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Uso de mosquitos transgênicos para combater dengue no Brasil chama atenção de comunidade científica mundial

Testes realizados com a tecnologia no interior de São Paulo mostram redução de 91% dos casos da doença em um ano  

Shutterstock
Aedes aegypti

A cidade de Piracicaba, a 170 km de São Paulo, ganhou esta semana as páginas da revista Science, uma das mais prestigiadas publicações científicas do mundo. O motivo é um experimento com insetos transgênicos para combater a dengue que a cidade está sediando, e que logrou reduzir em 91% o total de casos da doença. Os bons resultados já asseguraram a realização de mais uma bateria de testes, e abrem caminho para o uso comercial desta tecnologia. Mas também chama a atenção o pioneirismo do Brasil em contemplar o uso em larga escala de animais transgênicos, tecnologia ainda pouco difundida no planeta.

Fabricado pela companhia inglesa de biotecnologia Oxitec, o mosquito é denominado OX513 A (e também possui um nome comercial: “Aedes do Bem”). Quando os machos transgênicos cruzam com uma fêmea selvagem, geram uma prole que herda o gene modificado. Esse gene tem efeito autolimitante, ocasionando a produção em excesso de uma proteína que termina por levar ao colapso metabólico. Desta forma, o inseto morre antes de se tornar um adulto funcional.

“É uma abordagem completamente diferente do que se costuma fazer com transgênicos”, explica Guilherme Trivelato, supervisor de produção da Oxitec. “A maior parte dos [transgênicos] atuais tem uma vantagem quando comparado ao seu par selvagem. É a soja mais resistente a pragas, ou o milho mais resistente a herbicidas. Já o OX513 A mais cedo ou mais tarde vai morrer, e os seus descendentes também vão morrer”, diz Trivelato.

O experimento que levou Piracicaba às páginas da Science durou um ano e envolveu a soltura do inseto na região do bairro CECAP/Eldorado, a partir de julho de 2015. A redução da população de insetos se refletiu no total de casos registrados no ano base 2015/2016: 12, contra 133 no período 2014/2015.

Os bons resultados animaram a prefeitura da cidade a solicitar um estudo expandido da metodologia, englobando 11 bairros da região central da cidade, onde vivem 60 mil pessoas. Esta segunda fase começou em julho passado, e também deve durar um ano.

Ao contrário das plantas geneticamente modificadas, cuja utilização já se incorporou ao cotidiano dos produtores agrícolas e dos consumidores há bem mais de uma década, a transição dos animais transgênicos dos laboratórios para as lojas e empresas ainda se arrasta. Foi só no fim de 2015, após meia década de avaliações, que o FDA, órgão responsável pela regulação de alimentos e medicamentos nos EUA, autorizou o uso comercial de um salmão geneticamente modificado. O FDA também já autorizou a realização de um estudo com o “Aedes do Bem” na Flórida, mas ele ainda não saiu do papel.

No Brasil, o cenário tem sido mais favorável. Os primeiros testes com o Aedes do Bem começaram em 2012, e sua realização foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Estes testes foram feitos na Bahia, e o índice de redução de casos de um ano para o outro chegou a 99%. A tecnologia também foi aprovada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), o que significa que foi considerada segura para a saúde e meio ambiente.

Uma segunda avaliação dos possíveis riscos ambientais suscitados pelos testes do OX513 A foi realizada este ano, desta vez mirando em pontos não problematizados pela CTNBio. Os resultados saíram em artigo publicado no Boletim da Organização Mundial da Saúde. “Não temos dúvidas de que o inseto é seguro”, diz Paulo Peres, do Departamento de Genética da Universidade Federal de Pernambuco, primeiro autor do artigo.

Ele refuta a ideia de que o Brasil esteja se expondo a riscos ao abrir espaço para testar uma tecnologia que ainda é vista com desconfiança na maior parte dos países. “Isso é estar na vanguarda da pesquisa. Você acha que isso é algo ruim? Eu não acho”, diz Peres. Ele também contesta o argumento de que poderia ser mais estratégico esperar mais tempo antes de autorizar o uso da transgenia, para dar mais oportunidade ao eventual surgimento de males. “Isso se dizia lá atrás, mas hoje temos 15 anos de dados, obtidos de bilhões de animais alimentados com rações transgênicas, e não vimos problemas. O que está impedindo a realização de mais estudos com animais transgênicos é a legislação de alguns países, que é muito burocrática. A nossa é ótima”, afirma.

Ainda que haja um consenso da academia em relação à validade e segurança dos testes, o mosquito transgênico ainda não foi registrado pela ANVISA como produto. O órgão diz estar elaborando uma norma que possibilite um registro temporário. Posteriormente será aberta uma Consulta Pública, e só então haverá uma avaliação pela Diretoria Colegiada da Anvisa, e a proposta poderá ser aprovada.

