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Uso de células-tronco umbilicais é menor que o previsto

Altos custos e baixa eficiência limitam aplicação terapêutica de cordões umbilicais armazenados

 

Banc de Sang via flickr
Cientistas estão estudando maneiras de tratar o HIV, a paralisia cerebral e outras doenças usando sangue do cordão umbilical, ainda que pouco do sangue coletado seja realmente usado.
 

Por Lydia Chain e Scienceline

 

Você poderia pensar que médicos e pacientes estariam clamando por células tão versáteis que poderiam ajudar a recuperar um corpo que sofre de tudo: de leucemia a diabetes. Mas um novo relatório mostra que uma importante fonte dessas células-tronco – cordões umbilicais descartados – raramente é usada devido a seus altos custos e risco de falha.

Células-tronco extraídas do sangue do cordão umbilical de recém-nascidos às vezes são usadas para tratar condições médicas, especialmente cânceres de ossos e sangue como mieloma múltiplo ou linfoma, ao substituir células defeituosas produtoras de sangue na medula óssea.

Geralmente as células doentes são destruídas com quimioterapia e radiação. As novas células-tronco são transplantadas no paciente para restaurarem sua função. Células-tronco do sangue do cordão umbilical são uma alternativa a transplantes de medula óssea e transplantes de sangue periférico, em que células-tronco são coletadas da corrente sanguínea. O sangue do cordão umbilical tende a se integrar melhor com o corpo e é mais fácil encontrar um doador compatível.

Mesmo assim, menos de 3% do sangue umbilical coletado nos Estados Unidos chega a ser usado, enquanto o resto fica inutilmente armazenado em bancos de sangue, de acordo com um relatório publicado em Genetic Engineering & Biotechnology News. O imunologista Enal Razvi é autor do relatório e diretor administrativo da Select Biosciences, uma agência de consultoria para biotecnologia. Razvi descobriu que bancos públicos de sangue umbilical, que armazenam unidades congeladas doadas para transplantes quando necessário, tem uma rotatividade anual de apenas 1 a 3%. A maioria de seu inventário fica sem uso ano após ano.

Na Community Blood Services de Nova Jersey, por exemplo, pacientes só usaram 278 de seus 13 mil cordões desde que ela foi aberta em 1996, de acordo com a diretora de desenvolvimento comercial Misty Marchioni. O uso é ainda menor em bancos privados de sangue umbilical, que cobram milhares de dólares para armazenar um cordão umbilical na eventualidade de um membro da família precisar dele.

Ao contrário da medula óssea, que é a principal fonte alternativa de células-tronco, células transplantadas a partir do sangue umbilical têm pouco risco de provocar a doença do enxerto contra hospedeiro, uma condição fatal em que o corpo rejeita um transplante.

Cientistas acreditam que isso ocorre porque o sistema imunológico de um bebê é mais próximo de uma tabula rasa, assim suas células-tronco podem se integrar ao corpo do paciente com mais facilidade. Mas transplantes de sangue umbilical também demoram mais para dar resultado, exigindo estadias hospitalares mais longas e aumentando a conta. Devido aos custos de testes e armazenagem, os próprios cordões acabam ficando caros. “O preço do cordão é proibitivamente alto”, explica Razvi. Cada unidade de sangue umbilical custa entre US$35 e US$40 mil dólares, e a maioria dos adultos precisa de duas unidades para um transplante de sucesso. Empresas de seguro geralmente pagam uma quantia pré-estabelecida para um transplante de células-tronco independentemente da origem das células. O preço de um transplante de células umbilicais pode chegar a US$300 mil, e esse valor pode não ser totalmente pago pelo seguro.

Transplantes de células-troncos do sangue umbilical também têm uma taxa de falha mais alta que outros métodos de transplante. Se o transplante fracassar, ele deixa o paciente com um sistema imunológico comprometido, a doença original e as despesas médicas.

Como a preparação para o transplante inclui remover a medula óssea original do paciente, o corpo inteiro precisa ser preenchido com células-tronco capazes de substituí-la. Não existem muitas células-tronco em um cordão. Se comparadas à medula óssea ou ao sangue periférico, existe uma grande chance de não haver células-tronco suficientes que realmente sejam implantadas e comecem a produzir sangue e medula óssea. “É como espalhar uma pequena quantidade de sementes em um grande jardim”, comenta Mitchell Horwitz, que ensina terapia celular no Centro Médio da Duke University. “Às vezes isso simplesmente não funciona”.

Martin Smithmyer, chefe executivo do banco particular Americord, alega que mais clientes acabarão usando seus cordões conforme forem descobertas aplicações para células-tronco umbilicais. Mas alguns cientistas discordam. Steven Joffe, professor de

ética médica da Escola Perelman de Medicina da University of Pennsylvania, declara que muitos tratamentos não podem ser realizados com as células-tronco do próprio paciente porque doenças genéticas já estariam presentes no sangue umbilical. Nesse caso, a medula óssea poderia ser uma opção melhor para parentes. “A probabilidade de usarem esse produto é quase nula”.

Apesar do pouco uso, defensores da prática alegam que programas envolvendo o sangue umbilical foram cruciais para melhorar opções de transplante para minorias raciais, porque pode ser difícil encontrar um doador de medula óssea compatível com alguns grupos. O sangue do cordão umbilical não precisa ser perfeitamente compatível como acontece com a medula óssea. “Isso transformou o tratamento de minorias”, declara Andromachi Scaradavou, diretora médica do Programa Nacional de Sangue Umbilical, um banco público com sede na cidade de Nova York. “No passado nós não tínhamos bons doadores para oferecê-los”.

Marchioni, da Community Blood Services, também sustenta que o sangue umbilical é uma boa opção de emergência, porque encontrar um doador compatível de medula óssea ou sangue periférico pode levar meses ou anos. “Se você precisar de um transplante rápido”, observa ela, “é mais fácil tirar o sangue umbilical da prateleira”.

Mesmo assim, especialistas estão trabalhando para garantir a disponibilidade geral do sangue umbilical sem que grandes quantidades fiquem eternamente paradas. Pesquisadores também continuam pesquisando formas de aumentar o sucesso de transplantes e elevar o número de células-tronco obtidas de cada cordão, reduzindo custos e tornando transplantes de sangue umbilical acessíveis a mais pacientes. “Se o custo fosse reduzido”, aponta Sacaradavou, “muitos pacientes poderiam conseguir o tratamento de que precisam”.

 

Este artigo (ou vídeo, ou podcast) foi fornecido por Scienceline, um projeto do Programa de Ciências, Saúde e Meio-ambiente da New York University.