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Medicamentos experimentais contra o Ebola

ONU conclui que uso é ético mas estoques são limitados e é difícil decidir quem receberá tratamento

Centers for Disease Control and Prevention
Por Dina Fine Maron

 Diante do avanço da epidemia de Ebola na África ocidental, um painel da Organização Mundial da Saúde (OMS) decidiu em 11 de agosto que seria ético disponibilizar aos pacientes medicamentos experimentais promissores, mas com eficácia e efeitos colaterais desconhecidos.

A comissão de 12 membros da agência das Nações Unidas deixou de lado questões sobre quem deve receber os limitados recursos e como isso deve ser decidido até se reunir novamente no final do mês. A OMS argumenta que a diferença entre esse surto e as circunstâncias de episódios anteriores é a enormidade da escala das áreas afetadas, que tornou inadequadas as abordagens tradicionais de saúde pública para conter a propagação do vírus.

Até 9 de agosto, 1.013 pacientes haviam morrido na atual epidemia de Ebola, que ofuscou todas as anteriores. Até agora foram registrados 1.848 casos. Na semana passada, o diretor do U.S. Centers for Disease Control and Prevention (Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos; CDC, na sigla em inglês) declarou perante um painel do Congresso americano que o atual surto está em uma trajetória que em breve superará todos os eventos anteriores de Ebola — juntos.

O painel da OMS tomou sua decisão depois que dois missionários americanos e um espanhol* infectados com vírus teriam recebido tratamentos experimentais que não foram disponibilizados aos pacientes na Guiné, Serra Leoa, Libéria e Nigéria. [O missionário espanhol, transferido da Libéria para a Espanha em 7 de agosto, morreu na terça-feira, 12, em Madri.]

A disparidade ética gerou um furor de controvérsias. Segundo se informa, as primeiras doses do medicamento experimental contra o Ebola, suficientes para tratar dois médicos liberianos, agora estariam a caminho da Libéria.

Para complicar ainda mais a situação, no momento só existe uma quantidade limitada do soro experimental. De acordo com a OMS, o estoque do produto, chamado ZMapp, está praticamente esgotado.

O medicamento é uma composição de anticorpos monoclonais desenvolvidos pela Mapp Biopharmaceutical, uma empresa farmacêutica com sedeem San Diego, na Califórna, que já tinha sido testado previamente em primatas.

O ZMapp parece ter tido um “efeito dramático e muito rápido” nos dois pacientes americanos, observa Marie-Paule Kieny, diretora-geral assistente para sistemas de saúde e inovação da OMS. Em uma tele-entrevista coletiva na manhã desta terça-feira (12 de agosto), no entanto, ela advertiu que os médicos ainda não sabem ao certo se ele de fato é eficaz e salientou que os pacientes tratados precisam continuar recebendo doses adicionais da droga. No caso do paciente espanhol que morreu não se sabe com certeza se ele recebeu a terapia, nem quando.

Kieny acrescentou ainda que existem outros tipos de medicamentos e vacinas que poderiam ser candidatos para tratamento ou prevenção. Ela citou três tipos de produtos que poderiam ser tentados: soros sanguíneos como o ZMapp, destinados a estimular a resposta do sistema imune do paciente; antivirais (dos quais há mais de três, mas menos de 10 tipos); e vacinas. De acordo com ela, as decisões sobre quais medicamentos deverão ser ministrados dependerão de testes preliminares em macacos, que indiquem quais compostos parecem potencialmente eficientes.

Enquanto isso, autoridades federais americanas anunciaram planos para iniciar ensaios clínicos para uma vacina em potencial contra o Ebola no mês que vem e garantiram que estão trabalhando para aprovar rapidamente um tratamento promissor.

No final de agosto o painel da OMS discutirá que condições ou critérios deverão orientar futuras escolhas sobre quem deve receber prioridade para o tratamento ou prevenção.

Questionada se a atual distribuição do limitado estoque de medicamento foi justo, Kieny respondeu: “Não creio que possa haver qualquer distribuição justa de algo que está disponível em uma quantidade tão pequena. Estamos diante de um dilema”. E acrescentou: “Se esses tratamentos podem salvar vidas, como sugerem os estudos animais, não deveríamos usá-los para salvar vidas? Até agora já foram perdidas vidas demais”.

As conclusões do painel podem ser um tanto discutíveis porque não existem estoques ilimitados de qualquer um desses medicamentos. E só por que uma equipe de bioeticistas concluiu que seria ético dar os produtos a pacientes não significa que isso acontecerá.

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Sciam 12 de agosto de 2014