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Vantagens da dislexia

Dificuldades de leitura podem estimular outras forças cognitivas

“Escher Waterfall”. Via Wikipedia
“Cachoeira” Impossível

 

 

 
Por Matthew H. Schneps

“Existem três tipos de matemáticos, aqueles que sabem contar e aqueles que não sabem”.

Piada de mau gosto? Com certeza. O que torna isso divertido, no entanto, é que a piada resulta de nossa percepção de um paradoxo, uma falha da lógica matemática que ativa regiões cerebrais localizadas no córtex pré-frontal direito. Essas áreas são sensíveis à percepção do acaso e nos alertam para situações suspeitas ou duvidosas; possíveis fontes de perigo nas quais uma situação simplesmente não parece correta.

Muitas das famosas gravuras do artista M.C. Escher ativam uma resposta similar porque retratam cenas que violam a causalidade. Sua famosa “Cachoeira” (“Waterfall”) mostra uma roda d’água alimentada por água que cai de uma calha, ou canal, de madeira. A água gira a roda e é redirecionada novamente para cima, até a boca do canal, de onde ela pode jorrar novamente sobre a roda em um ciclo infindável. O desenho nos mostra uma situação que viola praticamente todas as leis escritas da física e nosso cérebro percebe essa esquisitice lógica como sendo divertida — uma piada visual.

O truque que torna os desenhos de Escher intrigantes é uma construção geométrica que psicólogos chamam uma “figura impossível”, uma forma de linhas que sugerem um objeto tridimensional que jamais poderia existir em nossa experiência.

Psicólogos, inclusive uma equipe liderada por Catya von Károlyi, da Universidade de Wisconsin-Eau Claire, têm utilizado essas figuras para estudar a cognição humana. Quando a equipe pediu a voluntários que separassem figuras impossíveis de ilustrações desenhadas de forma similar que não violavam a causalidade, eles ficaram surpresos ao descobrir que algumas pessoas eram mais rápidas nisso que outras. O mais surpreendente de tudo, porém, é que entre os mais rápidos estavam os disléxicos.

A dislexia frequentemente é chamada uma “dificuldades de aprendizagem” e, de fato, e ela pode apresentar desafios de aprendizado.

Embora seus efeitos variem muito, crianças disléxicas leem tão lentamente que normalmente demorariam meio ano para ler o mesmo número de palavras que outras crianças talvez leiam em um dia. Portanto, o fato de pessoas que leem tão devagar serem tão hábeis em identificar as figuras impossíveis foi uma grande surpresa para os pesquisadores. Afinal, por que pessoas que são lentas na leitura seriam tão rápidas para responder a representações visuais de raciocínio causal?

Embora os psicólogos possam ter ficado surpresos, muitas das pessoas disléxicas com as quais converso não ficam.

Em nosso laboratório no Centro Harvard-Smithsonian de Astrofísica, realizamos estudos financiados pela National Science Foundation para examinar talentos científicos entre pessoas disléxicas.

O cientista Christopher Tonkin, que tem essa condição, me descreveu que sentia isso como uma sensibilidade para “coisas fora do lugar”. Ele fica facilmente incomodado com as ervas daninhas entre as flores em seu jardim, e sentiu que essa sensibilidade para anomalias visuais era algo que ele havia desenvolvido em sua carreira como cientista profissional.

Essas diferenças de sensibilidade para a chamada percepção causal podem explicar por que pessoas como Carol Greider e Baruj Benacerraf foram capazes de praticar ciência laureada com o Prêmio Nobel* apesar de persistentes desafios ao longo da vida com dislexia. [*Greider ganhou o Nobel de Fisiologia ou Medicina em 2009 e Benacerraf, na mesma categoria, em 1980.]

Em um estudo, testamos a habilidade de astrofísicos profissionais com e sem dislexia para detectar a assinatura gráfica simulada em um espectro característico de um buraco negro. Os cientistas disléxicos, talvez sensíveis às ervas daninhas entre as flores, se saíram melhor em distinguir os buracos negros do ruído, uma vantagem útil em suas carreiras.

Outro estudo em nosso laboratório comparou as habilidades de estudantes universitários com e sem dislexia para memorizar imagens indistintas parecidas com raios-X. Mais uma vez os disléxicos mostraram uma vantagem; uma que pode ser útil em ciência ou medicina.

