetes tipo 2, Faixa Preta Seis Sigma (seis sigma é uma estratégia gerencial de mudanças, para acelerar o aprimoramento em processos, produtos ou serviços, que atua na redução das variações. O faixa preta desenvolve a metodologia seguindo à risca as fases “DMAMC”: Definir, Medir, Analisar, Melhorar, Controlar), consultora principal e chefe de assuntos científicos; além de administrar uma empresa privada de consultoria que presta serviços científicos e técnicos a clientes da indústria de ciências da vida. A Dra. Thompson é formada em genética (BSc, bacharelado em ciências) e doutorada (PhD) em Bioquímica Molecular e Celular pela Royal London School of Medicine, no Reino Unido. Ela mantém um blog regular para muitos clientes e seu e-mail é: consulting.mt@gmail.com

As opiniões expressas são as do autor e não necessariamente as da Scientific American.