Há também quem discorde da eficácia da tecnologia. Leonardo Melgarejo, engenheiro agrônomo e membro da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), aponta que um estudo realizado pela própria Oxitec revelou que 3% das larvas resultantes da prole do mosquito geneticamente modificado chegam à vida adulta normalmente. “Essa margem de erro prevista de 3% não é pequena considerando a quantidade de insetos que são liberados. Se soltarmos um milhão de mosquitos, serão 3 mil chegando à capacidade reprodutiva, ampliando o número de insetos que temos atualmente,” argumentou. Outro fator problemático é que o mecanismo fisiológico que termina por ocasionar a morte dos descendentes do animal transgênico pode ser desativado, desde que o inseto entre em contato, de alguma forma, com o antibiótico tetraciclina. Segundo um estudo da pesquisadora Helen Wallace, da Universidade de Oxford, a tetraciclina atua como um “interruptor químico”, ou seja, em sua presença os mosquitos podem se reproduzir normalmente, mas em sua ausência acabam morrendo. “É comum encontrar esse antibiótico em esgoto e em criadouros”, afirma Melgarejo.

Outro problema é que o Aedes aegypti não é o único transmissor de dengue. Melgarejo aponta o perigo representado pelo Aedes albopictus, mosquito que, segundo ele, era o mais importante transmissor da doença antes do processo de urbanização. “Na natureza não existem espaços vazios. Na ausência de uma espécie, outra vai se tornar dominante”, diz. Ele ainda critica o processo de separação de mosquitos machos e fêmeas realizado pela Oxitec. Como a companhia libera apenas mosquitos machos, que não picam, é feita previamente uma separação das larvas em laboratório: “O processo consiste em colocar uma chapa de vidro e jogar uma corrente de água nas larvas, fazendo com que os mais ‘gordinhos’ fiquem trancados. É muito rudimentar, implicando em um risco de liberar fêmeas, que picam, e que são geneticamente alteradas,” diz.

Glen Slade, diretor da Oxitec Brasil, responde às críticas. Ele pondera que “é muito improvável que esses 3% realmente sobrevivam até se reproduzir no ambiente, já que eles foram criados e cresceram em uma unidade de produção. São bem adaptados para viver dentro dela, não fora.” E sustenta que, embora a molécula da tetraciclina possa ser encontrada nos locais onde o Aedes transita, ela não está disponível em quantidade suficiente para prevenir a morte do OX513 A.

Slade também não mostra preocupação em relação a possível substituição do Aedes aegypti pelo Aedes albopictus, argumentando que o comportamento das fêmeas de ambas as espécies é diferente. Enquanto a fêmea do Aedes aegypti pica diversas vezes e consome sangue humano, as do Aedes albopictus habitam áreas selvagens e picam outros mamíferos e pássaros. “Além disso, um estudo feito no Panamá mostrou que a supressão do Aedes aegypti em uma dada região não levou a uma mudança na quantidade de Aedes albopictus no mesmo local,” diz.

Já o processo de separação entre machos e fêmeas envolve, além do uso de um aparelho com uma malha que permite a passagem apenas das pupas macho, a retirada de amostras de cada lote produzido. Estas amostras são examinadas por um técnico treinado, e caso mais de duas fêmeas sejam encontradas num grupo de mil, o lote inteiro volta para o aparelho. Segundo o diretor, apenas uma fêmea é liberada a cada 2.500 machos.

A Oxitec possui uma fábrica em Campinas e este mês inaugura uma segunda em Piracicaba, que promete estar entre as maiores instalações para a produção de animais transgênicos do mundo. A empresa não revela o total investido, mas os jornais de Piracicaba falam em R$ 30 milhões, o que dá uma boa amostra de como a empresa está apostando no Brasil como um potencial mercado para suas tecnologias transgênicas. Se conseguir obter o registro da Anvisa, poderá não demorar muito tempo para recuperar os investimentos. Segundo a própria empresa divulgou em 2014, uma cidade de 50 mil habitantes que decidisse implementar um programa semelhante precisaria investir R$ 2 milhões e R$ 5 milhões no primeiro ano, e R$ 1 milhão nos anos seguintes.

Trivelato, porém combate a crítica de que a tecnologia seja cara. “As técnicas tradicionais podem até ser mais baratas, mas não funcionam. Quanto custa um hospital lotado? Imagina os recursos poupados quando se tem um hospital 70% menos cheio o ano todo. Menos internação, material, funcionários, médicos, enfermeiros, atendentes… A gente tem certeza que, mesmo investindo na tecnologia, o ganho a médio e longo prazo é muito maior economicamente”.

 Isabela Augusto e Pablo Nogueira
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