Por que existem essas vantagens em dislexia? É algo no cérebro de pessoas disléxicas que as predispõe ao raciocínio causal? Ou é uma forma de compensação — diferenças no cérebro que ocorrem porque pessoas com dislexia leem menos? Infelizmente, as respostas a essas perguntas são desconhecidas.

Uma coisa que sabemos com certeza é que ler muda a estrutura do cérebro. Um leitor ávido pode ler durante uma hora ou mais por dia, dia após dia por anos a fio. Esse treinamento repetitivo, altamente especializado, que requer um controle extraordinariamente preciso, de uma fração de segundo, sobre os movimentos dos olhos, pode reestruturar rapidamente o sistema visual para tornar alguns percursos cerebrais mais eficientes que outros.

Quando adultos analfabetos foram ensinados a ler, um estudo de imageamento liderado por Stanislas Dehaene na França mostrou que ocorriam mudanças em seus cérebro à medida que eles começaram a dominar a leitura.

Mas, quando esses adultos desenvolveram habilidades de leitura, eles também perderam suas antigas habilidades para processar certos tipos de informações visuais, como a capacidade de determinar quando um objeto é a imagem espelhada de outro.

Aprender a ler, portanto, tem um preço, e a capacidade de realizar certos tipos de processamentos visuais é perdida quando pessoas aprendem a ler. Isso sugeriria que os pontos fortes visuais em dislexia são simplesmente um artefato de diferenças na experiência de leitura; uma compensação (trade-off) que ocorre em consequência da má leitura associada à condição.
shutterstock
Meus colegas e eu sugerimos que uma das razões por que pessoas disléxicas podem exibir talentos visuais é porque eles têm dificuldade em gerenciar sua atenção visual. À primeira vista pode parecer irônico que uma dificuldade pode levar a uma vantagem, mas faz todo sentido quando você se dá conta de que o que chamamos “vantagens” e “desvantagens” só tem um significado no contexto da tarefa que precisa ser executada.

Imagine, por exemplo, que você esteja procurando contratar um guarda de segurança talentoso. A função dessa pessoa será detectar coisas que parecem estranhas e fora de lugar, e chamar a polícia quando algo suspeito, digamos uma pegada inesperada em um canteiro de flores, é descoberto. Se essa é a tarefa da pessoa, você preferiria contratar alguém que é um excelente leitor, que tem a capacidade de se concentrar profundamente e mergulhar no texto, ou preferiria contratar uma pessoa sensível a mudanças em seu ambiente visual, que é menos apta a se concentrar e excluir (bloquear) o mundo externo?

Tarefas como ler requerem uma capacidade de concentrar sua atenção nas palavras à medida que seus olhos percorrem (escaneiam) uma frase, para mudar sua atenção de forma rápida e precisa, na sequência, de uma palavra para a próxima. Para ser um bom guarda de segurança, porém, é preciso ter uma habilidade contrária. A pessoa tem que ser capaz de estar alerta a tudo simultaneamente e, embora isso não seja útil para a leitura, essa habilidade pode levar a talentos em outras áreas. Se a tarefa é encontrar a falha lógica em uma figura impossível, então isso pode ser feito mais rapidamente se você for capaz de distribuir sua atenção por toda a figura de uma só vez. Se você tende a se concentrar no detalhe visual, para examinar todas as partes da figura em sequência, você poderia levar mais tempo para determinar se essas partes fazem sentido como um todo, e você estaria em desvantagem.

Uma série de estudos conduzidos por uma equipe italiana liderada por Andrea Facoetti mostraram que crianças disléxicas frequentemente apresentam deficiências de atenção visual. Em uma dessas pesquisas, a equipe de Facoetti mediu a atenção visual em 82 crianças em idade pré-escolar que ainda não tinham aprendido a ler. Em seguida, os pesquisadores esperaram alguns anos até que essas crianças concluíram o segundo ano do ensino fundamental e examinaram o quanto cada criança tinha aprendido a ler bem. Eles descobriram que as crianças que tinham dificuldades para focar sua atenção visual na pré-escola tiveram mais dificuldades para aprender a ler.

