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Vacina contra Aids pede novas estratégias

Pesquisadores acreditam que combinar DNA e proteínas pode valer a pena

Healthcare packaging
Por Fred Furtado

 Se uma grande descoberta no desenvolvimento de uma vacina contra o HIV ocorresse hoje, cientistas e empresas farmacêuticas precisariam de pelo menos mais uma década para fornecer um produto comercial. Porém, após uma longa jornada, pesquisadores podem ter feito essa grande descoberta usando uma nova abordagem para vacinas que combina duas estratégias prévias. Uma vez que a pandemia de Aids já existe há 30 anos e já custou 36 milhões de vidas, com mais 35 milhões de pessoas atualmente infectadas com o vírus HIV, o objetivo há muito aguardado pode finalmente estar ao alcance, de acordo com os participantes da 13ª Conferência sobre a Vacina da Aids realizada no início de outubro em Barcelona.

Esse otimismo é revigorante porque a história das vacinas de HIV não é boa. Dos cinco testes de eficácia até hoje, quatro se provaram decepcionantes e dois indicaram que pessoas vacinadas tinham maior probabilidade de contrair o vírus. Só o RV144 (o famoso ‘teste tailandês’) mostrou alguma perspectiva positiva.

Largamente descreditada por alguns pesos-pesados da área antes do anúncio dos resultados dos testes, a vacina RV144 mostrou a eficácia de uma abordagem chamada de prime boost [“inicial-reforço”] – combinar uma vacina de DNA com uma vacina de proteína. O RV144 forneceu 31% mais proteção que um placebo. O modesto sucesso foi suficiente para iniciar o desenvolvimento da P5, um consórcio de governos, empresas e organizações não-governamentais que planeja transformar o RV144 em um produto licenciado.

Apesar do otimismo em relação ao RV144,  alguns pesquisadores ainda questionam se governos deveriam estar investindo em uma vacina em vez de se concentrarem em estratégias de prevenção e tratamento. Sim, deveriam, declara Anthony S. Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, durante um discurso. “Uma vacina contra o HIV é essencial para controlar e erradicar a pandemia de maneira eficaz”, afirmou Fauci.

Sobre anticorpos e células T

Pesquisadores seguem duas abordagens principais para a vacina de HIV: anticorpos e células T. Anticorpos, proteínas produzidas pelo sistema imune para identificar e neutralizar corpos estranhos, eram muito usados nos primeiros anos da pesquisa, mas após resultados decepcionantes o interesse mudou para respostas imune celular. Isso mudou novamente com a descoberta dos anticorpos amplamente neutralizantes, que são produzidos por 20% dos indivíduos soropositivos dois ou três anos após a infecção.

Esses anticorpos são capazes de visar regiões específicas do vírus, importantes para sua sobreviência e presentes em muitos dos diferentes subtipos de HIV. Assim, uma vacina composta por esses elementos pode ser eficaz apesar da variabilidade do vírus, problema que vem sendo um obstáculo considerável. Esses anticorpos são tão promissores, declararam pesquisadores durante a reunião, que uma das abordagens terapêuticas recomendadas é injetar os anticorpos diretamente na corrente sanguínea das pessoas em risco. Apesar de esses anticorpos já terem sido usados para tratar doenças específicas, eles não foram considerados como substitutos de vacinas para a população geral.

Outra estratégia é usar as partes do vírus HIV que esses anticorpos reconhecem como modelos para induzir o sistema imune a produzir mais anticorpos neutralizantes. Mas a neutralização não é a única habilidade que essas moléculas levam para a guerra. O teste RV144 mostrou que anticorpos também podem enfrentar o vírus usando outras estratégias que levam à morte da célula infectada, por exemplo.

Apesar dessas novas investigações, pesquisadores na conferência apontaram que o trabalho para explorar as próprias células T do corpo – células imunes que podem promover uma resposta ou matar uma célula infectada – não foi esquecido.

Apesar de vacinas baseadas em células T terem fracassado em prevenir a infecção até agora, elas têm alguma eficácia em aplicações terapêuticas para controlar a carga viral de indivíduos já infectados. De fato, combinar anticorpos e células T é uma das abordagens que pesquisadores estão começando a explorar – com o santo graal sendo uma vacina que pode prevenir a infecção e também controlar a replicação do vírus.

O caminho do futuro

Conforme esse trabalho progride, especialistas estão antecipando mais resultados de estudos de acompanhamento do RV144 que devem determinar os efeitos de vacinas adicionais. Um dos estudos, o RV305, mostrou que pacientes do teste RV144 original apresentaram um pico na resposta imunológica com um reforço [boost] recebido seis ou oito anos após serem vacinados. O consórcio P5 também planeja usar a mesma estrutura de vacina do RV144 na África do Sul, adaptada ao subtipo de HIV comum naquela região.

O futuro provavelmente verá uma cooperação muito maior entre especialistas em vacinas, patogeneticistas, e abordagem de vacinas preventivas e terapêuticas e de microbicidas. Por isso, a reunião de Barcelona foi a última Conferência sobre a Vacina da Aids. No ano que vem o encontro será chamado de Conferência de Pesquisa para Prevenção do HIV (H4P, em tradução livre) e reunirá os campos de vacinas, microbicidas e medicamentos antirretrovirais.

A nova cooperação entre ciência e comunicação só ajudará a descoberta de uma vacina eficaz, declarou Jose Esparza, conselheiro sênior de saúde global da Fundação Bill & Melinda Gates, ao final do evento. De acordo com ele, isso gerará ainda mais dados humanos, que superam tudo que é feito in vitro. “Conceitos diferentes de vacinas precisam ser testados em paralelo. Testes clínicos são fundamentais, especialmente os de grande escala”, adicionou Esparza. “Precisamos conduzir nossa pesquisa com o senso de urgência necessário que a epidemia nos impõe”.