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Balas de borracha indicam militarização da polícia americana

Cresce uso de armas não-letais, mas perigosas, contra manifestações 

Shutterstock
Por Annie Sneed

O departamento de polícia de Ferguson, no estado do Missouri, finalmente divulgou o nome do policial que matou o jovem Michael Brown, de 18 anos, que não portava armas no último sábado. Seu nome é Darren Wilson. As agências de notícias acompanharam dias de protestos e confrontos violentos entre policiais e residentes devido à tragédia.

Tensões escalaram quando a polícia usou o que muitos criticaram como força excessiva: gás lacrimogêneo, bombas de fumaça e balas de borracha, com a intenção de dispersar as multidões de manifestantes que supostamente estariam lançando garrafas e coqueteis Molotov, “essa é uma resposta extrema”, declara Stephen Coleman, professor sênior de ética e liderança da University of New South Wales, na Austrália, que trabalha para educar oficiais de polícia em relação a armas não-letais.

As chamadas “armas não-letais”, como balas de borracha e gas lacrimogêneo para controlar multidões, se tornaram ferramentas cada vez mais comuns entre as forças policiais dos Estados Unidos, observa Coleman, o que deixa a população preocupada. As armas podem inflingir dores imensas e danos físcos, e tem o potencial de matar indivíduos atingidos (ainda que rararamente).

Balas de borracha, por exemplo, feitas de vários materiais, incluindo borracha e plástico, são projetadas para incapacitar uma pessoa. “Elas transmitem níveis variados de energia de impacto para impedir que alguém lance pedras ou quebre janelas”, explica o Major Steve Ijames, policial aposentado do Departamento de Polícia de Springfield, no Missouri. “Basicamente, esses projéteis são usados para fazer pessoas deixarem uma área”.

Dependendo da distância do tiro e do tipo de bala, os projéteis provocam vários tipos de dor e danos, e podem até quebrar ossos. Se uma bala de borracha atingir a garganta ou o pescoço de alguém, ou se for disparada a distâncias pequenas, elas podem matar. Estima-se que 15 pessoas nos Estados Unidos e no Canadá tenham morrido em decorrência dessas armas desde 1971, aponta Ijames.

O gás lacrimogêneo também é considerado uma arma não-letal. Ainda que a maioria das nações (incluindo os Estados Unidos) tenha banido seu uso em guerras pela Convenção de Armas Químicas de 1993, ele é uma ferramenta comum de dispersão de massas para muitos governos de todo o mundo.

O gás está disponível em várias formas, incluindo spray de pimenta. A polícia normalmente usa o gás CS, ou 2- clorobenzalmalononitrilo, que provoca dor severa e irritação da pele, olhos e sistema respiratório. Ainda que o gás lacrimogêneo raramente mate, ele pode levar a problemas de saúde.

“Muitas pessoas expostas [ao gás] não conseguem respirar adequadamente e têm ansiedade, porque sentem que estão sufocando”, explica Sven-Eric Jordt, professor de anestesiologia da Duke University. O gás lacrimogêneo é especialmente perigoso para pessoas com doenças respiratórias pré-existentes, como asma ou enfisema, aponta ele.

Ainda que o gás lacrimogêneo pareça ter efeitos de relativo curto prazo, pesquisadores nunca estudaram suas consequências de longo prazo sobre a saúde humana. “Isso é muito preocupante, porque o uso de gás lacrimogêneo aumentou no mundo todo”, observa Jordt. 

O uso de armas não-letais é especialmente problemático porque é difícil usá-las contra indivíduos específicos que precisam ser presos. Obviamente, o gás lacrimogêneo afeta uma área inteira.

Policiais frequentemente fazem balas de borracha ricochetear no chão para reduzir a força do impacto, o que significa que não podem fazer mira com essa técnica. De acordo com o New York Times, na quarta-feira um pastor local de Ferguson tentou acalmar manifestantes violentos e recebeu um tiro na barriga com uma bala de borracha disparada pela polícia. “É uma espécie de tiro sem alvo”, admite Coleman. “Então até mesmo as pessoas que não estão agindo de maneira violenta são atacadas”. 

Especialistas também apontam que técnicas de combate que dependem de armas não-letais tendem a escalar situações em vez de resolver alguma coisa. “Quando pessoas reclamam do uso de força policial excessiva, parece loucura responder com força excessiva”, aponta Coleman.

Armas não-letais, adiciona ele, “se tornaram substitutas para as habilidades que a polícia usava quando não tinha acesso a armas não-letais”. Isso inclui abordagens não-violentas, como simplesmente tentar conversar e negociar com as pessoas para acalmar uma situação.

Alguns críticos citados em várias mídias alegaram que a tendência de usar armas não-letais surgiu nos últimos anos, em parte porque departamentos de polícia receberam financiamento federal para adquirir equipamentos anti-terrorismo após os ataques de 11 de setembro. 

O uso problemático de armas não-letais parece ser muito maior para a polícia dos Estados Unidos do que para outras nações, como Austrália, Reino Unido e Canadá, observa Coleman. Na Austrália, por exemplo, a maioria das polícias não têm acesso a armas não-letais usadas pelos policiais de Ferguson, e apenas alguns recebem treinamento para usar essas armas. “Parece que o uso de força policial nos Estados Unidos”, conclui ele, “se tornou o primeiro recurso, não o último”.