Esses estudos levantam a possibilidade de que déficits de atenção visual, presentes desde uma idade muito precoce, são responsáveis pelos desafios de leitura característicos da dislexia. Se essa teoria for confirmada, isso também sugeriria que as vantagens observadas não são um subproduto acidental da experiência com a leitura, mas, em vez disso, o resultado de diferenças no cérebro que provavelmente já estavam presentes desde o nascimento.

Se esse realmente for o caso, em vista do fato de que a atenção afeta a percepção de formas muito gerais, diversas vantagens deveriam surgir. Enquanto pessoas disléxicas podem tender a não notar detalhes em seus ambientes que exijam um foco de atenção, seria de esperar que elas se saíssem melhor em perceber coisas que são distribuídas de forma mais ampla. Em outras palavras: enquanto leitores típicos tendem a não perceber a floresta por que sua vista está bloqueada por todas as árvores, pessoas com dislexia podem ver as coisas de forma mais holística, e não enxergar as árvores, mas ver toda a floresta.

Entre outras vantagens observadas, Gadi Geiger e seus colegas do Massachusetts Institute of Technology (MIT) constataram que pessoas disléxicas conseguem distribuir sua atenção muito mais amplamente que leitores típicos, identificando com sucesso letras mostradas simultaneamente no centro e na periferia de espaçamentos muito maiores. Eles também mostraram que essas vantagens não se aplicam apenas a coisas visuais, mas também a sons. Em um estudo, eles descobriram que durante a simulação de sons de uma festa, pessoas disléxicas foram capazes de captar mais palavras pronunciadas por vozes amplamente distribuídas no ambiente do que outras que eram leitores proficientes

Se observações de vantagens desse tipo, medidas no laboratório, têm ou não aplicações para talentos na vida real ainda é uma questãoem aberto. Qualquerque seja o motivo, porém, uma clara tendência está começando a emergir: pessoas disléxicas podem se destacar por enxergarem o todo, a grande imagem (tanto literal como figurativamente), que outros tendem a não perceber. Thomas G. West tem argumentado há muito tempo que o raciocínio não convencional historicamente é uma parte integrante da dislexia, e sociólogos, como Julie Logan da Cass Business School, em Londres, concordam. Ela constatou que a dislexia é relativamente comum entre empresários; pessoas que tendem a pensar de modo diferente e enxergam a grande imagem quando refletem criativamente sobre um negócio.

Qualquer que seja o mecanismo, uma coisa está clara: a dislexia está associada a diferenças em habilidades visuais, e essas diferenças podem ser uma vantagem em muitas circunstâncias, como as que ocorrem em ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Em física só sabemos que um motor é capaz de realizar um trabalho produtivo quando há diferenças de temperatura; ou seja, quente versus frio. É somente quando tudo é igual que nada de produtivo pode ser feito. Do mesmo modo, diferenças neurológicas impulsionam o motor da sociedade, para criar os contrastes entre quente e frio que levam ao trabalho produtivo. Deficiências em uma área podem levar a vantagens em outras, e são essas diferenças que promovem o progresso em muitos campos, inclusive ciência e matemática. Afinal, provavelmente existem muito mais que três tipos de matemáticos, e a sociedade precisa de todos eles.

Sobre o autor:

Matthew H. Schneps é um astrofísico com dislexia que fundou o Laboratório para Aprendizado Visual (Laboratory for Visual Learning) para explorar as consequências da diversidade cognitiva na aprendizagem. Ele é um professor de ciência da computação na UMass Boston, e realiza pesquisas em dislexia na Harvard Graduate School of Education. Atualmente, Schneps está escrevendo um livro sobre como o surgimento de tecnologias de e-reading (leitura eletrônica) estão redefinindo a dislexia.

Você é um cientista especializado em neurociência, ciência cognitiva, ou psicologia? E você leu um recente artigo revisado por pares sobre o qual gostaria de escrever? Por gentileza, envie sugestões para Gareth Cook, um jornalista do Boston Globe, Ganhador do Prêmio Pulitzer, e editor da publicação Mind Matters. Ele pode ser contatado em garethideas AT gmail.com ou no Twitter em@garethideas.

Sciam 19 de agosto de 2014