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Vida é coisa rara no Cosmos?

Associação de organismos pode ter conferido complexidade da vida como conhecemos 

Wikimedia commons
Por Caleb A. Scharf, em Blogs da Scientific American

A raridade da vida se baseia na observação de que a existência de formas de vida como a nossa, repletas de complexas células grandes, carentes de energia, pode depender de uma série de fatores muito específicos e improváveis na história da Terra.

Quando somados, esses elementos sugerem que lugares como o nosso planeta podem ser extremamente incomuns no Universo.

Como já apontei em um post anterior [intitulado “O Grande Debate Alienígena”, em inglês], há algumas falhas potenciais em argumentos desse tipo, em grande parte devido ao modo como fazemos inferências post-hoc [conclusivas, a posteriori].

Um dos elementos mais potentes dessa noção de “Terra rara” deriva da sugestão de que nossas “usinas energéticas” celulares, as mitocôndrias, resultam de uma fusão bastante improvável de organismos microbiais mais simples (os procariotas, desprovidos de núcleos celulares) há cerca de 2 bilhões de anos.

Nesse cenário, a estrutura celular complexa dos eucariotas [organismos vivos uni ou pluricelulares constituídos por células dotadas de núcleo], que inclui humanos, plantas, insetos, fungos, etc., começou essencialmente com aquela extremamente afortunada — e, portanto, cosmicamente rara — incorporação mútua e consequente simbiose.

Mas uma nova pesquisa oferece uma alternativa intrigante (embora também não comprovada).

Zhang Wang e Martin Wu da University of Virginia argumentam que, em vez de uma fusão celular randômica, ou incorporação de um procariota por outro, o mecanismo mitocondrial na realidade deriva de um parasita.

O que começou como uma bactéria que roubava energia química acabou se transformando em um organismo que fornecia energia química, em troca de uma vantagem evolutiva.

Essa proposta resulta de uma análise profunda do parentesco genético entre mitocôndrias modernas e 18 bactérias estreitamente aparentadas, que vivem livremente.

De fato, os pesquisadores tentam reconstruir os prováveis processos metabólicos das mitocôndrias mais primitivas e suas precursoras imediatas. Na opinião deles, essas criaturas provavelmente eram parasitas de energia química — possivelmente muito ágeis —, equipados com genes para desenvolverem “caudas”, ou flagelos bacterianos que impulsionam muitos microrganismos.

Por que isso alteraria o argumento da vida complexa rara?

Parasitas são abundantes na natureza. De fato, como o escritor de ciência Carl Zimmer apontou em seu livro Parasite Rex:Inside the Bizarre World of Nature`s Most Dangerous Creatures (Parasita Rex: No interior do bizarro mundo das criaturas mais perigosas da Natureza, em tradução literal), sob muitos aspectos a vida na Terra pode ser considerada como sendo dominada por parasitas. E a beleza deles (sim, todas as coisas são belas no contexto apropriado!) é que sua própria sobrevivência depende de sua capacidade de se insinuar em outros organismos.

Em outras palavras: se mitocôndrias e células complexas são resultados posteriores de uma infestação parasitária, sua existência talvez não seja tão improvável. Havia um forte incentivo para essas espécies mitocondriais ancestrais encontrarem hospedeiros — o resto é apenas seleção natural.

 

Sobre o Autor: Caleb Scharf é diretor do Centro de Astrobiologia multidisciplinar da Columbia University. Ele trabalhou nos campos de cosmologia observacional, astronomia de raios-X, e mais recentemente ciência exoplanetária. Seu livro mais recente é intitulado Gravity`s Engines: How Bubble-Blowing Black Holes Rule Galaxies, Stars, and Life in the Cosmos [“Motores da gravidade: como buracos negros emissores de bolhas governam galáxias, estrelas e vida no Cosmos”, em tradução literal]. Atualmente, ele está trabalhando na obra The Copernicus Complex [“O complexo de Copérnico”, em tradução literal] (ambas de Scientific American/Farrar, Straus and Giroux).

Siga-o no Twitter em @caleb_scharf.

 

As opiniões expressas são as o autor e não necessariamente as da Scientific American.

 

Scientific American 24 de outubro de 2014