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Vida complexa pode ser muito mais antiga do que se pensava

Nova descoberta de fósseis de algas pode redefinir linha do tempo da evolução

Therese Sallstedt/Swedish Museum of Natural History
A foto mostra uma imagem de microscópio de luz do tecido celular de uma espécie "suculenta" que se assemelha às algas vermelhas, chamada Ramathallus lobatus
Foi há cerca de 1,6 bilhões de anos que uma comunidade de formas de vida pequenas, de cor vermelha brilhante e semelhantes a plantas, movendo-se com leveza numa piscina rasa de água pré-histórica, ficou gravada em pedra para sempre. Ou pelo menos até uma equipe de pesquisadores suecos escavar seus restos fossilizados numa formação rochosa sedimentar na região central da Índia.

A pesquisa, publicada semana passada na revista PLoS Biology, sugere que essa coleção de antigos fósseis recém-analisados - embora desenterrados alguns anos atrás - provavelmente é de algas vermelhas. Se isso for comprovado, poderia significar que a vida complexa e pluricelular evoluiu muito antes do imaginado - e que a árvore da evolução da vida na Terra talvez precise de uma grande poda.

Os primeiros vestígios de vida na Terra provavelmente apareceram há cerca de 3,5 bilhões de anos, um bilhão de anos ou mais depois do nosso planeta se formar. Quando exatamente esses organismos simples e unicelulares - classificados como “procariontes” por não possuírem núcleo - evoluíram para formas pluricelulares e nucleadas, chamadas de “eucariontes”, é assunto de debate. Acredita-se que a alga, eucarionte, é uma das formas de vida complexa mais antigas. E levando-se em consideração que descobertas anteriores de fósseis dataram algas vermelhas em 1,2 bilhões de anos, o novo achado poderia redefinir a linha do tempo evolutiva em cerca de meio bilhão de anos.

A suposta alga vermelha foi encontrada embutida em camadas fossilizadas de cianobactérias, as quais se acredita amplamente serem as primeiras formas de vida produtoras de oxigênio a surgir e as precursoras de todas as algas e plantas. (Embora nem todas as algas sejam tidas como “plantas” pela classificação atual, são consideradas semelhantes às plantas pois utilizam a fotossíntese para produzir energia.) Dissolvendo as rochas ao redor com ácido acético - método comum usado na escavação de fósseis - os autores do novo estudo desenterraram o que parecem ser duas formas de alga vermelha: uma cepa tubular que se assemelha com um macarrão de piscina segmentado e uma variedade mais suculenta, composta de coleções de camadas múltiplas de células.

Os autores utilizaram uma técnica chamada microscopia tomográfica de raio-x baseada em síncroton para construir um modelo tridimensional dos fósseis, além de identificar estruturas celulares internas que os organismos provavelmente usaram para produzir energia. A datação radioativa foi utilizada para confirmar a idade dos fósseis. “Os novos fósseis proporcionaram evidências tangíveis de que a pluricelularidade avançada, ao menos em plantas, apareceu muito antes do que se pensava”, diz Stefan Bengtson, autor sênior do novo artigo e professor emérito paleozoologia no Museu Sueco de História Natural. “Eles sugerem que o período dos primeiros eucariontes talvez precise ser reavaliado drasticamente”.

Sem a presença de DNA - que não pode ser achado em amostras tão surpreendentemente antigas - é impossível confirmar que os novos fósseis realmente sejam antigas algas vermelhas. Bengtson admite isso, mas ele também acredita que as estruturas dos fósseis carregam fortes semelhantes com as de algas vermelhas.

Paul Strother, biólogo da Boston College que estuda a evolução de algas e plantas, e que não está envolvido na pesquisa, não está convencido. “Se isso for real… Elas continuam não mostrando nenhum tipo de diferenciação celular. Todas as células são basicamente as mesmas, e essas formas não representam pluricelularidade complexa”, ele diz.

O professor da cátedra Eau Claire de biologia na Universidade de Wisconsin, Wilson Taylor, que também não esteve envolvido no estudo, acha que mesmo que as novas amostras sejam realmente algas, a procura pela origem da vida complexa ainda tem um longo caminho a seguir. “Se uma alga vermelha realmente tivesse evoluído nesse período… Isso implica em um período anterior de evolução eucarionte de alguma duração”, ele diz. “Quanto tempo antes do horizonte de 1,6 bilhões de anos surgiram os eucariontes, com base naquela primeira ocorrência, ninguém pode imaginar”. Taylor explica que os eucariontes - os quais virtualmente compreendem toda vida não-microscópica na Terra - possivelmente surgiram quando um procarionte engoliu outro e encontrou algum benefício simbiótico que fez o relacionamento prosseguir. Porém, não se sabe quanto tempo foi preciso para que essa comunhão vital se tornasse importante no processo evolutivo.

Como Bengtson apontou, ao passo que algas vermelhas não são o precursor direto das plantas - essa honra pertence aos ancestrais das algas verdes - ambas descendem de um ancestral comum a todas as plantas que existem atualmente na Terra. Assumindo que as novas descobertas são verdadeiras, uma grande questão para os paleobotânicos é por que demorou mais um bilhão de anos para que organismos maiores e mais complexos florescessem.

Foi apenas entre 600 e 500 milhões de anos atrás que plantas e animais maiores começaram a evoluir. Algas submarinas, balançando entre cobertores de micróbios, gradualmente deram espaço para o que conhecemos como plantas. As plantas fizeram o seu caminho até a costa, moldando uma nova paisagem que viria a incluir fungos complexos e, eventualmente, animais terrestres.

Bengtson espera estudar mais as primeiras populações de algas a fim de identificar melhor onde e quando elas surgiram, e por que permaneceram no mar por tanto tempo. Embora os desdobramentos da evolução continuem, sem dúvida, a passar por transformações - alguns passando por mudanças de rota, outros sendo excluídos - os cientistas podem supor que estão se aproximando de uma linhagem precisa da vida na Terra; e que nossos co-habitantes fotossintéticos produtores de oxigênio, dos quais dependem nossas vidas, mancharam o planeta que chamamos de lar durante grande parte de sua existência.

 

Bret Stetka
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