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Vacina oral contra a polio será substituída por injetável

Recomendação da OMS visa evitar surtos provocados por vírus presente na Sabin

Ewen Callaway e revista Nature
flickr/Teseum
Ao nascer do sol em uma quente manhã de dezembro, a equipe de Janila Shulu já está nas ruas de terra e vielas de Ungwan Rimi, uma região pobre em uma seção predominantemente muçulmana da cidade de Kaduna, no norte da Nigéria.

Três funcionárias da saúde, acompanhadas por um líder comunitário, vão de casa em casa, pingando algumas gotas da vacina contra a pólio nas bocas de todas as crianças que conseguem encontrar, mesmo as que passam por eles na rua. Por volta das 13h, depois de administrar centenas de doses, eles encerram o dia – o primeiro de uma iniciativa nacional de cinco dias.

Essas campanhas são a espinha dorsal da tentativa global de erradicar a pólio, mas neste mês (janeiro de 2013) a Organização Mundial da Saúde (OMS) em Genebra, na Suíça, propôs uma nova estratégia de vacinação: mudar de vacinais orais para injetáveis, que podem ter que ser administradas em clínicas. A mudança é necessária para eliminar os últimos bolsões de pólio, mas especialistas alertam que a medida é desafiadora em lugares como a cidade de Kaduna, com pouco acesso a serviçõs de saúde.

A nova política é um passo importante rumo à erradicação, acredita Nicholas Grassly, epidemiologista do Imperial College London, mas implementá-la será difícil. “Existem alguns grandes “poréns” na sua aplicação”, observa ele.

Jonas Salk é conhecido pelo desenvolvimento da primeira vacina da pólio, em 1955, uma vacina injetável contendo o vírus morto, mas a vacina oral viva, divisada um ano depois por seu concorrente Albert Sabin, é o carro chefe da Iniciativa Global de Erradicação da Pólio. Esse esforço dos setores público e privado começou em 1988 e, coordenado pela OMS, já custou aproximadamente US$8 bilhões até agora.

A vacina de Sabin é composta de três cepas vivas, mas inativas, de pólio. Ela é barata e fácil de administrar, o que a torna ideal para campanhas nacionais que envolvem dezenas de milhares de trabalhadores com treinamento mínimo. 

Mas os vírus vivos na vacina Sabin podem assumir formas causadoras da doença, especialmente em populações em que a imunidade é pouco disseminada. A Nigéria do Norte vem lutando contra esses surtos provocados por vacinas desde 2005. Um surto também ocorreu no Paquistão, em 2012.

Em anúncio feito em 4 de janeiro, a OMS pediu para que a vacina oral de pólio contendo o vírus do tipo 2, uma das cepas usadas nas vacinas de Sabin, fosse abandonada – talvez em apenas dois anos. A forma selvagem do tipo 2 foi eliminada globalmente, mas formas da cepa, derivadas de vacinas, ainda circulam na Nigéria e em países vizinhos.

A vacinação oral da pólio continuará, mas usará uma vacina que protege apenas contra os dois outros tipos do vírus da pólio que ainda circulam em sua forma selvagem na Nigéria, no Paquistão e no Afeganistão.

Enquanto isso a política também pede a introdução, o mais rápido possível, do antigo concorrente da vacina oral, o que requer trabalhadores da saúde treinados para administrá-la, explica Roland Sutter, especialista em vacinas da OMS. A vacina Salk não tem o risco de causar a pólio. Ao administrar uma vacina inativada que protege as crianças contra os três subtipos de pólio, pode-se eliminar surtos derivados da vacina. 

Haverá um período de transição em que tanto a vacina oral quanto a injetável serão usadas, porque se pararmos de repente, teremos surtos, explica Vincent Racaniello, virologista da Columbia University na cidade de Nova York.

Assim que os tipos selvagens de pólio forem eliminados, a OMS abandonará todas as vacinas orais de pólio.

O alto preço da vacina inativada de pólio continua sendo um obstáculo significativo para o plano, que depende de uma redução de custo para menos de 50 cents por dose em relação ao custo atual, que é de mais de U$2 por dose, observa Sutter.

Aumentar a resposta imunológica incluindo adjuvantes e injetar a vacina sob a pele em vez de dentro do músculo poderia ajudar a diminuir a dose necessária e cortar custos, como poderiam fazer novos tipos de vacina. 

A infraestrutura de saúde oferece é outro obstáculo, adiciona Grassly. Administrar a vacina em clínicas em vez de porta a porta será um desafio para a Nigéria, que tem uma das menores taxas de imunização do mundo. Menos de 50% das crianças recebem uma cartela completa de vacinas infantis, e em partes do norte do país o número fica ao redor dos 10%.

“Como uma comunidade global, nós temos que realizar um trabalho muito melhor para integrar a pólio à rotina de imunização”, lembra Zulfiqar Bhutta, especialista em imunização da Universidade Aga Khan em Karachi, no Paquistão, e membro do comitê da OMS que publicou a nova política de vacinação. Ele vê a eventual mudança para vacinas inativadas como uma oportunidade para aliar a imunização de rotina com a erradicação da pólio. “Nós deveríamos ter feito isso muito antes”, lamenta ele.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 14 de janeiro de 2013. 
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