Reportagem
  
edição 17 - Outubro 2003
A busca da pílula da inteligência
Drogas que melhoram a memória e o desempenho cognitivo estão longe de ser aprovadas, mas suas implicações sociais já despertam debates acirrados
por Stephen S. Hall
Tim Tully, do Cold Spring Harbor Laboratory e da Helicon Therapeutics, mostra um camundongo usado em testes para melhorar a memória
Numa tarde de inverno, Tim Tully e eu estávamos no laboratório da Helicon Therapeutics pensando em como seria o futuro da memória e da cognição humanas - ou pelo menos, numa versão plausível para esse futuro. Do lado de fora, uma inesperada tempestade de neve açoitava a paisagem de Long Island. O fato de falarmos sobre o futuro nos remetia ao passado, aos invernos de nossa infância no Meio-Oeste, muitos anos antes. A força com que essas lembranças permanecem - os processos biológicos que gravaram e preservaram essas memórias no nosso cérebro - se encontra no cerne de uma revolução incipiente na neurofarmacologia que hoje se alastra por pequenos laboratórios, relativamente desconhecidos, como este em Farmingdale, Nova York.

Tully, um neurocientista do Laboratório Cold Spring Harbor Laboratory e fundador da Helicon, é um dos principais protagonistas na corrida para o desenvolvimento de uma nova classe de drogas que pode melhorar a memória em casos de incapacitação - drogas que surgem de uma compreensão, cada vez mais sofisticada, da parte molecular e mecanicista que faz com que nos lembremos de tudo, desde tempestades de neve há mais de 30 anos, até onde colocamos as chaves do carro meia hora atrás.

Infelizmente, é a natureza da ciência contemporânea (e conseqüentemente o comércio e a bioética) que temos de evocar para projetar o futuro da cognição humana e a sua manipulação farmacológica, enquanto observamos o comportamento de um camundongo dopado vagando dentro de uma caixa com labirintos. Assim, lá estávamos nós, olhando distraidamente para o vídeo que Tully exibia no seu laptop, e observando um pequeno roedor castanho entrar num ambiente fechado e começar a explorar com passinhos rápidos um cenário experimental conhecido como Treinamento de Reconhecimento de Objetos. Um dia antes, explicou Tully, o camundongo havia sido colocado nessa mesma caixa contendo dois objetos estranhos em forma de maçaneta, cada um com uma identificação olfativa, tátil, além de outros sinais sensoriais próprios. Quando deixamos um camundongo explorar um ambiente como esse durante 15 minutos, prossegue Tully, ele se lembrará de tudo tão bem, que, no dia seguinte, perceberá imediatamente qualquer mudança. Mas, um camundongo que explora um ambiente durante apenas três minutos e meio geralmente não tem tempo suficiente para armazenar detalhes da cena na memória de longo prazo.
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Stephen S. Hall escreveu quatro livros de crônicas da história contemporânea da ciência. O mais recente, um relato de pesquisas sobre células tronco e clonagem: Merchants of Immortality (Houghton Mifflin, 2003), ainda não traduzido.
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