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Reportagem |
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| edição 23 - Abril 2004 |
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| A bomba-relógio do aquecimento global |
| Deter o processo requer cooperação internacional urgente e sem precedentes |
| por James Hansen |
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| Iceberg solta-se da geleira de San Rafael no Chile. A desintegração global de massas de gelo tem potencial para elevar o nível do mar em vários metros ou mais. As graves consequências de uma elevação do nível dos oceanos estabelecem o limite inferior de quanto o planeta pode esquentar sem causar caos social. |
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O fenômeno é real e as consequências potencialmente desastrosas. Mesmo assim, ações práticas poderiam desacelerar e, no futuro, deter o processo. O paradoxo da noção do aquecimento global causado pelo homem tornou-se bastante evidente para mim certa tarde de verão em 1976 na praia de Jones Beach, Long Island. Chegamos por volta do meio-dia, eu, minha esposa e meu filho, e logo encontramos um local perto da água para evitar a areia escaldante. Quando o sol se pôs, no final da tarde, uma forte brisa oceânica levantou ondas encarneiradas. Meu filho e eu sentimos frio enquanto corríamos ao longo da praia espumejante e olhávamos as ondas revoltas.
Naquele mesmo verão Andy Lacis e eu, ao lado de outros colegas do Goddard Institute of Space Studies, da Nasa, havíamos estimado o efeito dos gases de efeito estufa sobre o clima. Na época, era fato bem conhecido que os gases de efeito estufa produzidos pelo homem, especialmente o dióxido de carbono e clorofluorcarbonetos (CFCs) estavam se acumulando na atmosfera. Esses gases são uma "forçante" climática, uma perturbação imposta sobre o balanço de energia do planeta. Como um cobertor, eles absorvem radiação infravermelha (calor) que de outra forma escaparia da superfície da Terra e da atmosfera para o espaço.
Nosso grupo havia calculado que estes gases antropogênicos estavam aquecendo a superfície da Terra à razão de quase 2 W/m2 (dois watts por metro quadrado). Uma minúscula lâmpada de árvore de Natal dissipa cerca de 1 W na maior parte sob forma de calor. Portanto, era como se os seres humanos tivessem colocado duas dessas lampadazinhas sobre cada metro quadrado da superfície terrestre, acesas dia e noite.
O paradoxo apresentado por este resultado era o contraste entre as espantosas forças da natureza e as pequeninas lâmpadas. Com certeza seu fraco aquecimento não poderia comandar o vento e as ondas. Mesmo seu aquecimento imperceptível da superfície oceânica deveria rapidamente dissipar-se através da grande profundidade; logo, levaria muitos anos, talvez séculos, para o aquecimento superficial final ser alcançado. |
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| James Hansen É diretor do Goddard Institute for Space Studies da Nasa e pesquisador do Earth Institute, da Columbia University. Obteve seu Ph.D. em física e astronomia na University of Iowa, onde estudou sob orientação de James Van Allen. Hansen é melhor conhecido por seu testemunho nas comissões do Congresso nos anos 80 que ajudaram a elevar o grau de consciência sobre a questão do aquecimento global. |
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